Decisão, que divide os próprios
líderes do presidente, tem o potencial de colocar o Planalto em rota de colisão
com o Parlamento, que deu votação expressiva à matéria
O líder do governo Lula no Congresso
Nacional, senador Randolfe Rodrigues (sem
partido-AP), afirmou nesta quinta-feira, 28, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
planeja vetar o projeto de lei aprovado por deputados e senadores que
estabelece um marco
temporal para a demarcação de terras indígenas. A proposta aprovada no
plenário do Senado Federal na quarta, 27, estabelece 5 de outubro de 1988, data
da promulgação da Constituição Federal, como parâmetro para a reivindicação de
áreas por comunidades tracionais. Na prática, além de caminhar na contramão da
decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou inconstitucional a
tese, o texto propõe que, para reivindicar as terras, os indígenas devem
comprovar que já ocupavam o local antes da data fixada. Aliados e ministros do
governo são contra a matéria, que, segundo eles, representa um “retrocesso que
remonta à chegada dos europeus”. “O atropelo do marco temporal no Senado é uma
afronta à Constituição Federal e às árduas conquistas de direitos por parte das
populações indígenas”, disse Randolfe. A expectativa é que Lula rejeite o texto
e líderes do Planalto no Parlamento atuem, futuramente, para manter o veto
presencial. “Como eles [da oposição] não conseguem responder à pauta econômica
e à melhoria da qualidade de vida do povo, ficam buscando pautas ideológicas.
(…) A matéria indo a sanção, por óbvio, será objeto de veto da parte do
governo”, completou Rodrigues.
Ainda que ministras do governo
Lula 3, como Sônia Guajajara (Povos Originários) e Marina Silva (Meio
Ambiente), e lideranças do presidente no Congresso Nacional já tenham se
manifestado de forma contrária ao marco temporal, na Câmara e
no Senado o projeto foi aprovado com folga e apoio massivo dos parlamentares.
Entre os deputados, a votação a “toque de caixa” foi encerrada com 283 votos a
155 pela fixação da data para demarcação. O resultado, inclusive, foi
amplamente comemorado por membros da bancada ruralista e opositores a Lula,
além de ser considerado uma expressiva derrota do Palácio do Planalto na área
ambiental. Como
o site da Jovem Pan mostrou, na época, o Executivo já esperava um
placar elástico, uma vez que a bancada do agronegócio, de cerca de 300
deputados, considerava a aprovação prioritária. Mesmo assim, líderes
governistas tentaram negociar uma solução provisória e o adiamento da votação –
sem sucesso. Desta vez, no Senado
Federal, o cenário não ficou distante. Foram
43 votos pelo marco temporal e 21 contrários no plenário da Casa Alta, também
sem acordos. Destes 43 votos, todos os 17 senadores de União Brasil,
PP e Republicanos foram a favor do projeto de lei. Os três partidos foram os
últimos contemplados com a reforma ministerial. Os deputados Celso Sabino
(União Brasil-PA), André Fufuca (PP-MA) e Silvio Costa Filho (Republicanos-PE)
foram escolhidos para os ministérios do Turismo, do Esporte e de Portos e
Aeroportos, respectivamente.
Neste cenário, embora o veto seja
um prerrogativa do chefe do Executivo, a posição de Lula poderá representar um
teste de fogo para a base governista, especialmente após as últimas trocas na
Esplanada dos Ministérios visando maior apoio político. O entendimento é que o
veto ao projeto dará acenos a aliados e à militância, bem como as ministras e
comunidades indígenas que apoiam o presidente. Em contrapartida, a rejeição do
marco temporal coloca o Planalto em nova rota de colisão com o Congresso
Nacional, sob o risco de sofrer mais uma derrota, com direito a placar
histórico e apoio inclusive de partidos que integrariam a base governista. “O
desgaste da aprovação do marco temporal de ontem (quarta) ficou no colo do STF.
Se Lula vetar trará para si. Será mais um entre muitos desgastes. E vamos
derrubar o veto se existir. Evidente! Temos ampla maioria no tema. Vai nos dar
mais essa vitória!?? ! Bora. Venceremos! E nos fortaleceremos mais”, afirmou o
senador Carlos Portinho (PL-RJ), líder do PL na Casa, nas redes sociais.
A extensão do veto ao PL do marco
temporal, além do desgaste junto ao Congresso, divide, inclusive, líderes de
Lula. Enquanto Randolfe defende que todo o trecho seja vetado, o líder do
governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), tem sinalizado com a possibilidade de
o presidente da República suspender apenas os “jabutis”, ou seja, trechos que
extrapolam a tese. “Se está discutindo uma tese e se coloca nessa tese uma
série de itens que, seguramente —eu não vou prometer porque não sei a posição
do presidente—, serão vetados. Porque são, vou dizer assim, estranhos ao foco
do PL”, disse Wagner. “Quero pedir vênia ao nosso relator, que eu sei que
manteve [o trecho que libera a retomada de terras demarcadas] para que o projeto
não ficasse indo e vindo, indo e vindo. Para que a gente pudesse, depois,
ponderar e até concordar, eventualmente, com os vetos do presidente da
República sobre esses temas. Não estou falando sobre o central”, acrescentou o
parlamentar. Em suma, mais uma vez, caberá a Lula decidir qual lado
desagradar e, em último caso, ficar à mercê do resultado dos painéis de votação
no Congresso.
Por Jovem Pan

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