Doze dias depois da tragédia que
atingiu Petrópolis, o comércio da cidade tenta retomar os negócios. A enxurrada
que começou no meio da tarde do último dia 15 fez o nível da água subir
rapidamente e pegou todos de surpresa, impedindo que tomassem medidas de
proteção do estoque, gerando prejuízos aos comerciantes.![]()
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As lojas situadas na rua do
Imperador, uma das principais do centro, foram duramente atingidas. Na
Papelaria Obelisco, uma das mais tradicionais com 40 anos no mercado, a perda
foi total, disse o gerente Diego Silveira.
“Essa época sempre chove bem, mas
nesse dia a chuva não parou. Quando a gente viu, os carros já estavam boiando e
não deu tempo de botar todas as comportas. Nesse dia, a água passou do nosso
peito. Perdemos tudo o que tinha na loja. O prejuízo é perto de R$ 1 milhão.
Nós estávamos no período escolar, então estávamos tendo uma boa venda. Não tem
o que fazer”, afirmou Diego. A situação da papelaria só não é pior porque ela
pertence a uma grande rede estadual, que deve absorver o prejuízo em sua
estrutura.
Outros comerciantes não têm essa
facilidade, pois eles têm lojas familiares, passadas de pai para filhos, e
amargaram por conta própria o prejuízo. Um exemplo é a loja de instrumentos
musicais Casa Seabra, fundada em 1969 e tocada pela própria família. Segundo a
gerente Ariadne Marques dos Santos, filha do fundador, a água subiu tão
depressa que não foi possível retirar boa parte dos instrumentos musicais, que
tiveram perda total.
“Está sendo bem difícil. Porque a
gente não imaginava que ia acontecer uma coisa dessa. Foi inesperado. Já houve
outras enchentes, mas não perdemos nada, pois colocávamos os instrumentos acima
de um metro de altura. Só que esta chuva foi atípica, subiu mais de um metro e
meio [a água]. Perdemos muitos instrumentos, acessórios e balcões. Tudo vai ter
que ser trocado, até as paredes. Vamos reabrir depois do carnaval, mas não sei
quando. O prejuízo foi em torno de R$ 150 mil”, contou Ariadne.
Enquanto os comerciantes da
região central contavam as perdas materiais, outros lamentavam a perda dos
clientes mortos nos deslizamentos, conforme lembrou Jaime dos Santos, que tem
um pequeno boteco, na subida do Morro da Oficina, onde morreu a maior parte das
pessoas na tragédia.
O comerciante Jaime dos Santos
retoma atividades em sua lanchonete no Morro da Oficina, após as chuvas em
Petrópolis. - Fernando Frazão/Agência Brasil
“Nunca pensei que isso pudesse
acontecer. Tinha muita gente conhecida, que não virá mais vir aqui no meu bar.
Infelizmente. Eles morreram. Vão ficar na memória”, desabafou Jaime, cujo bar
ficou cinco dias fechado, pois não havia fornecimento de água. O
estabelecimento não foi afetado, mas poucos metros à frente, do outro lado da
rua, praticamente tudo desabou.
Confecções
Petrópolis é famosa pela
quantidade de lojas de roupas e empresas de confecções, o que leva centenas de
pessoas a subir a serra diariamente, principalmente nos fins de semana, em
busca de boas ofertas.
Para esses empresários, a
esperança é ter o trabalho normalizado no meio do ano. Addison Meneses, que
também é presidente do Sindicato das Indústrias de Confecções de Petrópolis,
tem uma empresa considerada de pequeno/médio porte. Antes da pandemia, a
produção girava em torno de cinco mil peças por mês.
“Acho que não vai demorar muito
para a nossa engrenagem voltar a funcionar. Para o inverno agora, a gente já
vai estar trabalhando de novo. É uma temporada importantíssima. Acho que daqui
a dois, três meses, as pessoas já estão com as lojas em condições de receber
(clientes). O primeiro impacto é realmente muito ruim, mas as pessoas vão se
reinventar”, disse Addison.
Um dos motivos pelos quais ele
acredita na recuperação é que o setor hoje é mais pulverizado. No lugar das
grandes empresas que marcaram a cidade como o maior polo industrial da América
do Sul nos anos 50 e 60, hoje atuam companhias menores, com poucos
funcionários, mas há também a mão de obra de costureiras que fazem os seus
serviços em casa.
A empresa de Addison, instalada
em Petrópolis há 37 anos, tem cinco empregadas contratadas e o restante das
peças fica por conta dos grupos de costureiras espalhados pela cidade, em geral
com no máximo de três em cada localidade. O problema agora é que muitas moram
em áreas bastante atingidas pela chuva como é a região da 24 de maio.
“Vai abalar o setor, o
empresário, mas a gente vai se reinventar rapidinho por estar pulverizado.
Muita gente também vende para fora da cidade. O que a gente vai ter que
reconstruir é a Rua Teresa, que hoje está parada”, explicou.
Comerciantes da Rua do
Imperador, na região central de Petrópolis, voltaram a trabalhar após as
chuvas. - Fernando Frazão/Agência Brasil
Embora confiante no retorno da
atividade, Addison destacou que, para recuperar a produção, os empresários
precisam da ajuda do poder público com a liberação de créditos. Ele espera
poder reabrir a empresa na próxima semana.
“A gente tem que fazer com que o
governo olhe de uma forma especial para o empresário da região, dando recursos
ao custo viável e com tempo para pagar as prestações e as pessoas terem um
fôlego para reconstruir. Teve gente que perdeu estoque, teve quem perdeu
máquina. Como é uma coisa muito pulverizada, o empresário está sem dinheiro,
mas ele vai dar um jeito se o governo ajudar. Até mesmo por causa da pandemia,
os empresários já estão há um tempo com a situação complicada”, completou.
Por Cristina Índio do Brasil e
Vladimir Platonow - Agência Brasil - Rio de Janeiro
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