(Por J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 3 de janeiro de 2022)
O Brasil encerrou o ano de 2021
com uma vergonha estampada no meio da testa: pela primeira vez, desde o regime
militar, e num caso único em qualquer nação democrática do mundo, há um preso
político trancado numa cela de presídio neste país. Em nome das “instituições
democráticas”, e agindo como um porão de polícia secreta, o Supremo Tribunal
Federal mantém preso há mais de quatro meses, sem direito de defesa e sem
processo legal, um cidadão que não cometeu nenhum crime para o qual a lei
brasileira prevê prisão. Está cumprindo pena sem ter sido processado, julgado e
muito menos condenado.
O ex-deputado Roberto Jefferson
está preso na penitenciária de Bangu porque dirigiu ofensas aos ministros do
STF. Insulto não é nenhum crime que permita a autoridade pública jogar um
cidadão na cadeia. No máximo, é delito de injúria, no qual o autor é processado
em liberdade; caso condenado, jamais cumpre pena de prisão, ainda mais se é réu
primário. Mas Jefferson não está respondendo a nenhum processo legal na Justiça
— foi preso por ordem pessoal de um ministro do STF, e vai ficar na prisão por
quanto tempo o ministro quiser, sem que seus advogados possam recorrer a nada
ou a ninguém. Isso se chama prisão política. Só acontece em ditadura.
A prisão do ex-deputado é, como
tantos outros, um ato puramente ilegal do STF. A desculpa utilizada pelo
ministro Alexandre de Moraes — que neste caso consegue o prodígio de agir, ao
mesmo tempo, como delegado de polícia, carcereiro, promotor e juiz — é que
Jefferson é uma “ameaça à democracia”. Como assim? Por acaso ele está
comandando algum grupo terrorista? Está armazenando armas para dar um golpe de
Estado, ou treinando combatentes para atos de violência? É claro que não, mas e
daí? Moraes acha que ele é uma “ameaça à democracia”, e isso, no seu entender,
permite à autoridade ignorar a lei e eliminar os direitos individuais do
acusado.
Tecnicamente, o ex-deputado está
em “prisão preventiva” — medida que se aplica a criminosos que são um perigo
real e imediato para a segurança dos demais cidadãos, ou que vão cometer crimes
outra vez. É um disparate em estado puro, mas Moraes decretou que a prisão de
Jefferson é “necessária e imprescindível” — o que consegue ofender, ao mesmo
tempo, a lógica e a gramática. É onde estamos.
A mídia, as classes intelectuais,
os defensores dos direitos humanos e o restante do “Brasil democrático” não
dizem uma sílaba sobre nada disso. Como Jefferson é um homem de direita, acham
que ele não tem direito à proteção da lei. Talvez esteja aí, no fundo, a pior
vergonha.
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