Se Voznesensk fosse dominada pelo Kremlin, as principais linhas de comunicação do país seriam cortadas
Com um fuzil Kalashnikov em mãos,
o diretor funerário da cidade de Voznesensk, Mykhailo Sokurenko, passou a
última terça-feira, 15, andando por campos e florestas. Ele estava recolhendo
centenas de corpos de soldados russos, abatidos em confronto com militares e
voluntários ucranianos. Parte desses cadáveres foi levada para um vagão de trem
que foi transformado em necrotério. “Às vezes, gostaria de poder colocar
esses corpos em um avião e jogá-los em Moscou, para que percebam o que está
acontecendo aqui”, disse Sokurenko, ao colocar um cadáver russo em um
plástico azul.
Essa cena é resultado da batalha
sangrenta que ocorrera dias antes, cujos detalhes foram revelados apenas nesta
quinta-feira, 17, pelo The Wall Street Journal. Cerca de 100
soldados russos morreram, 30 blindados foram completamente destruídos e um helicóptero
foi derrubado.
O desempenho dos defensores
ucranianos contra um inimigo mais bem armado, numa região predominantemente de
língua russa, foi bem-sucedido em razão do amplo apoio popular à causa
ucraniana, explica a reportagem. “Todo mundo está unido contra o inimigo
comum”, disse o prefeito de Voznesensk, Yevheni Velichko, ex-empreendedor
imobiliário que virou líder político em tempos de guerra. “Estamos
defendendo nossa própria terra.”
Cerca de dez civis ucranianos
morreram durante o combate e mais dois perderam a vida depois de atingir uma
mina terrestre, segundo autoridades locais. As mortes ocorreram principalmente
entre os combatentes voluntários da Defesa Territorial, disseram moradores da
região.
Voznesenk, cidade de 35 mil
habitantes que fica a 32 quilômetros da Usina Nuclear do Sul da Ucrânia, seria
fundamental para os russos, que ficariam mais perto de Odessa, um importante
polo marítimo localizado no sudoeste do país.
O início
O prefeito e alguns empresários
trabalharam em conjunto para desenterrar as margens do Rio Mertvovod, de
maneira a impedir que veículos blindados pudessem atravessá-lo. Proprietários
de pedreiras e de empresas de construção também participaram e bloquearam a
maioria das ruas, a fim de deslocar as tropas russas para as áreas onde seriam
mais fáceis de atingir com a artilharia.
Antes do avanço russo,
engenheiros militares ucranianos explodiram a ponte sobre o Mertvovod e
destruíram uma ponte ferroviária que fica nos limites da cidade. À espera dos
russos estavam tropas do Exército Regular da Ucrânia e integrantes da Força de
Defesa Territorial, criada para recrutar e armar voluntários que queiram
proteger as comunidades locais.
A ofensiva russa começou com o lançamento
de mísseis e bombardeios, que atingiram a região central de Voznesenk. A
piscina municipal e os arranha-céus da região foram danificados. Helicópteros
realizaram ataques aéreos em um cume arborizado a sudoeste da cidade, enquanto
uma coluna blindada vinha do sudeste. Oficiais ucranianos estimam que cerca de
400 soldados russos participaram do ataque. O número teria sido maior se essas
forças não tivessem sofrido bombardeios pesados ao longo do caminho.
De acordo com a reportagem,
soldados russos invadiram o jardim de uma moradora de Rakove, no município de
Voznesenk, e lhe obrigaram a sair. Eles estacionaram quatro tanques e diversos
veículos de combate no local. Da mesma maneira, outro morador encontrou cinco
soldados russos em sua cabana. Eles pegaram o telefone da vítima e a forçaram a
deitar no chão. “Quando perceberam que não havia nada para roubar, permitiram
que meu marido levantasse”, revelou a esposa.
Os russos tomaram as casas dos
aldeões e instalaram um atirador no telhado. Eles procuravam sacos para encher
com terra, de modo a criar fortificações, e queimavam feno, para criar uma
cortina de fumaça.
Sem planos
Descendo a colina de Rakove, as
tropas russas estabeleceram uma base em um posto de gasolina na entrada de
Voznesenk. Então, um veículo de combate de infantaria dirigiu-se para a ponte
explodida de Mertvovod, abrindo fogo contra a base da Defesa Territorial da
Ucrânia. Foram cinco ataques, que atingiram um campo de trigo com vista para
Voznesenk.
Os soldados ucranianos, armados
com Kalashnikovs, estavam escondidos em um prédio à beira do vilarejo. Eles não
conseguiram combater, com suas metralhadoras, o arsenal militar russo. Alguns
foram mortos, outros escaparam.
Ao observar a cena, o dono de uma
empresa de transporte de cascalho e areia se escondeu em um bosque na beira do
campo de trigo, sob chuva torrencial. Ele estava ao telefone com uma unidade de
artilharia ucraniana. Enviando coordenadas pelo aplicativo de mensagens Viber,
conseguiu disparar contra os soldados russos. Os voluntários ucranianos também
fizeram a mesma coisa. “Todo mundo ajudou”, disse o empresário.
O bombardeio ucraniano formou
crateras no campo, enquanto alguns veículos russos foram completamente
destruídos. Outras tropas regulares ucranianas moveram-se em direção aos
tanques russos a pé e dispararam mísseis Javelin, fornecidos pelos Estados
Unidos. Quando os blindados pegaram fogo, os soldados russos fugiram.
Vadym Dombrovsky, o comandante
das tropas especiais ucranianas, disse ter capturado vários soldados com cerca
de 20 anos e um tenente de 31 anos, que pertencia à Inteligência Militar da
Rússia. “Não tínhamos um único tanque contra eles — apenas granadas, mísseis
Javelin e artilharias”, ressaltou. “Os russos não esperavam que fôssemos tão
fortes. Foi uma surpresa. Eles receberam ordens para entrar, prender e aguardar
mais instruções. Mas não havia ordens sobre o que fazer em caso de derrota.
Isso não foi planejado.”
Mesmo com o recuo, as forças
russas bombardearam Rakove. Um ataque direto perfurou o telhado de uma clínica
local, onde a mãe de Dombrovsky trabalha como enfermeira. “Haviamos acabado de
construir um novo telhado”, disse a mulher. “Mas o principal é que os
expulsamos e sobrevivemos.”
Quando os aldeões retornaram a
Rakove, encontraram suas casas saqueadas. “Cobertores, talheres, tudo se foi”,
lamentou uma moradora. “Banha, leite e queijo também. Eles não levaram batatas
porque não teriam tempo de cozinhar”, acrescentou. As casas das aldeias ainda
tinham vestígios de soldados russos. Alguns armários estavam abertos, em razão
dos saques, e rações militares russas e alimentos em conserva estavam
espalhados pelo chão.
Fim da linha
A 80ª Brigada do Exército da
Ucrânia rebocou os últimos tanques russos restantes com um “Z” pintado nas
laterais — o selo de identificação que, na Rússia, tornou-se símbolo da
invasão. Cerca de 15 tanques e outros veículos estavam em condições de
trabalho, segundo Dombrovsky. “Estamos prontos para atingir os russos com suas
próprias armas”, afirmou. Outros veículos militares, em sua maioria queimados,
foram removidos das ruas porque assustavam civis e continuam com munições,
segundo o prefeito da cidade.
A eletricidade, interrompida
durante o combate, voltou em Voznesenk, assim como os serviços de internet, gás
e água. Caixas eletrônicos foram reabastecidos com dinheiro, e supermercados
com alimentos. As únicas explosões que ainda ocorrem são de esquadrões
antibombas.
Spartak Kukasian, chefe do
conselho distrital de Voznesenk, disse que a cidade está começando a se
acostumar com a vida pacífica novamente. “Quem ri por último, ri melhor”,
afirmou. “Não tivemos a chance de rir até agora.”
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