Empresário já se manifestou
contra derrubada de publicações; ele ainda prometeu novos negócios e tornar o
algoritmo aberto a todos
O empresário e bilionário Elon Musk teve sua
proposta de compra do Twitter aprovada
nesta segunda, 25, pelo Conselho de administração da rede social. O
empreendedor, que já é dono de companhias como a Tesla (que produz carros
elétricos) e a SpaceX (atuante no mercado espacial), investirá R$ 44 bilhões na
aquisição da companhia e se tornará o acionista. Agora, ficam as dúvidas: o que
pode mudar para os usuários nas rede? Especialistas ouvidos pela Jovem
Pan citam principalmente três pontos: liberdade de
expressão, a possibilidade da criação de um botão de editar tweets e de
integração com mais recursos na transformação digital, usando recursos como
NFTs e se ligando a metaversos. O próprio Musk ainda disse ter a intenção de
tornar o algoritmo do Twitter aberto a todos.
A questão de liberdade de
expressão foi a primeira coisa citada por Musk em sua conta no Twitter após o
anúncio da compra. “A liberdade de expressão é a base de toda democracia
funcional, e o Twitter é a praça digital em que assuntos vitais para o futuro
da humanidade são debatidos”, comentou, antes de dizer que pensa em novos
negócios, abrir o algoritmo para que se torne uma fonte aberta e combater bots
(contas inautênticas) que mandam spam. Anteriormente, Musk já havia reclamado
da moderação do Twitter excluir ou de colocar marcações em posts considerados
como discurso de ódio ou desinformação, e dito que as regras de moderação
deveriam ser alteradas. A
compra da rede social foi celebrada por políticos conservadores brasileiros e
americanos, e o
deputado Carlos Jordy (PL-RJ) pediu que o ex-presidente do Estados Unidos
Donald Trump fosse readmitido na plataforma – Trump foi banido porque a
rede considerou alguns de seus tweets como incitação à violência no dia do
ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. O
ex-presidente, no entanto, prometeu que não voltará.
Wilson Roberto, especialista em
direito digital, lembra que o Twitter ainda depende das leis dos países nos
quais opera. “Por mais que Musk queira deixar a liberdade de expressão
irrestrita, ele não é isento de cumprir a lei. Nada impede que o Judiciário
aplique as regras existentes, e o caso recente do Telegram é um bom exemplo
disse”, comenta Roberto. Recentemente, o Telegram quase foi suspenso no Brasil
por não cumprir decisões judiciais de banir canais que espalhavam fake news e
não apontar um representante no país. Para o especialista, a intenção de Musk é
deixar uma moderação interna atuando apenas em temas mais complexos, como o
nazismo, e o resto só seria alterado por algo externo, por meio da Justiça. “Ele
prometeu que deixará continuarem nas redes até os que o criticam, que não irá
perseguir ninguém”, relembrou.
O professor de marketing digital
da ESPM, João Finamor, relembra que há outro controle possível: o do mercado.
“Acredito que ele só deixará essa liberdade de expressão irrestrita se quiser
enfraquecer a plataforma. Seria um movimento muito arriscado e muito ousado.
Por exemplo: se abrir uma exceção para que o Trump volte, teria que abrir para
todos. No final, o que importa mesmo é o faturamento da empresa. Ele pode
anunciar algumas revisões de regras para gerar ‘awareness’, fazer algo muito
mais teatral ou midiático, o que ele faz sempre”, avalia. “Em nível de
plataforma, mexer muito nessa questão pode impactar de forma negativa, permitir
mais discurso de ódio pode causar problemas”, relata.
O cientista político Alberto
Carlos Almeida, autor do livro “A Cabeça do Eleitor”, concorda com essa
avaliação. “Ele [Musk] pode vir a permitir, mas está sujeito às regras do
mercado. Se começar a permitir discurso de ódio ou fake news no Twitter, vai
haver reação. Pode aumentar a competição com outras empresas, pode ser que
surja uma politicamente correta que atraia usuários descontentes com o ambiente
do Twitter. O ambiente de redes sociais é muito competitivo e ter uma imagem
ruim pode causar perda de usuários, assim como afetar os outros negócios dele.
Nada que ele fizer será sem reação, que também pode ser política, através de
mudança na regulação”, avalia. Para Almeida, Musk busca ter mais poder, mas
talvez nem ele mesmo saiba como executar essa busca e qual o objetivo final a
ser alcançado. “Ele pode querer uma carreira política, ou ajudar a eleger um
candidato que apoie”, especula. Por ter nascido na África do Sul, Musk não
poderia concorrer ao cargo de presidente dos Estados Unidos, mas poderia ocupar
outros cargos, como o de governador.
Outro ponto possível de mudança
no Twitter é a criação de um botão de ‘editar tweets’, o que hoje é impossível:
um post na rede pode ser excluído, mas não alterado depois que for publicado.
Musk fez uma enquete em sua conta perguntando se os usuários queriam esse
botão. Mais de 4 milhões de pessoas votaram, com 73% escolhendo a opção ‘sim’.
Pouco depois, a empresa anunciou testes com essa possibilidade, mas garantiu
que não era por causa de Musk, àquela altura já dono de 9% das ações. Finamor
diz que essa mudança é possível de ser aplicada. “Para a empresa, a questão é o
quanto gera de força de marca, de ser comentada, mesmo que com o pensamento de
‘falem bem ou falem mal, mas falem de mim’. Sem fazer juízos de ética, no final
das contas, isso é bom em termos de negócios”, analisou. Para alguns usuários,
o botão poderia ajudar a corrigir erros, mas também mudar o que foi dito depois
de publicado para pregar peças, fazer publicidade indesejada ou mesmo aplicar
golpes. Outros avaliam que pode ser um ponto positivo, e usuários famosos como
Kim Kardashian, Katy Perry e a conta corporativa do McDonald’s já pediram a
possibilidade de edição. “Acredito que seria algo coerente. Às vezes, falamos
algo no calor do momento e podemos desejar que seja alterada”, pondera Roberto.
Outro ponto é a possibilidade de
novos negócios. “Num caminho de transformação digital, mais recursos podem ser
integrados à rede, como NFTs, novos produtos, ou a integração com metaversos de
outras empresas, como o da Nike ou da Epic Games, uma frente como a que o
Facebook está fazendo, mas sem ser da própria empresa”, cita Finamor entre os
possíveis novos negócios nos quais a rede social poderia investir. Quanto a se
tornar uma fonte aberta, isso significaria que qualquer usuário poderia olhar a
forma de funcionamento da rede e sugerir mudanças para corrigir erros,
solucionar problemas ou simplesmente torná-la melhor. Em uma palestra, Musk
afirmou que os usuários devem poder saber se um tweet foi promovido ou teve sua
visibilidade diminuída para que “não ocorram manipulações pelas costas deles”.
Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter, demonstrou concordância com a ideia
ao dizer que a escolha de qual algoritmo usar deve ser uma possibilidade aberta
a todas as pessoas.
Por Luis Filipe Santos

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