![]() |
© Reprodução Depoimento
do marqueteiro João Santana
durante
delação premiada com o Ministério Público Federal
|
O casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura prestou depoimento
nesta segunda-feira ao juiz federal Sergio Moro em um processo da Operação Lava Jato que tem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre
os réus. Santana e Mônica, ambos delatores da Lava Jato, falaram a Moro na ação
sobre o sítio Santa Bárbara,
em Atibaia (SP), que era frequentado por Lula e foi reformado por empreiteiras
investigadas no petrolão ao custo de 1 milhão de reais. Ao magistrado, os
marqueteiros reafirmaram o conteúdo de suas delações a respeito de pagamentos
de caixa dois à campanha de Lula, em 2006, pela Odebrecht, uma das empresas que teriam financiado as benfeitorias
na propriedade no interior paulista.
Segundo Mônica,
os serviços do casal na campanha de reeleição de Lula custaram 18 milhões de
reais, dos quais 10 milhões foram pagos em caixa dois e os 8 milhões restantes,
oficialmente. A prestação de contas à Justiça Eleitoral em 2006 mostra, no
entanto, que a campanha petista declarou 13,75 milhões de reais em pagamentos à
Pólis Propaganda e Marketing, empresa do casal de marqueteiros.
“Nosso primeiro
contato com a Odebrecht foi na campanha de reeleição do presidente Lula, em
2006. Nessa eleição, já recebemos uma parte oficial e uma parte caixa dois. A
Odebrecht pagou essa parte de caixa dois, uma parte no Brasil e uma parte em
contas no exterior”, afirmou Mônica Moura. Diante de Sergio Moro, ela ainda
declarou que “não existe campanha política no Brasil sem dinheiro não
contabilizado. Não se faz. Se alguém disser que faz, não é verdade”.
“A Odebrecht
efetuou várias vezes [pagamentos de caixa dois], durante alguns anos, sempre
encaminhado pelo Partido dos Trabalhadores e seus candidatos. Recebíamos
através de uma conta na Suíça, a Shellbill, e outra parte também, em espécie,
para o custeio do dia a dia de campanha. Eram esses dois formatos”, disse João
Santana, responsável pelo marketing político das campanhas presidenciais de
Lula, em 2006, e Dilma Rousseff,
em 2010 e 2014.
Especificamente
sobre a campanha que reconduziu o ex-presidente ao Palácio do Planalto, no ano
seguinte ao escândalo do mensalão, o casal citou ter se preocupado com o
recebimento de valores não contabilizados, mas que aceitou o caixa dois depois
de o ex-ministro Antonio Palocci alegar
que não seria possível bancar integralmente o trabalho dos publicitários de
modo oficial.
Sem citar
valores, João Santana relatou que a Odebrecht assumiu as dívidas da campanha de
Lula com os marqueteiros e pagou a eles “valores substanciais, algo em torno de
20% 30% do preço oficial da campanha”.
Indagado pelo
Ministério Público Federal (MPF)
sobre com quem mantinha contato dentro do PT durante a campanha, Santana
respondeu que se relacionava com Lula, Palocci e a cúpula do partido. “Antonio
Palocci também sempre era um interlocutor estratégico e cumpria um papel
paralelo de organização financeira com Mônica, mas não diretamente comigo”,
completou.
João Santana
ressaltou que não tinha o costume de tratar do financiamento da campanha com o
ex-presidente, mas que procurou o petista algumas vezes para cobrar dívidas. “O
que eu me referi com ele, tempos depois, foi cobrando atrasos de pagamentos que
estavam ocorrendo, quando Palocci falhava. Era um degrau, entrei duas ou três
vezes e falei com o presidente. ‘Tem um atraso grande e nós estamos entrando em
um quadro de desequilíbrio econômico e financeiro’. Ele sempre se mostrava
surpreso: ‘não, vamos resolver’. Isso no intervalo do primeiro para o segundo
turno da campanha dele”, declarou o publicitário.
O marqueteiro
entende que, ao ser cobrado pelos atrasos, o ex-presidente sabia que se tratava
de valores não contabilizados no caixa oficial de campanha. “Primeiro, não
conheci nenhum candidato que não soubesse detalhes da administração financeira
de sua campanha. Segundo, os pagamentos oficiais sempre tiveram margem pequena
de atraso, sempre tinha atraso, mas não tanto. Então, quando se referia a
atraso, inclusive os que ficavam para depois da campanha, estava implícito que
era caixa dois”, disse a Moro.
Outra cobrança
a Lula relatada pelo publicitário foi referente à campanha do ex-presidente de
El Salvador, Maurício Funes, em 2009. De acordo com João Santana, o petista o
orientou a procurar o empresário Emílio Odebrecht, que encaminharia os
pagamentos. Odebrecht teria tratado com Antonio Palocci sobre a dívida, que foi
paga.
Por meio de
nota, a defesa de Lula afirma que “os depoimentos coletados hoje deixaram
claro que a também essa terceira acusação apresentada pelo Ministério Público
Federal contra o ex-Presidente Lula perante a Justiça de Curitiba é
manifestamente improcedente. A denúncia faz referência a 9 contratos da
Petrobras e a reformas realizadas em um sítio em Atibaia. Nenhuma das
testemunhas hoje ouvidas confirmou a acusação”.
Processo
investiga sítio em SP
João Santana,
Mônica Moura e o ex-diretor da área Internacional da Petrobras Jorge Zelada
foram as primeiras testemunhas ouvidas no processo que trata do sítio de
Atibaia, supostamente reformado pelas empreiteiras Odebrecht, OAS e Schahin em
benefício de Lula. Os três foram arrolados como testemunhas de acusação pelo Ministério
Público Federal.
Em maio de
2017, Lula foi denunciado pela força-tarefa da Operação Lava Jato em
Curitiba pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso
envolvendo obras na propriedade. De acordo com os procuradores, o ex-presidente
foi beneficiado ilicitamente com cerca de 1 milhão de reais nas reformas, que
incluíram a construção de anexos e benfeitorias no sítio, como a instalação de
uma cozinha de alto padrão. Odebrecht e OAS teriam arcado com 870.000 reais das
obras e a Schahin, por meio do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do petista,
teria pago 150.500 reais.
VEJA.com

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!