Em 2015, o ministro do STF
elogiou a Lava Jato; nesta semana, porém, acusou-a de praticar um conjunto de
ações criminosas
Qual é o valor da palavra de um
ministro do Supremo
Tribunal Federal? É uma questão que deveria ter importância,
considerando-se que tudo aquilo que é dito por um ministro do principal
tribunal de Justiça do país a respeito de temas sob apreciação judicial tem
consequências objetivas. Serve, acima de tudo, como baliza para as suas
decisões, e para as decisões da corte em geral — é de interesse imediato,
portanto, para todos os que têm algum assunto a tratar no STF. Deveria ter
muita importância, sim — mas o exame dos fatos mostra que a palavra em público
de um ministro do STF vale um dia e não vale no outro. Mais: vale uma coisa
hoje, e o exato contrário amanhã.
O ministro Gilmar Mendes, em
2015, fez afirmações absolutamente claras a respeito de suas convicções quanto
ao acerto do combate à corrupção no Brasil. Fez até mesmo, em voz alta,
cálculos sobre quanto dinheiro o PT tinha roubado nos governos Lula e Dilma;
alertou, alarmado, para o que descreveu como uma tentativa do partido de usar a
roubalheira para se eternizar no poder. O que o ministro falou na ocasião está
gravado; não há nada que se possa fazer a respeito. Pois esse mesmo Gilmar
Mendes, passado o tempo, acaba de dizer que a Operação Lava Jato, que desvendou
e puniu tais horrores, é um conjunto de ações criminosas: recorreu à “tortura”
para obter confissões, segundo ele. Os ladrões, agora, não são criminosos — são
vítimas. Os magistrados que tentaram lhes dar combate não são mais defensores
da sociedade — são bandidos, sujeitos a punição por prática de crime descrito
no Código Penal Brasileiro.
Que nexo pode fazer uma aberração
dessas? Coitado de quem teve a má ideia de acreditar na palavra do ministro em
2015; não lhe serve mais para nada em 2022. É o mesmo ministro, o mesmo STF e a
mesma ladroagem, mas o “conteúdo”, como se diz hoje, é o oposto. Nosso tribunal
supremo, hoje em dia, não pode ser tratado com um lugar onde o cidadão e os
seus representantes vão buscar a proteção da lei; é muito mais prático tratá-lo
como a Bolsa de Valores, onde o que vale é a cotação do dia. A quanto está
cotada, hoje, a palavra do ministro tal? A tanto. É só checar direito. Os
escritórios de advocacia criminal que cobram milhões para defender clientes
acusados de corrupção sabem muito bem disso. Não ficam esquentando a cabeça com
jurisprudências e outras chatices. Sempre sabem o que os ministros estão
pensando no dia.
(J.R. Guzzo, publicado
no jornal O Estado de S. Paulo em 9 de março de 2022)
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