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Lixo na
Lagoa da Tijuca, na Zona Oeste do Rio
Foto: Mário
Moscatelli/ Projeto Olho Verde
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Segundo Baía
Viva, estado perde R$ 50 bilhões por ano devido à falta de cuidados com o
ecossistema da região. Sistema lagunar de Jacarepaguá também sofre com despejo
ilegal de dejetos e de resíduos sólidos.
Além de danos à
natureza, décadas de descaso com a Baía de Guanabara causam impactos na saúde,
transporte e turismo do Estado do RJ, gerando prejuízo financeiro, alerta a ONG
Baía Viva.
Em janeiro,
o G1 já tinha mostrado que o abandono da Baía pelo estado
gerou ainda problemas na segurança pública do Rio - já que a
região virou uma das rotas da entrada de fuzis para a Região Metropolitana.
Agora, cálculos
da Baía Viva indicam que o Estado chega a perder, por ano, R$ 50 bilhões por
não cuidar com responsabilidade do meio ambiente da região.
O número,
segundo a ONG, foi calculado com base em estudos de universidades, da Fiocruz e
do Clube de Engenharia.
“A Baía de
Guanabara é um cemitério de obras abandonadas”, destacou Sérgio Ricardo, um dos
fundadores da ONG, se referindo às intervenções iniciadas nos últimos anos - e
não finalizadas - que planejavam minimizar os efeitos do despejo de esgoto.
A conta leva em
consideração:
- O dinheiro que entraria com o turismo na área;
- Os gastos da sobrecarga no sistema de saúde, que
precisa tratar doenças causadas pela exposição às águas sujas e pela falta
de saneamento adequado;
- A falta de mobilidade urbana da produção e dos
trabalhadores;
- O excesso de queima de combustíveis;
- As doenças da poluição do ar.
“O Rio de
Janeiro é um lugar privilegiado, que tem duas baías em seu território e um
complexo lagunar. Isso deveria ser o motor da economia do Rio, essa vocação
para o ecoturismo", destacou Sérgio Ricardo.
"Há uma
perda econômica de R$ 50 bilhões por ano, sendo R$ 30 bilhões por causa da
poluição da Baía de Guanabara e outros R$ 20 bilhões por causa da imobilidade
urbana, que são esses engarrafamentos quilométricos da Região Metropolitana”,
emenda o ambientalista, que defende a ampliação do transporte aquaviário para
evitar engarrafamentos.
A região
enfrenta ainda os danos causados pelo roubo de combustível. No dia 8, uma
tentativa de furto provocou o vazamento de 60 mil litros de óleo no Rio
Estrela, que deságua na Baía de Guanabara. O manguezal da área foi
atingido na época de reprodução dos caranguejos. Na tarde do dia 11, técnicos
da Transpetro e da Petrobras que trabalhavam na contenção da mancha foram
ameaçados por homens armados.
O dado da ONG
Baía Viva foi apresentado ao governo do Estado do Rio de Janeiro, que
recomendou que o G1 encaminhasse a demanda para a Secretaria
Estadual do Meio Ambiente e a Cedae. Nenhum dos dois órgãos comentou
espeficicamente os números.
Da Baía para
a Zona Oeste
Não é só a Baía
de Guanabara que pede socorro. O sistema de lagoas de Jacarepaguá também sofre
com a degradação.
O registro dos
maus-tratos em ambos os ambientes foi feito pelo Projeto Olho Verde, comandado
pelo biólogo Mário Moscatelli, que há mais de 20 anos faz sobrevoos que
testemunham os danos ambientais acelerados em toda a Região Metropolitana.
As fotos que
ilustram esta reportagem pertencem ao projeto. Algumas delas fazem parte de
dossiê entregue por ele ao governo de transição. Moscatelli também planeja
entregar o documento para o novo governo federal.
Moscatelli, que
alerta para os riscos da poluição desde o começo da década de 90, concorda que
a poluição é fruto do crescimento desordenado e que afeta de maneira
prejudicial o crescimento econômico.
Cianobactérias
O sistema
lagunar de Jacarepaguá recebe esgoto sem tratamento e despejo irregular de lixo
da população de boa parte da Zona Oeste, criando um cenário em que a água tem
um cheiro forte causado pelos dejetos e se torna um cemitério de objetos.
Durante as duas
horas que a equipe do G1 passou navegando com Moscatelli,
foram vistos oito sofás, uma cama, uma caixa d'água, vasos sanitários e uma
infinidade de pneus e diversos objetos descartados nas águas. O biólogo alertou
que a situação costuma ser pior quando a maré está mais baixa.
“Você vê a densidade das bactérias hoje no
sistema lagunar da Baixada de Jacarepaguá, que já deixou de ser um problema de
natureza ambiental e passou a ser um problema de saúde pública", afirma
Moscatelli.
"Toda
essa porcaria escoa para a Praia da Barra, e aí também deixa de ser um problema
de saúde pública para também ser um problema de natureza econômica, porque o
principal ativo ambiental e econômico dessa cidade se chama praia, e nem ela
está sendo bem-tratada pelas autoridades”, emendou.
Segundo ele, a
cor verde viva das águas é indicativo de cianobactérias. O contato com esses
micro-organismos pode ser extremamente prejudicial à saúde. “Dependendo da
espécie, elas produzem toxinas. Algumas atacam o sistema nervoso, outras, o
aparelho digestivo. Essa cianobactéria, a Microcystis aeruginosa, pode causar
câncer de fígado”, alertou Moscatelli.
Com o
crescimento desordenado, os habitantes mais antigos, os animais, fazem o que
podem para garantir comida e espaço, muitas vezes se perdendo em meio aos
homens. No último dia 26 de novembro, um
jacaré quase foi atropelado na Avenida Ayrton Senna, uma das mais
movimentadas da Barra da Tijuca, durante um temporal. Após algumas horas ele
foi resgatado pelos bombeiros.
No dia 13 de
novembro, outro
réptil foi visto no trecho do Joá da Ciclovia Tim Maia, a pelo menos um
quilômetro do complexo lagunar. O bicho também foi transferido.
Com o aumento
do desequilíbrio, a tendência é que as espécies que consigam sobreviver ao
ecossistema degradado acabem invadindo o local onde vivem os homens.
Pesca
A economia de
quem historicamente vive das águas também é prejudicada. Os pescadores da Praia
de Tubiacanga, na Ilha do Governador, local tradicional de pesca de camarão na
Baía de Guanabara, sofrem com a degradação há anos. O ambiente piorou
consideravelmente a partir de janeiro de 2018, com um vazamento significativo
de óleo nas águas.
Edimilson
Marques, pescador há 43 anos, segue a mesma carreira do pai e tenta deslizar
seu barco pelas águas em busca de peixes. Porém, ele está convencido de que a
carreira não terá prosseguimento com os filhos.
“A gente
pesca porque já estamos calejados, não temos outro meio de vida. Mas viver da
pesca é difícil”, diz Edimilson.
Segundo ele,
quem insiste na função ganha pouco e vê as espécies que tirava do mar no começo
da carreira desaparecerem por causa da sujeira. “Pescada-amarela,
bagre-amarelo, robalo... vários tipos de peixe. A corvina não. A corvinota é um
peixe corriqueiro, que aparece bem aí. Mas esses peixes sumiram todos”.
Ele destaca que
o assoreamento e a montanha de lixo atrapalham o trabalho. “Isso aqui está tudo
assoreado, com saco plástico. Se você for ali na Linha Vermelha com a maré
baixa, em determinado tanto, você vai ver a quantidade de plástico que tem”.
Meta não
cumprida
A despoluição
de 80% das águas da Baía de Guanabara era uma meta do Estado do Rio de Janeiro
para a Olimpíada de 2016. Um ano antes da realização das competições, os
programas que tentaram limpar as águas já
tinham consumido R$ 10 bilhões em 20 anos. O então secretário de
Meio Ambiente do RJ, André Corrêa, classificou a meta proposta para os Jogos
como “muito ousada”, ao confirmar que ela não seria alcançada a tempo.
De acordo com a
Cedae, nos últimos anos foi investido R$ 1,8 bilhão em esgotamento sanitário da
Baía de Guanabara.
Diante de
críticas internacionais sobre a qualidade do local para a realização das
competições do local, inclusive da própria Federação Internacional de
Vela, o
secretário chegou a mergulhar nas águas da Baía.
André
Corrêa foi
um dos presos no dia 8 de novembro, na operação Furna da Onça, um desdobramento
da Lava Jato, onde a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão
contra dez deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A despoluição
das lagoas de Jacarepaguá também era um projeto para a Olimpíada do Rio e foi
abortada. Primeiro, foi barrada por denúncias de cartel das empresas
contratadas para fazer a drenagem das águas. Depois, o Ministério Público exigiu
mais estudos sobre o impacto ambiental. Quando todas as requisições foram
preenchidas, o Estado do Rio de Janeiro ficou sem dinheiro por causa da crise
financeira.
Os números
apresentados pela Cedae afirmam que foram investidos R$ 1,53 bilhão em esgotamento
sanitário na Bacia da Barra da Tijuca e R$ 90 milhões por meio de termos de
cooperações técnicas.
A companhia
afirma ainda que solicitou ao Ministério das Cidades um aporte de R$ 590
milhões para a execução de projetos que preveem a execução de 1,54 km de
troncos e redes coletoras e seis elevatórias com 9 km de redes de recalque.
“Quanto às
comunidades do entorno, de acordo com o termo de reconhecimento recíproco entre
a Cedae e a Prefeitura do Rio de Janeiro, os serviços de coleta, transporte e
tratamento de esgoto das áreas faveladas não são de concessão da Cedae, sendo
portanto de responsabilidade da prefeitura; entretanto, a Cedae apresentou
recentemente, a título de colaboração, soluções que possam mitigar os problemas
em relação às comunidades. No momento, aguarda-se o pronunciamento da
Prefeitura do Rio de Janeiro a respeito dos projetos”, destacou a nota da
Cedae.
Por Cristina Boeckel, G1 Rio

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