A invasão da Ucrânia está obrigando os europeus a repensar suas fontes energéticas
Os franceses que compareceram às urnas neste domingo, 24, escolheram mais do o chefe do estado francês. Também optaram por um projeto de energia nuclear. De um lado, a candidata Marie Le Pen defende abertamente maior investimento nessa modalidade. Já Emmanuel Macron faz malabarismo com os ambientalistas a fim de angariar votos do Partido Verde.
Existe um consenso entre os dois:
o modelo nuclear deve continuar na França como fonte energética. Macron defende
que “nenhum reator nuclear em estado de produção seja encerrado no futuro, a
menos que por razões essenciais de segurança”. Por outro ladro, Le Pen também
defende a expansão da vida útil das atuais usinas.
A guerra entre Rússia e Ucrânia
impôs uma dura realidade ao bloco europeu: é urgente encontrar uma saída para
dependência do gás russo – responsável por cerca de 40% do gás da Europa.
Com a escalada nas tensões, as
potências europeias intensificaram seus planos de construção de centrais
nucleares. De acordo com relatório publicado no dia 29 de março pela
S&P Global Commodity, é previsto um crescimento das construções de usinas
na Europa. A iniciativa, no entanto, não é suficiente para evitar a queda
gradual da capacidade de energia nuclear, visto que os reatores chegam ao fim
da sua vida útil em 2050.
França
Em fevereiro, o chefe de Estado
francês pediu à Électricité de France (EDF) a construção de seis novos reatores
de água pressurizada de terceira geração (EPR) até 2050. A construção da
primeira usina deve começar em 2028.
Comentando a situação francesa, o
doutor em Ciência Política Elton Gomes afirmou que a realidade está se impondo
a Emmanuel Macron: a energia nuclear é um caminho sem volta.
“Macron se identifica como
centrista puro, mas eu identifico mais como centro-esquerda. Não chega a ser um
social-democrata, mas é uma pessoa defende teses progressistas. Ele flertou
muito com essas ideias do ESG. Isso dava para ele um certo prestígio, uma
superioridade moral, mas ele foi confrontado com sua excelência, o fato, que
diz que: se a França não reativar as usinas atômicas ou permitir que as que
estão em operação sejam desativadas, isso levará inevitavelmente ao colapso
energético do país. Então ele já foi mudando seu posicionamento. Marie Le Pen,
que representa essa força conservadora, de direita, já se mostrou favorável à
energia nuclear.”
Elton complementa que o
presidente francês deverá ser prudente em relação às declarações ao
público. “Macron precisa ser cuidado. Ele nem pode fazer uma declaração
efusiva, escancarada em favor da energia atômica, nem pode deixar de considerar
essa possibilidade. Hoje a França não tem outras alternativas. Talvez no
futuro, com infraestrutura, pode trazer gás da Argélia ou importar mais dos Estados
Unidos – que é mais caro.”
Reino Unido
De olho na dependência do gás
russo, o Reino Unido também se movimenta para avançar na pauta nuclear. Em 21
de março, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, se reuniu com
representantes da indústria e tecnologia nucleares para discutir
alternativas. Participaram da reunião as empresas Electricite de France
SA, Bechtel Group Inc. e Westinghouse Electric Co., além de bancos e fundos de
pensão.
No momento, o Reino Unido produz
cerca de 16% da sua energia a partir de centrais nucleares, mas vários reatores
estão previstos para o encerramento. O objetivo é fazer com que esse percentual
se eleve para 25%. O governo Johson já havia indicado a pretensão de construir
uma usina nuclear de grandes proporções até 2024.
Dentre os obstáculos a serem
superados, o Reino Unido espera realizar mudanças na regulação do setor. O
intuito é dar aos investidores a longo prazo mais certezas sobre os retornos
financeiros. A medida também deseja mostrar que governo britânico está mais ambicioso
em relação à energia nuclear.
Alemanha
Indo na contramão dos principais
países da região europeia, a Alemanha se encontra em um impasse sobre a
permanência de usinas em seu território. O país possui uma profunda dependência
do combustível russo.
De acordo com dados da AG Energiebilanzen e.V. –
principal grupo de pesquisa do setor energético – o gás natural representa
26,7% da matriz energética alemã. Mas, segundo o Gabinete de Estatísticas da
União Europeia (Eurostat), o gás russo representava 66% desse percentual.
No último dia 5 de abril, o
ministro da Energia da Alemanha, Robert Habeck, afirmou que o governo já
reduziu para 40% a participação russa no gás nos primeiros meses do ano. Nesta
quarta-feira, 20, o chanceler alemão, Olaf Scholz, anunciou querer zerar
importação de petróleo russo até o fim do ano. A commodity é responsável por
32% da energia da Alemanha, sendo a maior parte provinda da Rússia.
Apesar da drástica dependência
energética e da posição da Rússia no cenário internacional, o governo do
chanceler Scholz insiste em eliminar a energia nuclear de seu país. Em 6
de abril, ele reiterou sua posição contrária à energia nuclear e defendeu o
fechamento das usinas. As três últimas unidades estão previstas para serem
encerradas até o final deste ano. A mudança de posicionamento se iniciou em
2011, na gestão de Angela Merkel, após a catástrofe de em Fukushima, Japão.
“Decidimos, por razões que
considero muito boas e corretas, que as queremos desativar gradualmente”,
declarou Scholz, na Câmara Baixa do Parlamento em Berlim. Ao responder o
apelo de um parlamentar para que o governo mantivesse a energia nuclear, Olaf
afirmou que a proposta “não seria um bom plano”. Para escapar da dependência
russa, o gabinete de Scholz aprovou um pacote de medidas destinadas a tonar a
Alemanha independente dos combustíveis fósseis até 2035. O objetivo é cortar as
emissões de poluentes e aumentar a quota de energia renováveis para 80% até
2030.
Ainda em abril, uma pesquisa
realizada pelo instituto Deutschlandtrend no mostrou que 53% dos alemães são a
favor que as centrais nucleares já existentes permaneçam abertas. A mudança de
opinião é drástica em comparação ao início do ano, quando a maioria era a favor
do fechamento das plantas nucleares.
Protesto antinuclear um dia antes
do fechamento da usina de Grohnde, na Alemanha em 2021. Foto: Michael Löwa /
divulgação Greenpeace.
Parte das medidas tomadas pelo
novo governo alemão ecoam na disputa de poder político dentro do próprio
parlamento, o Bundestag. Para Elton Gomes, Olaf precisou adotar o discurso
ecológico para manter sua base de sustentação no legislativo.
“A situação da Alemanha é muito
complexa, de longe é a mais complicada desses três grandes da Europa [França,
Inglaterra e Alemanha]. A Alemanha viu crescer nos últimos 20 anos o Partido
Verde. Esse partido passou a ser instrumental para as coalizões governativas.
Ninguém consegue efetivamente conquistar e manter maioria no parlamento sem o
apoio do Partido Verde”, afirmou Elton.
Ele também destacou que o lobby
ambientalista foi responsável direto pela mudança de mentalidade da população
alemã.
“Então, se formou um estado de
coisas na política doméstica alemã que fez com que o lobby para a chamada
energia ESG ganhassem muito poder. Eles fizeram a cabeça da opinião pública
alemã. Parte do argumento deles é verdadeiro, de adoção de energias limpas e
renováveis, mas o resto é ideológico”, disse.
O lobby contra a energia nuclear
permeou a política. Em 2022, Alemanha e Rússia finalizaram a construção do
gasoduto Nord Stream 2. A obra, iniciada em 2018, foi alvo de controvérsias
desde o início deste século. Uma delas foi ter o ex-chanceler alemão Gerhard
Schröder como um de seus principais apoiadores.
“Efetivamente, a situação da
Alemanha também se complicou muito porque, como esse lobby se fortaleceu
bastante, figuras da política alemã, como Gerhard Schröder, se tornaram eles
mesmos pessoas muito próximas da indústria de gás e com muitas conexões com o
mercado e a política russa”, complementou Gomes.
Em 2005, Schröder assinou um
acordo com a Rússia para a construção do Nord Stream 1. Após perder o cargo de
chanceler para Merkel, ele foi nomeado por Purin como chefe do comitê de
acionistas da Nord Stream AG, empresa responsável pela construção do gasoduto.
O equipamento custou 8,8 bilhões de euros e atravessa o Mar Báltico, partindo
de Vyborg, na Rússia, até Lubmin, na Alemanha.
Na construção da Nord Stream 2,
Schröder também foi nomeado por Putin para a comandar a nova empreitada, sendo
alçado à presidência do conselho de administração da Nord Stream II AG e ao
conselho de administração da Gazprom – empresa estatal russa de gás.
Propaganda do NordStream (Foto:
reprodução Wikipedia)
O presidente alemão, Frank-Walter
Steinmeier, admitiu que ter levado adiante a construção do gasoduto foi um
erro. Ele foi ministro das Relações Exteriores na gestão Angela
Merkel. Sendo um defensor de longa data sobre a reaproximação do ocidente
com a Rússia, Steinmeier reconheceu que a conflito na Ucrânia afastou a
possibilidade de diálogo.
“Meu apoio ao Nord Stream 2 foi
claramente um erro”, disse ele. “Estávamos aderindo a uma ponte na qual a
Rússia não acreditava mais e contra a qual outros parceiros nos
alertaram.” E acrescentou: “Nós falhamos em construir uma casa europeia
comum. Eu não acreditava que Vladimir Putin abraçaria a completa ruína
econômica, política e moral de seu país por causa de sua loucura imperial.
Nisto, eu, como outros, estava enganado.”
Outros países da Europa
Além de França, Alemanha e Reino
Unido, outros países da Europa também correm para aumentar o desempenho de suas
usinas atômicas. A guerra entre Rússia e Ucrânia acabou invertendo suas
prioridades em relação ao desenvolvimento energético.
Bélgica, República Checa, Polônia
e Romênia procuram manter suas plantas nucleares ou estender seu tempo de vida.
Em entrevista ao jornal Washington Post, o presidente da
Westinghouse – empresa especializada em soluções energéticas – David Durham
confirmou a movimentação do bloco europeu.
“Todos estão fazendo pelas mesmas
razões: descarbonização, segurança energética e segurança nacional”, disse
Durham. Ele confirmou que a empresa assinou contratos com 19 entidades
governamentais de diversos países europeus para o desenvolvimento de
estratégias para o setor.
Cazaquistão
As empresas responsáveis pela
produção de energia no bloco europeu também correm para encontrar soluções
frente ao impasse russo. Forçados a cortarem a compra de combustível nuclear do
país de Putin, os produtores enxergam no Cazaquistão uma alternativa para a
questão. O país é o terceiro maior fornecedor de urânio à Europa,
fornecendo 19,2% em 2020, depois do Níger (20,3%) e da Rússia (20,2%).
Em comunicado, a empresa estatal
Kazatomprom, a empresa atómica do Cazaquistão, anunciou estar aumentando sua
produção de derivados do urânio, octoxido de triurânio (tU) . “O volume de
produção em 2022 deverá situar-se entre 21.000 tU e 22.000 tU”, explicou a
empresa. Entretanto, a estatal observou que o quadro de demanda no período pós
pandemia de covid-19 afetou a cadeia de abastecimento, limitando o acesso a
materiais importantes para a produção de combustível nuclear.


0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!