De acordo com a investigação, há pelo menos três indícios de pagamento de propina envolvendo a esposa do ex-ministro, um ex-assessor da pasta e o genro de um dos pastores lobistas
A Polícia Federal (PF) afirma que o ex-ministro Milton Ribeiro cometeu um “façanha criminosa” no Ministério da Educação (MEC) e deu “prestígio” à atuação dos pastores Gilmar dos Santos e Arilton Moura, acusados de cobrar propina para facilitar o repasse de verbas da pasta para os municípios. No documento enviado à Justiça Federal, a corporação cita a suposta prática dos crimes de corrupção passiva privilegiada, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência. Por isso, a PF solicitou a prisão preventiva de Ribeiro, Moura, Santos e de outras duas pessoas. O pedido foi acatado pelo juiz Renato Borelli, da 15.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal. Na tarde desta quinta-feira, 23, o desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), determinou a soltura dos investigados.
“Os fatos acima informados não
deixam dúvidas da façanha criminosa de Milton, Gilmar, Arilton, Helder e
Luciano, em utilizarem o prestígio da administração pública federal para
suposta pratica dos crimes capitulados corrupção passiva privilegiada (§2º do
art. 317), prevaricação (art. 319), advocacia administrativa (art. 321) e
tráfico de influência (art. 332). Aproveito o ensejo para adicionar à
capitulação o crime de Organização Criminosa, Lei 12.850/13, pois é factível
que os investigados estavam estruturalmente organizados e cada um atuando com
divisão de tarefa”, diz um trecho do documento.
De acordo com a investigação, há
pelo menos três indícios de pagamento de propina. Um deles foi a venda de um
veículo, Kia Sportage, pela esposa de Milton Ribeiro, Myriam Ribeiro, para a
filha de Moura, pelo valor de R$ 60 mil, além de extratos bancários que
comprovam transferências de Luciano Freitas Musse, à época gerente de projetos
do Ministério da Educação, para Helder Diego da Silva Bartolomeu, genro de
Arilton Moura. Musse e Bartolomeu também foram presos – a dupla é suspeita de
ter recebido propina dentro do esquema. Em outro trecho do relatório, a Polícia
Federal afirma que Milton Ribeiro “conferia o prestígio da administração
pública federal à atuação dos pastores Gilmar e Arilton”.
“As camadas de atuação são
perceptíveis e individualizam perfeitamente as condutas, sendo o ex-ministro da
Educação quem conferia o prestígio da administração pública federal à atuação
dos pastores Gilmar e Arilton, conferindo aos mesmos honrarias e destaque na
atuação pública da pasta, até mesmo, internamente, nas dependências da sede do
Ministério da Educação, e, sobretudo, nos eventos onde os pastores faziam parte
do dispositivo cerimonial”. “A infiltração de Luciano nos quadros de servidores
da pasta demonstra a sofisticação da atuação agressiva da ORCRIM, que indica
desprezo à probidade administrativa e fé pública. Helder teve sua conta
utilizada para receber propina e também viajou com a comitiva dos pastores”,
segue a corporação.
Como a Jovem Pan mostrou, o Ministério Público
Federal disse à Justiça Federal que os supostos crimes cometidos dentro do MEC
foram praticados com o respaldo do ex-ministro Milton Ribeiro. “Com efeito, as
provas colhidas e já documentadas apapontam para a prática dos crimes de corrupção
ativa, tráfico de influência, prevaricação e advocacia administrativa, todos em
contexto de Organização Criminosa. Como bem apontado pela Autoridade Policial,
os crimes ora investigados foram praticados no âmbito do Ministério da
Educação, ao que tudo indica, com o respaldo do então Chefe da Pasta – Milton
Ribeiro”, diz o parecer da procuradora Carolina de Oliveira. “As provas
carreadas aos autos demonstram a articulação da ORCRIM para utilizar verbas
públicas em contrapartida a benefícios próprios. Como bem apontado pela
Autoridade Policial, tratam-se de pessoas influentes, com vasto conhecimento no
âmbito político, que podem vir a usar seus conhecimentos para atrapalhar as
investigações. Os autos estão instruídos com elementos documentais que revelam,
com efeito, a existência de fumus comissi delicti, devendo ser
resguardado a garantia da ordem pública e a efetividade da instrução criminal”.
Apesar do parecer, a procuradora
foi contra a prisão preventiva de Milton Ribeiro e dos pastores Arilton Moura e
Gilmar dos Santos. Ela defendeu a imposição de medidas cautelares contra os
investigados, como a proibição de comparecerem ao MEC, de manterem contato
entre si e de deixarem o país. A investigação contra Ribeiro e a dupla de
pastores foi aberta após o jornal O Estado de S. Paulo revelar
a existência de um “gabinete paralelo” dentro do Ministério da Educação. Na
sequência, o jornal Folha de S. Paulo divulgou um áudio no
qual Ribeiro afirmava que, a pedido do presidente Jair Bolsonaro, repassava
verbas a municípios indicados por Gilmar dos Santos.
Por André Siqueira

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