![]() |
© Marcelo
Pinto / APlateia Distribuição de alimentos e viagens
aéreas podem ser prejudicadas ainda mais se a
greve continuar
|
Linhas de
ônibus suspensas no Rio de Janeiro, ameaça de falta de querosene de aviação em
aeroportos de cinco capitais, falta de combustíveis nos postos de Recife (PE) e
possibilidade de caos no transporte público de São Paulo. São três dias de
paralisação de caminhoneiros, e efeitos como estes são sentidos em vários
Estados brasileiros.
No começo de
quarta-feira, ministros deram declarações afirmando que os efeitos da greve não
eram tão profundos. À tarde, no entanto, Eliseu Padilha (Casa Civil), Carlos
Marun (Secretaria de Governo) e Valter Casimiro (Transportes) receberam
organizações ligadas à categoria. Antes do encontro, o próprio presidente
Michel Temer discutiu o assunto com Padilha e com o ministro da Fazenda,
Eduardo Guardia, além do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, e os
instruiu a pedir uma trégua de três dias aos caminhoneiros para que pudesse ser
encontrada uma solução.
O pedido de
Temer não foi atendido, e as entidades reafirmaram que a greve continua nesta
quinta.
No início da
noite, mais uma tentativa de conter o estrago que se espalhava pelo país. O
presidente da Petrobras, Pedro Parente, anunciou que a estatal fará uma redução
de 10% no preço do óleo diesel - e que manterá este preço durante as próximas
duas semanas. Trata-se de uma tentativa de dar algum tempo ao governo para
negociar com os caminhoneiros - a medida significa uma redução de R$ 0,25 no
preço do combustível (que, antes do anúncio, custava R$ 2,3 nas refinarias).
Parente disse esperar que os caminhoneiros reajam com "boa vontade"
ao aceno da empresa.
Do outro lado
da Praça dos Três Poderes, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ)
anunciou na última terça-feira um acordo com o governo para zerar um dos
impostos cobrados sobre os combustíveis, a Cide (Contribuição de Intervenção no
Domínio Econômico). A medida não debelou o ânimo dos caminhoneiros, já que o
impacto no preço final do combustível é considerado pouco significativo (R$
0,10 por litro de gasolina e R$ 0,05 no litro do diesel). Pré-candidato à
presidência pelo DEM, Maia defende agora que o governo reduza a alíquota de
outro imposto, o PIS/Cofins, para tentar baixar o preço do diesel na bomba.
Abaixo, a BBC
Brasil responde as principais dúvidas sobre o assunto:
Quem está
organizando as manifestações?
Não existe uma
organização que possa ser apontada como líder da paralisação - na verdade, a
proposta de greve começou a circular de forma espontânea em redes sociais e
grupos de WhatsApp de caminhoneiros. Mas uma das principais entidades
envolvidas é a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que
congrega a maioria dos sindicatos de motoristas autônomos.
Outros
sindicatos de caminhoneiros se juntaram aos protestos ao longo dos dias, como a
Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) e a União Nacional dos
Caminhoneiros do Brasil (Unicam). O movimento acabou engrossado pelos
caminhoneiros de frota também - isto é, por aqueles que são contratados, com
carteira assinada, por transportadoras.
"Começou
com os autônomos. Mas como a situação está ruim para todos, as empresas (e os
motoristas contratados por elas) também aderiram. E aí surgem várias
associações, várias pessoas querendo representar. Tem também alguns que são
pré-candidatos (às eleições de 2018)", diz o caminhoneiro Ivar Schmidt, um
dos principais líderes dos protestos de caminhoneiros de 2015, que afirma não
estar à frente das movimentações atuais.
O último
balanço dos grevistas, do começo da noite de quarta, mencionava 253 pontos de
protestos, atingindo 23 Estados brasileiros e o Distrito Federal.
Como começou a
paralisação? O governo foi alertado?
Sim, o governo
recebeu avisos de entidades sindicais dos caminhoneiros sobre a possibilidade
de uma paralisação.
No dia 16 de
maio, a CNTA apresentou um ofício ao governo federal pedindo o congelamento do
preço do óleo diesel e a abertura de negociações, mas foi ignorada. No dia 18
(última sexta-feira), a organização lançou um comunicado em que mencionava a
possibilidade de paralisação a partir de segunda-feira, o que de fato ocorreu.
Segundo a CNTA,
a paralisação estava sendo discutida "pelos caminhoneiros e sindicatos da
categoria, nas redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas".
Um vídeo
publicado na página do Facebook Transporte FORTE Digital, no último sábado, já
convocava os motoristas para a greve.
À BBC Brasil, a
entidade sindical disse que, apesar da reunião com o governo na quarta-feira, a
paralisação foi mantida e não há data prevista para o fim do movimento.
Quais setores
da economia já foram atingidos?
Após 72 horas
de paralisação, os efeitos da greve de caminhoneiros foram sentidos em várias
partes do país e em vários setores econômicos.
Houve relatos
de falta de combustíveis em alguns postos de gasolina na Baixada Santista, no
litoral paulista, e em cidades do interior de São Paulo como São José dos
Campos, Taubaté e Jacareí. Em Recife (PE) e no Rio de Janeiro (RJ) também houve
desabastecimento.
Quem está com o
tanque do carro vazio também pode ter problemas ao tentar pegar um ônibus: as
empresas de São Paulo já avisaram que terão dificuldade para retirar os
veículos das garagens nesta quinta, por falta de combustível. A Prefeitura da
capital paulista anunciou a suspensão do rodízio municipal de veículos,
afirmando que a previsão era de que 40% da frota de ônibus ficasse fora de
circulação.
Alerta
semelhante foi feito pela Federação das Empresas de Transportes de Passageiros
do Estado do Rio de Janeiro. Em Recife, já houve redução na frota de ônibus,
para evitar a falta de combustíveis.
Na alimentação,
o impacto também já era sentido. Segundo a Associação Brasileira de
Supermercados (Abras), as lojas de alguns Estados do país já começam a sofrer
com o desabastecimento de alimentos, especialmente de produtos menos duráveis
como frutas, verduras e legumes.
A Ceagesp,
maior distribuidora de alimentos frescos da América Latina, informou que o saco
da batatas passou de cerca de R$ 70 para R$ 200 - o mesmo aconteceu em centros
de distribuição de alimentos de outros Estados. Do lado da produção,
frigoríficos estimam que os prejuízos já superam os R$ 200 milhões com as
exportações de carne suína e de frango, que deixaram de ser feitas.
Em outro
desdobramento, os Correios informaram que suspenderam alguns tipos de entregas
rápidas (como algumas modalidades do serviço Sedex). O aeroporto de Brasília
informou que ficará sem querosene de aviação para reabastecer as máquinas a
partir de quinta-feira. O mesmo foi dito nos aeroportos de Congonhas (SP),
Recife (PE), Palmas (TO), Maceió (AL) e Aracaju (SE).
Além disso, é
possível que trabalhadores de outros setores da economia cruzem os braços: o
Sindicato dos Estivadores do Porto de Santos (SP), o maior do Brasil, anunciou
paralisação em solidariedade aos caminhoneiros. Dificuldades de escoamento
fizeram com que montadoras de automóveis no Rio Grande do Sul, Bahia e São
Paulo interrompessem a produção nas fábricas.
Quais são as
reivindicações dos caminhoneiros?
A principal
exigência é a queda no preço do óleo diesel: segundo os representantes dos
transportadores, o custo atual do óleo torna inviável o transporte de
mercadorias no país.
"Hoje, um
caminhão grande usa até R$ 2 mil de óleo diesel por dia. Isso aí no fim do mês
é um rio de dinheiro", afirma Ivar Schmidt. A margem de lucro da atividade
é tão baixa, diz Schmidt, que hoje os caminhoneiros trabalham "só para
cumprir tabela (sem ganhar nada)", diz ele.
Para reduzir o
preço do diesel, as entidades querem que o governo estabeleça uma regra para os
reajustes do produto - hoje, os preços flutuam de acordo com o valor do
petróleo no mercado internacional e a cotação do dólar.
Além disso, há
outras reivindicações na pauta dos caminhoneiros, diz Ariovaldo de Almeida
Silva Júnior, presidente do Sindicato dos Caminhoneiros (Sindicam) de Ourinhos
(SP). "Queremos também a isenção do pagamento de pedágio dos eixos que
estiverem suspensos (quando o caminhão está vazio e passa a rodar com um dos
eixos fora do chão). Defendemos a aprovação do projeto de lei 528 de 2015, que
cria a política de preços mínimos para o frete, e a criação de um marco
regulatório para os caminhoneiros", lista ele.
"O
caminhoneiro faz um cálculo do custo do frete (antes de partir). Agora, o
caminhoneiro às vezes viaja durante cinco dias. Teve semana que o diesel subiu
todos os dias (invalidando a estimativa de custo)", diz ele.
Por que é tão
fácil para os caminhoneiros jogarem o Brasil no caos?
Basicamente,
porque o país depende fortemente do transporte rodoviário para transportar
bens, pessoas e produtos - inclusive matérias-primas e insumos como os
combustíveis.
Diferentemente
de outros países com território de tamanho parecido, o Brasil tem poucas linhas
de trens para escoar a produção - são 29 mil quilômetros de ferrovias, contra
86 mil km na China, 87 mil km na Rússia e 225 mil nos EUA. Os dados são da
consultoria de logística Ilos.
O resultado é
que, hoje, 90% dos passageiros e 60% da carga que se deslocam pelo país são
movimentados em rodovias, de acordo com a Confederação Nacional do Transporte
(CNT), entidade sindical das empresas do setor.
Ao longo dos
últimos dias, os caminhoneiros grevistas também fizeram bloqueios em pontos
estratégicos, como a saída de refinarias da Petrobras e a entrada do porto de
Santos, em SP, dificultando ainda mais o escoamento das mercadorias.
Há saída à
vista para o problema?
Em teoria,
há duas
outras medidas que o governo poderia tomar para tentar baixar o preço
dos combustíveis na bomba: anunciar um novo corte de impostos (além da Cide,
poderia diminuir o valor do PIS-Cofins) ou mudar a política de preços da
Petrobras.
Ambas teriam
reflexos negativos: cortar impostos significaria aumentar ainda mais o
endividamento público; e uma nova mudança na Petrobras colocaria em risco as
contas da companhia (que se endividou durante o governo de Dilma Rousseff,
quando os preços eram controlados).
Apesar da
redução anunciada no começo da noite de quarta-feira, o presidente da
Petrobras, Pedro Parente, disse que "a política (de preços) da companhia
não muda". Ou seja, após este prazo, o diesel voltará a flutuar de acordo
com o preço do petróleo no mercado internacional e a taxa de câmbio (valor do
real frente ao dólar).
No curto prazo,
o governo apela também para a via judicial: ao longo do dia de ontem, a
Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu nove decisões liminares (provisórias),
na primeira instância da Justiça, determinando a liberação das vias obstruídas
nos Estados do Paraná, Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina, Pernambuco,
Paraíba, Rondônia, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal.
No começo da
noite de quarta-feira, ao dizer que pediu trégua "de uns dois ou três
dias" aos representantes dos caminhoneiros, Temer agregou que "desde
domingo estamos trabalhando neste tema para dar

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!