19/07/2021

Dominghetti e Carvalho tentaram negociar vacinas com governadores e prefeitos

Troca de mensagens entre Cristiano Carvalho, representante
 da Devati no Brasil, e Luiz Dominghetti,

Em uma das conversas, Dominghetti, que também é policial militar, afirma a Carvalho que "diversas propostas" foram enviadas aos "consórcios de governadores

Troca de mensagens entre Cristiano Carvalho, representante da Devati no Brasil, e Luiz Dominghetti, que presta serviços informalmente para a empresa, revela que, para vender vacinas da AstraZeneca e da Janssen, os dois procuraram desde o Ministério da Saúde a governadores e prefeitos. A CNN teve acesso a diálogos entre os dois - os áudios estão com a CPI da Pandemia.

As conversas citam nomes de políticos e parceiros que os ajudariam a chegar a encarregados pela compra de vacinas nos governos federal e locais.

Em uma das conversas, Dominghetti, que também é policial militar, afirma a Carvalho que "diversas propostas" foram enviadas aos "consórcios de governadores e demais estados e municípios".

Foto: Divulgação

A proximidade com o ex-diretor de Logística Roberto Dias, preso na comissão por supostamente mentir, reforçava a idoneidade dos vendedores e servia de cartão de visita para que iniciassem a negociação com unidades da federação. Em uma das conversas, Cristiano Carvalho grava mensagem de voz que diz: "Domingheti, bom dia, tudo bem? Eu falei com Dias do ministério. Eu preciso da carta de órgão governamental. O Rafa já enviou para ele, para dar prosseguimento. Sem ter absolutamente nada da intenção de compra do governo, eu não consigo dar prosseguimento. Então, é isso que está faltando. O Rafa já fez o documento. Mas eu fico à disposição, o que está faltando é isso".

Montagem com o representante da empresa Davati Medical Supply, Cristiano Alberto Hossri Carvalho, e o policial militar e revendedor de vacinas, Luiz Paulo DominghettiFoto: Leopoldo Silva e Alessandro Dantas/Agência Senado

 O Rafa citado na gravação seria Rafael Alves, um dos parceiros das negociações. Diversos nomes aparecem na conversa como facilitadores, a exemplo de Serafim e Bonifácio. A CPI ainda não sabe quem são. De acordo com os diálogos, esses parceiros também ficavam com um tipo de comissão. O negócio não se restringia a vacinas mas também a remédios, como o sedativo Midazolam, utilizado em pacientes antes de procedimentos médicos como a entubação, por exemplo. Em nenhuma mensagem fica claro se os contratos chegaram a ser assinados.

No dia 23 de março, é o policial Dominghetti que diz "o governador de Mato Grosso vai te procurar aí para afinar uma compra". E complementa "eles já têm você como referência, aí este tem que ser seu talento mesmo".

Foto: Divulgação

As oportunidades de fechar negócio eram batizadas de "fumaça" ou "fumaceiro", uma forma de ressaltar que a negociação exigia mais pressa e atenção. "Já, já vou enviar 5 intenções de compras assinadas por governadores totalizando 50 mm doses (abreviação para milhões). Já estou finalizando aqui. Johnson & Johnson. Todas com marca d'água, tudo oficialmente", ressalta.

Dias depois, em 30 de março, o próprio Dominghetti se surpreende com o volume de ligações que ele diz estar recebendo de interessados em vacinas. Em tom de espanto, afirma a Carvalho: "Vixe Maria. O mundo atrás de mim. Entro em call (chamada de vídeo) em cada 5 min. Amanhã o dia todo nisso, desde prefeito a governador, ministério. Misericórdia".

No dia 10 de abril deste ano, Dominghetti afirma a Carvalho que está fechando a venda de medicamentos com o governo de Roraima e mais duas redes privadas de hospitais.

Foto: Divulgação

CNN procurou os governadores de Mato Grosso e Roraima e não obteve retorno.

A reportagem também buscou o Consórcio Nordeste.

O presidente do grupo, Wellington Dias, não confirmou se chegou a ser procurado pelos representantes da Davatti. Mas afirmou que, desde o ano passado, segue orientação de embaixadas dos países desenvolvedores e produtores de não aceitar intermediário. "As  vendas seriam diretas com o poder público. A orientação foi sempre de tratar diretamente com Pfizer, Sputinik, Coronavac, AstraZeneca e com apoio das embaixadas dos países: EUA, China, Reino Unido, Índia. E de todos ouvimos que a relação seria direta", ressaltou.

Entrave bancário

No dia 26 de março, Dominghetti e Carvalho apontam que a escolha do banco para o pagamento dos produtos seria fator determinante para concretizar a venda.

Dominghetti diz que Guerra, que seria coronel Guerra, seu contato nos Estados Unidos, havia informado que não aceitava LC (carta crédito), nem pagamentos feitos pelo Banco do Brasil. A forma sugerida é a utilização de banco com sede nos Estados Unidos. A CPI acredita que essa escolha dificultaria o registro de recebimento de recursos em uma eventual quebra de sigilo bancário e fiscal. Carvalho endossa que Guerra já alertara que seria "mais fácil um banco top 10". Dominghetti faz a ressalva de que esta não é a realidade de muitos municípios. "Ou seja, a maioria", reforça.

Para chegar a prefeitos, de acordo com as mensagens, a interlocução seria feita pela Senah, a empresa particular chamada de Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, comandada pelo reverendo Amilton Gomes de Paula, que será ouvido pela CPI depois do recesso parlamentar. "A FNP está com a Senah", afirma Dominguetti a Carvalho, no dia 22 de março. FNP é a sigla para Frente Nacional de Prefeitos. O policial complementa "muitos municípios vão enviar pela FNP", referindo-se à proposta de compra. Sem citar o nome, ele afirma não saber como o prefeito de Montes Claros teria conseguido seu número de telefone e ligado. Carvalho responde "que eu saiba, o deputado Paulo Guedes, de MG, que passou o meu contato. Não fui procurado por ninguém da FNP até agora ou falando em nome dela".

Foto: Divulgação

Procurado pela CNN, o deputado Paulo Guedes não respondeu. Já o então presidente da FNP na época, Jonas Donizetti, confirmou que a entidade foi procurada por Cristiano Carvalho, com direito a reunião presencial em que a oferta de vacinas foi feita. No entanto, segundo Donizete, a negociação não seguiu adiante. "Foi recebido na sede da FNP, com o administrativo, mas não tiveram contato com correspondente político. Ao perceber que não tinha nenhuma referência, não houve avanço". Donizete explica que diversos vendedores de vacinas procuraram a entidade, especialmente após as primeiras liberações de vacinas legalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. "Nós tomamos como precaução dois protocolos: o primeiro era sempre ligar para as embaixadas e o segundo, para as empresas que produziam vacinas. Muitos prefeitos ligavam para nós  para saber como iríamos comprar vacinas. E nós sempre dizíamos que não tinha referência, que eram pessoas sem lastro, não eram do ramo e estavam tentando tirar proveito", afirmou à CNN. Para o representante da FNP, os prefeitos tiveram um cuidado que o governo federal não teve.

Notícias

O monitoramento de notícias sobre o processo de compra de vacinas pelo país era constante. Entre áudios, termos de assinatura e mensagens escritas, os dois costumavam compartilhar também links de jornais com informações vistas como vantajosas para o negócio continuar prosperando.

Uma das notícias diz que a prefeitura de Montes Claros aderiu a consórcio para compra de vacinas. Outro exemplo aponta que o governo federal havia dispensado licitação para compra das vacinas Jassen e Pfizer. A CNN procurou a prefeitura de Montes Claros, comandada pelo prefeito Humberto Souto (Cidadania) e ainda não obteve retorno.

Por Basília Rodrigues, CNN  

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