Leia a íntegra do discurso de
Roberto Barroso
O ministro Luís Roberto Barroso
tomou posse nesta quinta-feira (28) como presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em seu discurso, ele destacou o
compromisso com a celeridade dos processos judiciais e com o aumento da
participação de mulheres nos tribunais.
Barroso afirmou que vai trabalhar
para tornar os processos judiciais mais rápidos em todo o país. “Venho mapeando
os gargalos e os pontos de congestionamento do Judiciário”, disse. Ele também
destacou “aumentar a participação de mulheres nos tribunais” como uma das
prioridades de sua gestão.
O novo chefe do Poder Judiciário
disse aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara, Arthur
Lira (PP-AL), que vai reforçar a harmonia entre os Poderes. “Somos parceiros
institucionais”, afirmou.
Barroso também criticou o
extremismo, o populismo e o autoritarismo. “O STF não pode ser medido por
pesquisas de opinião”, disse. “Sempre estaremos expostos a críticas e
insatisfação, e isso faz parte da vida democrática”, completou.
A cerimônia de posse foi
acompanhada por autoridades como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), da Câmara, Arthur Lira
(PP-AL), e do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas, além de diversos ministros
e governadores.
Eis a íntegra do discurso do
novo presidente do STF:
GRATIDÃO, JUSTIÇA E O PAÍS QUE
QUEREMOS
Luís Roberto Barroso
- INTRODUÇÃO
Excelentíssimo Senhor Presidente
da República, Luiz Inácio Lula da Silva; Senhor Presidente do Congresso
Nacional, Senador Rodrigo Pacheco; Senhor Presidente da Câmara dos
Deputados, Deputado Arthur Lira; minha eterna Presidente, Ministra Rosa
Weber, nas pessoas de quem cumprimento as autoridades dos três Poderes
aqui presentes. Senhor Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Beto
Simonetti, e Senhora Procuradora-Geral da República em exercício, Elizeta
Ramos, nas pessoas de quem cumprimento todos os advogados e membros do
Ministério Público aqui presentes. Queridos amigos, colegas e
convidados:
Dividi esse discurso, que prometo
não será mais longo do que o necessário, em três partes. A primeira é
dedicada à Gratidão, ao reconhecimento às pessoas que pavimentaram o
meu caminho até aqui; a segunda ao Judiciário, nosso papel e nossas
circunstâncias; e a terceira ao Brasil, essa paixão que nos une e os
compromissos que devemos ter.
Parte I
GRATIDÃO
- AGRADECIMENTOS GERAIS
Poder agradecer é uma bênção.
Dedico esse momento a meus pais, Judith e Roberto, que encheram a minha
vida de afeto e valores, e ainda me deram uma irmã adorável. Tereza, Luna
e Bernardo foram minha inspiração, motivação e alegria pela vida afora.
Sou grato, também, à legião de amigos que cruzaram o meu caminho em fases
diferentes da vida e que a tornaram melhor e mais feliz. Muitos estão
aqui presentes. Homenageio todos eles na pessoa de José Paulo Sepúlveda
Pertence, que há pouco nos deixou. Meu agradecimento se estende a todos
os servidores e assessores que estiveram comigo nesses dez anos de
Supremo, permitindo não apenas que eu reduzisse o acervo do gabinete de
9.500 processos para o mínimo possível – cerca de 900 –, mas também que
eu vivesse muitas vidas em uma só.
Minha gratidão vai também para a
Presidenta Dilma Rousseff, que me indicou para o cargo da forma mais
republicana que um presidente pode agir: não pediu, não insinuou, não
cobrou. Procurei retribuir a confiança servindo ao Brasil sem jamais ter
qualquer outro interesse ou intenção que não fosse a de fazer um país
melhor e maior, um país justo, quem sabe um dia. Aproveito para saudar,
também, o Presidente Lula e os Presidentes Rodrigo Pacheco e Arthur Lira,
que juntamente com este Supremo Tribunal Federal, simbolizam a solidez e
os compromissos democráticos de nossas instituições. Mas há um
agradecimento muito especial que eu gostaria de fazer.
- RECONHECIMENTO AOS MEUS PROFESSORES
Eu nasci em Vassouras, uma
graciosa cidade a duas horas do Rio de Janeiro, repleta de palmeiras
imperiais, de um casario colonial preservado e de gente simples e
generosa, como minha amada Tetê do Carmo. Estudei ao longo da vida no
Colégio de Vassouras, da vovó Maria; na Escola Roma, de Dona Zoraide; no
Colégio Pedro Álvares Cabral, de Dona Florinda; na Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, de Jacob Dolinger e José Carlos Barbosa Moreira.
Também estudei em Yale, com Bruce Ackerman e Harold Koh, e em Harvard,
onde convivi com acadêmicos como Mark Tushnet e Mangabeira Unger. Foi uma
longa jornada até aqui. Meu agradecimento mais especial vai para todos os
professores que iluminaram o meu caminho (o meu e o de todos nós) com
princípios elevados, ideias e bons exemplos. A esse registro, acrescento
uma constatação: sou convencido, por experiência própria, que a coisa mais
importante que um país pode fazer pelos seus filhos é assegurar educação
de qualidade e universal para todos, em todo o ensino básico, e com uma
combinação de mérito e justiça distributiva – social e racial – no ensino
superior. Três prioridades na vida de um país hão de ser: educação,
educação de qualidade e educação para todos.
Antes de seguir adiante, presto
uma homenagem devida e merecida.
III. HOMENAGEM
À MINISTRA ROSA WEBER
Suceder a Ministra Rosa Weber não
é tarefa fácil. Suceder, porque substituí-la seria impossível.
Tornamo-nos amigos queridos desde o primeiro dia em que aqui cheguei. Sua
figura doce e personalidade cativante fizeram do nosso convívio um privilégio
sem tamanho para mim. Como juíza, sua carreira foi impecável, da Justiça
do Trabalho de primeiro grau, no seu amado Rio Grande do Sul, passando
pelo Tribunal Regional do Trabalho, pelo Tribunal Superior do Trabalho
até chegar ao Supremo Tribunal Federal e depois ao Tribunal Superior
Eleitoral. Uma vida completa. Por onde passou, deixou a marca da sua
capacidade e uma legião de admiradores. Aqui no Supremo, foi relatora de
processos memoráveis. No TSE, presidiu com firmeza e competência as polarizadas
eleições de 2018. Também no Supremo, com habilidade imensa, obteve a
aprovação de alterações regimentais importantíssimas. E, em um dos
momentos mais dramáticos de nossa história, liderou a reconstrução deste
Plenário em 21 dias, de modo a que estivesse pronto na reabertura do ano
judiciário.
Ministra Rosa Weber: sei que seu
espírito reservado não é afeito a honrarias. Mas, em nome da nação
agradecida, em nome dos que sabem distinguir as grandes figuras da
história deste Tribunal, eu a reverencio pelos imensos serviços prestados
ao Brasil. Que V. Exa. seja perenemente bendita.
Parte II
O PODER JUDICIÁRIO
- O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Falo agora sobre o Poder
Judiciário, começando pelo Supremo Tribunal Federal, que é o Tribunal da
Constituição. Cabe a ele interpretá-la e, como consequência, preservar a
democracia e promover os direitos fundamentais. Comento cada uma dessas
missões.
- A interpretação da Constituição
A Constituição estrutura o
Estado, demarca a competência dos Poderes e define os direitos e
garantias dos cidadãos. Todas as constituições democráticas fazem isso, a
brasileira inclusive. Porém, a nossa Constituição vai bem além: ela contempla,
também, o sistema econômico, o sistema tributário, o sistema
previdenciário, o sistema de educação, de preservação ambiental, da cultura,
dos meios de comunicação, da proteção às comunidades indígenas, da
família, da criança, do adolescente, do idoso, em meio a muitos outros
temas. Incluir uma matéria na Constituição é, em larga medida, retirá-la
da política e trazê-la para o direito. Essa é a causa da judicialização
ampla da vida no Brasil. Não se trata de ativismo, mas de desenho
institucional. Nenhum Tribunal do mundo decide tantas questões divisivas
da sociedade. Contrariar interesses e visões de mundo é parte inerente ao
nosso papel. Nós sempre estaremos expostos à crítica e à insatisfação.
Por isso mesmo, a virtude de um tribunal jamais poderá ser medida em
pesquisa de opinião.
Nada obstante, é imperativo que o
Tribunal aja com autocontenção e em diálogo com os outros Poderes e a
sociedade, como sempre procuramos fazer e pretendo intensificar. Numa
democracia não há Poderes hegemônicos. Garantindo a independência de cada um,
conviveremos em harmonia, parceiros institucionais pelo bem do
Brasil.
- A defesa da democracia
Nós não somos um
Tribunal de consensos plenos. Nenhum tribunal é. A vida comporta
diferentes pontos de observação e eles se refletem aqui. Porém, estivemos
mais unidos do que nunca na proteção da sociedade brasileira na pandemia.
E, também, estamos sempre juntos, em sólida unidade, na defesa da democracia.
A democracia constitucional é a composição de valores diversos, duas faces
da mesma moeda. De um lado, soberania popular (amplo direito de
participação popular), eleições livres e governo da maioria. De outro,
poder limitado, Estado de direito e respeito aos direitos fundamentais.
Um equilíbrio delicado e fundamental. Em todo o mundo, a democracia
constitucional viveu momentos de sobressalto, com ataques às instituições
e perda de credibilidade. Por aqui, as instituições venceram, tendo ao seu lado
a presença indispensável da sociedade civil, da Imprensa e do Congresso
Nacional. E, justiça seja feita, na hora decisiva, as Forças Armadas não
sucumbiram ao golpismo. Costumamos identificar os culpados de sempre:
extremismo, populismo, autoritarismo… E de fato eles estão
lá.
Mas a recessão democrática fluiu,
também, pelos desvãos da democracia: as promessas não cumpridas de
oportunidades, prosperidade e segurança para todos. As democracias
contemporâneas precisam equacionar e vencer os desafios da inclusão
social, da luta contra as desigualdades injustas e do aprimoramento da
representação política.
- A proteção dos direitos fundamentais
Por fim, cabe-nos a proteção dos
direitos fundamentais, que são os direitos humanos incorporados à ordem
jurídica interna. Direitos fundamentais são a reserva mínima de justiça
de uma sociedade, em termos de liberdade, igualdade e acesso aos bens
materiais e espirituais básicos para uma vida digna. Nessa matéria, temos
procurado empurrar a história na direção certa. Temos sido parceiros da
ascensão das mulheres, na luta envolvente por igual respeito e
consideração, no espaço público e no espaço privado, bem como contra a
violência doméstica e sexual. Também temos atuado, sempre com base na
Constituição, em favor do heroico esforço da população negra por reconhecimento
e iguais oportunidades, validando as ações afirmativas, imprescindíveis
para superar o racismo estrutural que a escravização e sua abolição sem
inclusão acarretaram. Do mesmo modo, a comunidade LGBTQIA+ obteve neste
Tribunal o reconhecimento de importantes direitos, com destaque para a
equiparação das uniões homoafetivas às uniões estáveis convencionais,
tendo por desdobramento a possibilidade do casamento civil.
Mas não foi só. Povos indígenas
passaram a ter a sua dignidade reconhecida, bem como o direito a
preservarem sua cultura e, ao menos, uma parte de suas terras
originárias. Atuamos, ainda, para que pessoas com deficiência sejam valorizadas
na sua diferença, no esforço de se proporcionar acessibilidade e inclusão. A
proteção ambiental foi igualmente objeto de atenção do Supremo, que
procurou enfrentar, dentro dos seus limites, o desmatamento e a mudança
climática. São lutas inacabadas, mas na vida devemos saborear os avanços e
as vitórias. Há quem pense que a defesa dos direitos humanos, da igualdade
da mulher, da proteção ambiental, das ações afirmativas, do respeito à
comunidade LGBTQIA+, da inclusão das pessoas com deficiência, da
preservação das comunidades indígenas são causas progressistas. Não
são. Essas são as causas da humanidade, da dignidade humana, do respeito
e consideração por todas as pessoas. Poucas derrotas do espírito são mais
tristes do que alguém se achar melhor do que os outros.
- A JUSTIÇA NO BRASIL
O Judiciário brasileiro é dos
mais independentes e produtivos do mundo. Independente porque, para
alguém se tornar juiz, o que se exige é haver cursado uma Faculdade de
Direito e ter sido aprovado em um disputado concurso público. Não deve
favor a ninguém. É certo que nos tribunais superiores há um componente
político, como é em todo o mundo. Mas o DNA de independência não se perde.
E a Justiça do Brasil é, também, uma das mais produtivas do planeta,
julgando cerca de 30 milhões de processos por ano. Somos cerca de 18 mil
juízes, sendo a magistratura, provavelmente, a instituição de maior
capilaridade de todo o país. Juízes bem-preparados, íntegros e
vocacionados são uma bênção para a democracia, para a Justiça e para a
cidadania. Comprometo-me a contribuir para que sejam selecionados com
rigor, sejam ouvidos e valorizados. Ainda assim, há dois pontos em que
temos de melhorar. O primeiro: aumentar a participação de mulheres nos
tribunais, com critérios de promoção que levem em conta a paridade de gênero.
E, também, ampliar a diversidade racial. Além disso, com inovações
tecnológicas e Inteligência Artificial, vamos procurar aumentar a eficiência e
a celeridade da tramitação processual no Brasil. Para esse fim, venho
mapeando os gargalos e pontos de congestionamento do Judiciário e vamos
enfrentá-los. Não há lugar para celebração aqui: precisamos melhorar a
qualidade do serviço que prestamos à sociedade brasileira.
III. AS DIRETRIZES DA MINHA
GESTÃO
Com a bênção de Deus e a ajuda
imprescindível dos colegas, pretendo fazer uma gestão em torno de três
grandes eixos. O primeiro deles será o conteúdo, que consiste em
procurar aumentar a eficiência da justiça, avançar a pauta dos direitos
fundamentais e contribuir para o desenvolvimento econômico, social e
sustentável do Brasil. O segundo eixo será o da comunicação, melhorando
a interlocução com a sociedade, expondo em linguagem simples o nosso
papel, explicando didaticamente as decisões, desfazendo incompreensões e
mal-entendidos. E o terceiro será o eixo do relacionamento. O
Judiciário deve ser técnico e imparcial, mas não isolado da sociedade.
Precisamos estar abertos para o mundo, com olhos de ver e ouvidos de ouvir o
sentimento social. A gente na vida deve ser janela e não espelho, ter a capacidade
de olhar para o outro, e não apenas para si mesmo.
O Poder Judiciário, o Direito em
geral, gravita em torno de dois grandes valores: a justiça e a segurança.
Da justiça já falamos. Pretendo dar grande ênfase, também, à
segurança, em três de suas dimensões: segurança jurídica, segurança
democrática e segurança humana. Segurança jurídica para que haja um
bom ambiente
para o desenvolvimento da
economia e dos negócios no país, com incentivo ao empreendedorismo, ao
investimento e à inovação. Sem surpresas. Precisamos superar a
desconfiança que ainda existe no Brasil em relação à livre iniciativa e ao
sucesso empresarial. É daí que vem o emprego, a ascensão social e o
progresso. Não menos importante é a segurança democrática, com
eleições limpas, liberdades públicas, independência entre os Poderes e
respeito às instituições. E, também, como princípio e fim,
a segurança humana, que inclui o combate à pobreza, às desigualdades
injustas e à criminalidade, com segurança pública e valorização das polícias,
treinadas numa imprescindível cultura de respeito à cidadania e aos
direitos humanos.
Meus queridos colegas deste
Tribunal: o Universo nos reuniu aqui porque temos uma missão. Somos um
time, no qual cada um tem uma posição, mas também um objetivo comum. Por
isso mesmo, vamos continuar a estreitar os laços de colegialidade e de
institucionalidade. De minha parte, contem com o diálogo franco e a
parceria afetuosa. Estar aqui é um desafio, um privilégio e um destino, que
cumprimos em conjunto. É muito bom tê-los ao meu lado. E eu ainda tenho a
sorte de ter como Vice-Presidente, meu amigo de toda vida, o Ministro
Luiz Edson Fachin, uma das melhores pessoas que conheci nessa jornada que
já vai longa.
Parte III
O BRASIL
- O BRASIL QUE QUEREMOS
A democracia venceu e precisamos
trabalhar pela pacificação do país. Acabar com os antagonismos
artificialmente criados para nos dividir. Um país não é feito de nós e
eles. Somos um só povo, no pluralismo das ideias, como é próprio de uma
sociedade livre e aberta. “Bastar-se a si mesmo é a maior solidão”, escreveu o
poeta. O sucesso do agronegócio não é incompatível com proteção
ambiental. Pelo contrário. O combate eficiente à criminalidade não é
incompatível com o respeito aos direitos humanos. O enfrentamento à
corrupção não é incompatível com o devido processo legal. Estamos todos
no mesmo barco e precisamos trabalhar para evitar tempestades e
conduzi-lo a porto seguro. Se ele naufragar, o naufrágio é de todos,
independentemente de preferências políticas. No interesse da justiça,
pretendo ouvir a todos, trabalhadores e empresários, comunidades
indígenas e agricultores, produtores rurais e ambientalistas, gente da
cidade e do interior. E, também, conservadores, liberais e progressistas.
Ninguém é dono da verdade, ninguém tem o monopólio do bem e da virtude. A vida
na democracia é a convivência civilizada dos que pensam diferente. E quem
pensa diferente de mim não é meu inimigo, mas meu parceiro na construção
de uma sociedade aberta, plural e democrática.
- UMA AGENDA PARA O BRASIL
Sem que ninguém precise abrir mão
de qualquer convicção, é preciso que o país se aglutine em torno de
denominadores comuns, de uma agenda para o Brasil. Com base na
Constituição, é possível construir esses consensos. Aqui vão alguns deles:
(i) combate à pobreza; (ii) desenvolvimento econômico e social
sustentável; (iii) prioridade
máxima para a educação básica; (iv) valorização da livre iniciativa, bem como
do trabalho formal; (v) investimento em ciência e tecnologia;
(vi) saneamento básico; (vii) habitação popular; e (viii) liderança global
em matéria ambiental. Subjacentes a qualquer agenda, há três elementos
essenciais para se fazer um grande país: integridade, civilidade e
confiança. Todos eles vêm antes da ideologia, antes das escolhas políticas
pessoais. Na verdade, entre pessoas íntegras e civilizadas, a confiança
brota espontaneamente. Sem confiança não há progresso.
III. VALORES QUE DEVEM NOS
GUIAR
No dia da minha posse, em 26 de
junho de 2013, eu publiquei um artigo de autoapresentação, onde escrevi:
creio no bem, na justiça e na tolerância como valores filosóficos
essenciais. Creio na educação, na igualdade, no trabalho e na livre
iniciativa como valores políticos fundamentais. E no constitucionalismo
democrático como forma institucional ideal. Passados dez anos, venho aqui
renovar os mesmos votos. Com alguns novos aprendizados: os países, como
as pessoas, passam pelo que têm de passar para amadurecerem e evoluírem;
a vida no setor público é mais dura e difícil do que parece; se você
estiver cumprindo a missão da sua vida, nem elogio nem crítica têm o
poder de mudar a sua direção; só a verdade ofende: se for mentira, trate
com indiferença; o Brasil é um país onde muita gente coloca as relações
pessoais acima da correção e do dever; na vida, não basta estar certo, é
preciso saber levar; e, muito importante: com boa-fé e boa-vontade, quase
tudo é possível nesse mundo. Há uma última convicção que gostaria de
compartilhar.
A afetividade é uma das energias
mais poderosas do universo. O sentimento sincero de fraternidade e
empatia por todas as pessoas transforma o mundo. Viver sem malícia, sem
espertezas, sem passar os outros para trás. Sem maledicência. Para alguns soará
ingênuo. Mas esse é o caminho para a paz interior, o sucesso pessoal e o
progresso social. A virtude é sua própria recompensa. O resto é aparência. A
história é uma marcha contínua na direção do bem, da justiça e do avanço
civilizatório. Basta olhar através dos tempos: viemos de épocas de
sacrifícios humanos, despotismos cruéis, inquisições e holocaustos até a
era dos direitos humanos. Ainda não plenamente concretizados, mas
vitoriosos na maior parte dos corações e mentes. É certo que a história
não é linear, mas feita de avanços e retrocessos. Porém, mesmo quando não
se consegue ver da superfície, ela continua fluindo como um rio
subterrâneo na direção que tem de seguir. Essa a minha fé racional, a
minha crença mais profunda.
E porque assim é, tenho uma visão
positiva e construtiva da vida, mesmo na adversidade. E nos momentos
difíceis, quando tudo parece fora do lugar, quando as pessoas não se
apresentam na sua melhor versão, eu me consolo com a máxima que rege a
minha vida: não importa o que esteja acontecendo à sua volta: faça você o
melhor papel que puder. E seja bom e correto, mesmo quando ninguém
estiver olhando.
Na minha sabatina no Senado
Federal, aqui hoje representado por seu presidente Rodrigo Pacheco, eu me
vali de uma parábola com a qual gostaria de encerrar esse discurso. Na
vida nós estamos sempre nos equilibrando. Viver é andar numa corda bamba.
A gente se inclina um pouco para um lado, um pouco para o outro e segue
em frente. É assim para todo mundo, não importa se você está no palco ou
na plateia. Às vezes, alguém olhando de fora pode ter a impressão de que
o equilibrista está voando. Não é grave, porque a vida é feita de certas
ilusões. Mas o equilibrista tem de saber que ele está se equilibrando. Porque
se ele achar que está voando, ele vai cair. E na vida real não tem rede.
Pretendo atuar, à frente do Supremo Tribunal Federal e do Poder
Judiciário brasileiro, da forma como acho que a vida deve ser vivida: com
valores, com empatia, com bom humor sempre que possível e, sobretudo, com
humildade.
Assumo a presidência do Supremo e
do CNJ sem esquecer que sou, antes de tudo, um servidor público. Um
servidor da Constituição. Que eu possa ser abençoado para cumprir bem
essa missão.
Muito obrigado.

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