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Homem usando
crack na Av. Brasil
(Foto:
Marcos Serra Lima / G1)
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Centro e
Copacabana abrigam maior número de usuários; via de Madureira é ponto crítico.
Série do G1 mostra imagens do uso da droga e aborda possíveis soluções para o
problema crescente.
A Prefeitura do
Rio identificou 150 locais da cidade nos quais dependentes químicos se reúnem
para fazer uso de crack e outras drogas. Estes pontos têm, ao todo, 1.939
pessoas. Os dados constam do levantamento mais recente da Secretaria Municipal
de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) sobre o tema, realizado entre
o fim do ano passado e início de 2018.
No primeiro
capítulo de uma série de três reportagens sobre a questão do crack na cidade do
Rio de Janeiro, o G1 traz um mapa da concentração de usuários
por bairros (veja no link abaixo), o debate sobre a internação compulsória de
usuários que divide autoridades e flagrantes do uso da droga em plena luz do
dia.
Embora alguns
desses lugares popularmente tenham ficado conhecidos como
"cracolândias", o termo é refutado pela administração municipal, que
classifica os lugares como "cenas de uso de drogas".
A pasta evita
usar o termo "cracolândia" para os pontos de uso argumentando que, em
São Paulo — onde nasceu a expressão —, o termo é usado para designar "uma
área com mais de 400 dependentes químicos". A secretaria frisa que, no
Rio, não há nenhum local semelhante ao que existia
na região central da capital paulista.
Mesmo assim, as
aglomerações de dezenas de usuários em alguns lugares do Rio preocupam
autoridades e moradores. O caso mais crítico é observado na Rua Leopoldino de
Oliveira, em Madureira, na Zona Norte.
O local é o
ponto da cidade onde há mais usuários de drogas reunidos, no qual equipes da
secretaria constataram estarem 65 dependentes químicos. A Rua Luiza Vale, em
Del Castilho, também na Zona Norte, é o trecho que aparece em segundo lugar no
levantamento, onde se reúnem 62 pessoas.
Mudando o
enfoque, os dados da secretaria revelam que o Centro do Rio é o bairro onde há
maior concentração de dependentes químicos. São pelo menos 327 usuários
espalhados por locais como as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, duas das
principais vias da região, além do Campo de Santana e Cinelândia.
A turística
Copacabana, na Zona Sul, figura como o segundo bairro onde mais se agrupam
usuários de entorpecentes. São 116 dependentes, segundo o levantamento, que
estão na Avenida Atlântica e próximo à estação do metrô Cardeal Arcoverde, por
exemplo. Em seguida vêm Bangu (107), na Zona Oeste; Complexo da Maré (95), Zona
Norte; e Tijuca (86), também na Zona Norte.
Sobre o
trabalho desenvolvido com os dependentes químicos, a secretaria informou, em
nota, que equipes fazem abordagens diárias nas ruas do Rio. Várias delas,
segundo o texto, são realizadas em conjunto com a Secretaria Municipal de
Saúde. "O trabalho de tentar resgatá-los das ruas e reinseri-los
socialmente é permanente, inclusive com a busca por suas famílias",
comunicou a pasta.
Entre janeiro e
março deste ano, o G1 esteve em alguns desses locais nos quais
se reúnem os dependentes químicos e também foi a abrigos que acolhem os
usuários. Alguns dos pontos já são conhecidos pelo trânsito de usuários de
crack, como é o caso da Avenida Brasil na altura de Ramos, próximo ao viaduto
do BRT. Mais detalhes sobre essas visitas serão publicadas nas próximas duas reportagens
sobre o tema.
Ex-secretário
defende internação compulsória
No horizonte,
Defensoria Pública e representantes da prefeitura não enxergam uma solução
simples para a pulverização dos pontos de uso de drogas. Por isso, a internação
involuntária — ou compulsória — desses usuários voltou ser debatida, mas a
medida divide opiniões.
Cracolândias se
espalham pelo Rio de Janeiro e gera debates sobre internação compulsória
O
novo secretário de Assistência Social e Direitos Humanos foi anunciado nesta
segunda-feira, o vereador João Mendes de Jesus. Ex-secretário, Pedro
Fernandes — que ainda estava à frente da pasta quando foi entrevistado
pelo G1, avaliou a internação como uma "boa alternativa".
Apesar disso, ponderou que o caso precisaria ser discutido com a Secretaria de
Saúde, o Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública.
"Tem
que se abrir sim, em casos pontuais, essa questão da internação compulsória,
por essas pessoas, ao nosso entender, não terem o direito de estarem ali
colocando a vida de terceiros em risco", disse Fernandes.
Pedro
Fernandes, que deixou a secretaria para concorrer nas eleições deste ano, disse
que a hospitalização forçada deve ser realizada em parceria com a Secretaria de
Saúde, e não nos abrigos da Assistência Social e Direitos Humanos.
"Quando a
gente consegue, com muita dificuldade, convencê-los a ir para um abrigo, eles
não passam mais do que dez horas porque têm crise de abstinência. Esse modelo
que o Brasil utiliza já está mais do que comprovado que não é eficaz. Chegou o
momento de reabrir o discurso. Esse pode não ser o melhor caminho, mas é a melhor
opção no momento. A gente está enxugando gelo", lamentou.
Já a defensora
pública Thaísa Guerreiro acredita que a internação compulsória deve ser usada
em último caso e por um curto período de tempo. Segundo ela, antes da
hospitalização existem outros "inúmeros dispositivos" para tratar
essas pessoas.
"O
convívio em sociedade é um melhor tratamento do que restringi-la e isolá-la,
porque aí sim essa pessoa vai continuar repetindo as condutas que são
decorrentes de um transtorno mental", explicou a defensora.
Ainda assim,
Guerreiro concorda com o ex-secretário que os abrigos não são locais
apropriados para os dependentes químicos. Ela destacou que, mesmo nas ruas,
essas pessoas precisam ter direito à dignidade, à liberdade e à escolha de
vida.
"Isso tem
que ser visto como meio diferente de vida e a gente tem que respeitar. Essas
pessoas têm que ser tratadas, auxiliadas. Compete à Saúde, junto com a
Assistência Social, junto com as outras secretarias, em uma atitude intersetorial
dentro do próprio município, de ver como que a gente pode abordar essas
pessoas, respeitando o modo diferente delas de estar em sociedade e, ao mesmo
tempo, de protegê-las de atravessar uma rua, de praticar um crime",
frisou.
Por outro lado,
Fernandes diz que não dá mais para "fingir que nada acontece" e que é
preciso entender por que a Secretaria de Saúde não tem condições de proceder
com a internação compulsória dos usuários.
"Eu sou
secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, mas a gente tem que
priorizar os humanos direitos. Não que essas pessoas não sejam, mas o direito
deles de ser usuário de droga esbarra a partir do momento que começa a
interferir no direito da pessoa de bem. Por mais que tenham pessoas que achem
que isso é normal, tem as pessoas que ficam impactadas e sofrem as
consequências dessas situações. Que direitos são mais importantes? Será que ele
tem o direito de ficar roubando para manter o seu vício?", completou o
ex-secretário.
A defensora, em
contrapartida, criticou a ausência do poder público e entende que são pontos de
vista diferentes diante da mesma situação. De acordo com Guerreiro, é
importante que tratamento aos dependentes também seja no sentido de
protegê-las.
"Talvez se
a gente tivesse todo esse tratamento a gente não teria essas pessoas nesses
locais que trazem risco para elas mesmas. É olhar para protegê-las e não
segregá-las. Elas causam risco pra população, mas elas também estão se
colocando em risco", afirmou.
Abordagens
na Avenida Brasil
Varal, sofá,
cadeiras, mesa. O trecho da Avenida Brasil, na altura de Bonsucesso, é um dos
pontos onde os usuários de drogas mais se sentem à vontade para consumir
entorpecentes, mesmo à luz do dia. A Secretaria de Assistência Social e Direitos
Humanos já identifica o local como um dos lugares em que há maior concentração
de dependentes químicos.
Por esse
motivo, lá, toda segunda-feira equipes da secretaria e de outras entidades
fazem abordagens às pessoas e ofertam tratamento. Caso aceitem, os dependentes
são encaminhados para unidades de saúde. Em outros dias funcionários da pasta
também costumam interpelar os usuários, mas sem uma frequência definida.
Além de
Bonsucesso, outros locais da Zona Norte também foram identificados na ronda realizada
pelo G1. Numa calçada ao lado da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (Uerj), na Avenida Radial Oeste, um grupo de pessoas também consome
crack e outras drogas ao ar livre. A Rua Álvares de Azevedo, no Chachambi, é
próxima à comunidade do Jacarezinho. Lá, os depentes que moram nas ruas fizeram
até barricadas.
Por Fernanda Rouvenat e Marcos Serra Lima, G1
Rio

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