A polêmica figura de Rodrigo Duterte, com seu incentivo de guerra às drogas e retórica autoritária que chegou a ameaçar de prisão quem se recusasse a tomar vacina contra a Covid-19, vai se aposentar e deixar o comando das Filipinas, país com posição estratégica diante da China, abrindo espaço para uma incógnita sobre quem será o próximo presidente do país de 106 milhões de habitantes, que não permite a reeleição. Antes do anúncio de aposentadoria de Duterte, a comunidade internacional apostava que o político concorreria a um cargo no Senado ou na vice-presidência, que é escolhida à parte do chefe do Executivo. O anúncio dele, porém, mostra que o campo continua aberto para novos candidatos. Relações com os Estados Unidos e o papel das duas nações no cenário internacional devem guiar parte dos debates eleitorais no primeiro semestre.
Os anos de governo de Duterte,
considerado autoritário por especialistas, foram marcados domesticamente por
uma política de extermínio a traficantes e consumidores de drogas,
principalmente nas ruas da capital Manila. Externamente, porém, o governo dele
pareceu ter uma boa noção do estratégico posicionamento geográfico do país em
relação à China e dos interesses norte-americanos na região. “Houve no governo
de Duterte uma tentativa de reorientar a política externa das Filipinas. Nos
primeiros anos, há uma rivalidade com o Obama. Com o Trump, ele teve até um
certo alinhamento, mas isso não implicou em um afastamento das Filipinas com a
China, por exemplo”, afirma o professor da Escola de Relações Internacionais da
Fundação Getúlio Vargas (FGV), Pedro Brites.
A filha do presidente, Sara
Duterte, que foi cotada para suceder o pai na busca pelo maior cargo do país,
decidiu concorrer à cadeira de vice e é favorita para o cargo. Na busca pela
presidência, ganham destaque nas primeiras pesquisas dois nomes da cultura pop
local, o ex-boxeador Manny Pacquiao, que é senador, e o ex-ator e prefeito de
Manila, Francisco Domagoso. O filho do ex-ditador Ferdinand Marcos, conhecido
como “Bongbong Jr”., também é considerado um favorito. “Ele sempre foi um
político muito alinhado ao que vinha acontecendo nesses últimos anos nas
Filipinas, diria quase que um dos braços direitos do Duterte. Diria que isso
indica uma tendência de continuidade, mas a gente tem um panorama bem diverso”,
analisa Brites. Como um “ponto de oposição” ao autoritarismo de Duterte, o
professor de Relações Internacionais da ESPM, Roberto Uebel, aponta a
candidatura da ex-vice do país, Leni Robredo, que também se mostra como uma
figura mais moderada, mas até o momento não alcançou marcas significativas nas
pesquisas.
Os especialistas convergem ao
falar que mais importante do que o nome que vai substituir Duterte é qual o
papel que aquela pessoa vai cumprir nas relações internacionais da nação. “A
questão é qual é o posicionamento que as Filipinas vão tomar no novo governo.
Seguirão a aproximação com a China? Buscarão ter boas relações com os Estados
Unidos? Este eu diria que é o grande interesse da comunidade internacional,
porque a gente sabe que no ano que vem certamente teremos um conflito maior
entre China e Estados Unidos. A gente não deve ter necessariamente uma guerra
entre os dois países, mas sim uma ‘guerra indireta’ em que as Filipinas têm um
papel central, tem um papel de estarem localizadas próximo à China e de ser um
parceiro econômico para os dois países”, analisa o professor da ESPM. As
eleições nas Filipinas serão realizadas no dia 9 de maio de 2022.
Por Lorena Barros
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