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Alice
Ferreira Souza na foto que postou em seu perfil nas
redes
sociais para mostrar apoio ao fim da proibição de
mulheres dirigirem na Arábia Saudita.
(Foto: Alice Souza/Arquivo Pessoal)
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Até o
sábado, país era o último do mundo onde elas não podiam dirigir; trânsito
caótico assusta, mas várias mulheres aproveitaram liberdade já no primeiro dia.
Quando o
relógio marcou meia-noite de sábado para domingo, a geógrafa brasileira Alice
Ferreira Souza, de 35 anos, pegou o carro e deu uma volta no quarteirão. Foi um
passeio curto, mas cheio de simbolismo. Alice mora em Al Khobar, na Arábia Saudita. Até sábado, o país era
o único no mundo onde as mulheres não podiam dirigir. No domingo, o decreto que
acaba com essa proibição passou a
valer oficialmente.
Até então,
sauditas que fossem flagradas dirigindo estavam sujeitas à prisão – e algumas
ativistas de fato foram detidas por desafiarem a lei. O fim do veto, anunciado em setembro de 2017, faz
parte de uma série de medidas de modernização que vêm sendo introduzidas no
país pelo príncipe Mohammed bin Salman.
Alice não foi a
única a ir às ruas durante a madrugada. Fotos e vídeos divulgados nas redes
sociais mostram mulheres sauditas ao volante. Elas também fizeram questão de
exercer o novo direito já nos primeiros minutos.
A geógrafa,
que trabalha com petróleo e mora no país desde 2015, conta que até sábado,
dependia do marido ou de motoristas particulares para se deslocar. "Me
sinto totalmente presa. Aqui não tem metrô nem ônibus. Deixo de fazer quase
tudo porque é muito chato ter que ligar para um motorista, esperá-lo chegar,
chamar um táxi em cada parada quando vou a mais de um lugar", explica.
Na verdade,
Alice vai ter que aguardar um pouco para ir além da voltinha no quarteirão. Por
enquanto, a validação da carteira internacional só está disponível, entre as estrangeiras,
para americanas e inglesas, informa ela.
"Todo dia
entro no sistema para ver se vão liberar para nós", conta. "Com a
carteira, minha vida vai mudar. Se eu quiser sair para almoçar em algum lugar,
tomar um café com alguém ou resolver qualquer coisa, vai ser muito mais
simples", afirma.
A brasileira,
que ficou "chocada" com as restrições às mulheres quando se mudou
para o país, afirma que nos últimos anos as transformações na sociedade saudita
são nítidas.
"Hoje a
mulher pode votar, as empresas são obrigadas a contratar trabalhadoras do sexo
feminino. Nos eventos de petróleo, já vejo mulheres com a abaya (veste longa
obrigatória) aberta, mostrando a roupa, algo que antes não acontecia",
diz.
Mulheres na
academia
Também moradora
de Al Khobar, a gaúcha Gabriela Lirio Delfino, 29, é outra brasileira que
vivencia as mudanças no país árabe. Personal trainer numa academia para
mulheres, ela diz que até dois anos atrás quase não existiam lugares para as
sauditas se exercitarem, por exemplo.
Sobre o fim do
veto à direção, Gabriela afirma que há tempos existia um rumor de que iria
acontecer.
"As
pessoas estavam desacreditadas, porque todo ano falavam que iam permitir e
nada", lembra. "Mas hoje eu cheguei ao trabalho e me emocionei.
Minhas alunas estão super felizes. Uma delas disse que já veio de carro para a
academia. E os policiais estão distribuindo flores para as mulheres na
direção", relata.
Ela se mudou
para a Arábia Saudita há três anos, acompanhando o marido, que é químico em uma
petroleira. Diz que está gostando do país, apesar das restrições:
"Tudo tem
um lado bom e um ruim. Aqui abri minha cabeça, tenho contato com uma cultura
diferente. Tento compensar as limitações indo para o Bahrein, que fica a uma
hora de carro. Lá tem muito mais liberdade. Eu e meu marido vamos ao cinema, as
mulheres dirigem normalmente."
Em seu blog Pra
lá de Bagdá, onde conta seu dia a dia no país, Gabriela fez um post com o passo
a passo de como validar a carteira internacional com a nova lei.
Ela também fez
um vídeo e tirou fotos em um dos estacionamentos com vagas específicas para
mulheres que foram criados após o anúncio do fim da proibição.
Para se
deslocar, atualmente a brasileira usa táxi, Uber e um concorrente desse
aplicativo muito utilizado na região, o Careem. Para ir e voltar do trabalho,
sua empresa envia um motorista particular.
Motoristas
privativos
Na Arábia
Saudita, muitas famílias contratam motoristas para ficarem à disposição das
mulheres – em geral, são trabalhadores paquistaneses ou indianos levados para
lá com esse objetivo. Segundo o jornal local Arab News, o número de famílias
com chofer privativo supera 80%.
Por isso,
muitas sauditas não têm pressa de tirar a carteira para dirigir. "Tem
mulheres que nem vão querer dirigir. E tem algumas que agora querem contratar
motoristas mulheres, algo que antes não era possível", conta a mineira
Herika Santos, 30, que mora na capital saudita, Riad, há dois anos com o marido
canadense.
Muçulmana,
ela comemora a nova lei. "Dirigir ou não tem que ser uma escolha da
mulher, assim como usar o hijab [lenço que cobre a cabeça]. No Islã não existe
base para esse tipo de proibição. É uma questão política", afirma.
Segundo Herika,
muitos homens sauditas apoiam o fim do veto: "A geração mais jovem é mente
aberta. E vai aliviar para eles, porque não vão ter que pagar motorista ou
ficar levando e buscando a esposa em todo lugar".
O trânsito
caótico do país é outro fator que tem impedido algumas sauditas de assumir o
volante. "É uma bagunça. Os motoristas aqui não são muito civilizados, não
respeitam as leis, não dão sinal", diz Gabriela Delfino, acrescentando que
algumas de suas alunas preferiram esperar um pouco para ver como vai ser a nova
lei na prática, até porque existe um receio de que as mulheres ao volante sejam
hostilizadas.
"Vou
comprar um carro bem duro, tipo um jipe usado, porque sei que eles vão se jogar
em cima de mim, ainda mais eu sendo mulher", confirma Alice Souza. À
medida que foi se aproximando o domingo do início da nova lei, ela recebeu
diversas mensagens de concessionárias de veículos oferecendo "test
drives".
O fim do veto à
direção feminina é tido também como uma estratégia do príncipe Salman para
aquecer a economia. Além dos novos carros que serão vendidos, a aposta é de que
haverá mais consumo de combustível, mais mulheres poderão trabalhar livremente,
novos negócios surgirão e o gasto que antes as famílias destinavam aos
motoristas particulares estrangeiros será investido em outros setores dentro do
país.
Por Flávia Mantovani, BBC

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