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Cassia e
Clayton, em foto de 2014; a americana deixou
o Brasil,
mas luta para que o assassinato do PM seja
elucidado
(Foto: Arquivo pessoal)
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Historiadora
era namorada de PM lotado na UPP da favela de Manguinhos.
Cassia Roth e
Clayton Fagner Alves Dias eram um casal improvável. Ela, uma historiadora
americana em vias de obter o título de doutorado pela Universidade da
Califórnia em Los Angeles (UCLA); ele, um policial militar do Rio de Janeiro,
lotado na Unidade de Polícia Pacificadora da favela de Manguinhos e prestes a
interromper a breve carreira de PM para se mudar para os Estados Unidos, se
casar com a noiva e iniciar uma nova vida.
Faltava pouco
mais de um mês para a viagem planejada quando Clayton foi perseguido por
traficantes da comunidade da Zona Norte do Rio ao deixar o serviço. De moto a
caminho de casa, o PM de 30 anos foi atingido por quase 20 tiros pelas costas
na Estrada do Galeão, na Ilha do Governador, por volta das 19h. Chegou a
sobreviver a uma cirurgia, mas morreu horas depois do ataque. Era a madrugada
de 29 de abril de 2015.
Quase três anos
se passaram e o caso de Clayton permanece sem resolução, como mais de 90% dos homicídios
que ocorrem no Brasil, e em meio à estatística alarmante de assassinatos de PMs
no Rio.
Em meio à grave
crise fiscal do Estado, aos cortes de recursos para a segurança pública e à
escalada de violência no Rio, 134 PMs foram mortos em 2017 e outros 146 no ano
anterior. Em 2015, Clayton foi um dos 91 PMs assassinados no Estado.
Cassia deixou o
Brasil após a morte de Clayton, mas vem lutando como pode para que o
assassinato seja elucidado. Quatro traficantes foram identificados e há
suspeita de que uma banda podre da polícia tenha tido envolvimento.
No processo, a
americana diz que vem tendo de lidar com grandes diferenças estruturais e
culturais entre os Estados Unidos e o Brasil - tanto no sistema criminal e nas
taxas de elucidação de homicídio quanto na forma de a sociedade brasileira ver
a polícia.
"Já faz
quase três anos e ninguém foi a julgamento ainda. Nesse meio tempo, muitos
outros policiais foram assassinados, e o trabalho dos investigadores vai se
acumulando. Faltam recursos para investigar, mas também falta ênfase por parte
do governo", lamenta ela.
"Parece
que ninguém liga", desabafa. "Acho que isso reflete a maneira como as
pessoas veem a Polícia Militar. Elas já supõem que policiais sejam violentos e
sejam corruptos. Não ligam (quando morrem)", diz Cassia, agora fazendo um
pós-doutorado em Edimburgo, na Escócia.
Sem
recursos, sem punição
Nos Brasil, a
taxa geral de elucidação de homicídios é estimada em cerca de 8%, com variações
de um estado para o outro. Mas não há números confiáveis para acompanhar a
situação nacional.
Estudo recente
do Instituto Sou da Paz, intitulado "Onde mora a Impunidade?"
concluiu que apenas seis estados brasileiros tinham estatísticas consistentes
que permitissem estimar uma taxa de esclarecimento.
Um deles é o Rio,
onde 11,8% dos homicídios cometidos em 2015 geraram denúncias criminais para
que fossem levados a julgamento, segundo o levantamento.
A taxa está
muito abaixo da média dos Estados Unidos, por exemplo, que esclarece em torno
de 65% dos assassinatos.
Diante do
aumento do número de mortes de policiais militares no Rio, a Secretaria de
Segurança Pública criou, em 2016, uma divisão especial dentro da Delegacia de
Homicídios para investigar as mortes de agentes de segurança de uma forma geral
- como policiais militares, civis, federais, bombeiros e agentes
penitenciários.
De acordo com o
delegado responsável pelo núcleo, Brenno Carnevale, o núcleo conseguiu elucidar
47% dos casos ocorridos na capital entre sua criação, em agosto de 2016, e o
fim do ano passado.
O número é bem
superior, praticamente o dobro, ao da taxa de elucidação que o Estado tem
registrado nos últimos anos, que, segundo a Secretaria de Segurança Pública,
chega "a até 27%".
O número não
pode ser comparado à taxa de 11,8% citada no estudo do Sou da Paz, pois não se
refere aos casos em que uma denúncia criminal foi oferecida, mas sim, segundo
Carnevale, aos inquéritos em que se concluiu o que aconteceu e quem foi o
autor, o que nem sempre gera provas suficiente para produzir uma denúncia.
"Temos
tido um percentual de descoberta relevante", diz o secretário de Segurança
Pública, Roberto Sá, enumerando outras medidas que foram tomadas, "apesar
de toda a escassez de recursos da Polícia Militar", para coibir a morte de
policiais, como o projeto Percurso Seguro - que aumentar a segurança para
agentes em seus deslocamentos - e a disponibilização de coletes a prova de
balas para todos eles trabalharem.
"É uma
preocupação muito grande, o número (de mortes) é elevado. O número acabou não
sendo maior que o de 2016, mas isso não nos tira a dor e a comoção", disse
Sá, em um encontro com jornalistas no fim do ano passado, em que falou das
dificuldades apresentadas pelos cortes no orçamento e dos esforços que vinham
sendo feitos para contornar a falta de recursos.
Cada pasta,
um morto
Há cerca de 100
pastas gordas empilhadas com inquéritos sobre as mesas de Carnevale, situadas
em uma sala de luz branca, paredes nuas e mobiliário econômico na Delegacia de
Homicídios da Capital, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.
Cada uma traz
um inquérito. "Cada pasta dessas é pelo menos um morto. Alguns processos
acumulam mais de um", explica o delegado.
O inquérito
sobre a morte de Clayton não está entre as pastas, porque foi anterior à
criação do núcleo coordenado por Carnevale. Mas a escassez de recursos de
infraestrutura e de pessoal que atravanca o trabalho do delegado é o mesmo que
contribui para que ninguém tenha sido acusado pela morte dele, quase três anos
após sua execução.
O núcleo de
Carnevale tem dez policiais e acumula não só os assassinatos de agentes de
segurança, mas também os homicídios decorrentes da oposição a intervenção
policial, antes conhecidos como autos de resistência.
Desde agosto de
2016, o delegado recebeu cerca de 500 desses casos, contra cerca de cem
homicídios de policiais. Para os autos de resistência, ele não arrisca estimar
uma taxa de elucidação - a maioria dos casos está ainda aguardando laudos
cadavéricos, depoimentos de policiais e outras pendências.
"Aí a
gente entra nessa discussão de recursos, de estrutura, essa coisa toda",
resume.
A falta de
recursos significa falta de papel para impressoras, falta de viaturas para a
equipe (o que significa depender da boa vontade de testemunhas quando
convocadas a prestar depoimento), falta de motivação para policiais, que receberam
apenas em dezembro o décimo-terceiro de 2016, e quatro ou cinco computadores
para serem usados pelos cerca de 50 agentes que atuam na Delegacia de
Homicídios da Capital.
"Os
delegados todos têm computador, mas os policiais não. Quando não preciso do
meu, coloco um policial para trabalhar nele. Estou otimizando recursos",
diz Carnevale.
O delegado não
se prolonga em queixas e ressalta o esforço que sua equipe tem feito para
trabalhar. É só que trabalhar está mais difícil. "Não estou nem falando de
conseguir a cereja do bolo, não. É para fazer o básico, o feijão com
arroz."
Ele afirma que
apurar as mortes de policiais não pode ser mais importante que investigar
homicídios de cidadãos comuns, mas ressalta a importância de se punir quem
atenta contra agentes de segurança do Estado.
"A reposta
a essas mortes é uma maneira de impor limites à atividade de criminosos que
acham que podem medir forças ou mesmo se sobrepor à força de um policial. Se
ele faz isso, aí mesmo que não tem mais limites", considera.
Denúncia de
banda podre
Quatro
suspeitos foram identificados pela morte de Clayton. Um deles, Luan Lopes da
Silva, o Luanzinho, foi encontrado morto em dezembro de 2015. Havia uma
recompensa de R$ 20 mil estipulada para sua prisão.
Luanzinho se
intitulava "matador de policiais", e logo antes de morrer liderou um
ataque à UPP do Jacarezinho que matou outros dois agentes.
Além dos
traficantes, o promotor de Justiça Sauvei Lai diz que denúncias anônimas
apontaram para o envolvimento de PMs no assassinato de Clayton. A Corregedoria
da Polícia Militar foi acionada, mas a denúncia não foi comprovada.
O promotor diz
que faltam provas contundentes para embasar uma denúncia contra os suspeitos da
execução.
"Os
traficantes foram identificados e conseguimos comprovar que haveria interesse
na morte do Clayton", diz Lai, titular da 30ª Promotoria de Investigação
Penal da 1ª Central de Inquéritos e responsável pelo caso do PM. "Mas
polícia não conseguiu produzir com êxito uma comprovação contundente da
participação desses indiciados", acrescenta.
De acordo com o
promotor, de nada adianta o Ministério Público oferecer uma denúncia "de
forma açodada" se as provas forem frágeis, já que os réus acabarão sendo
inocentados por júri popular, que costuma ter uma alta taxa de absolvição.
O promotor se
reuniu com Cassia Roth e sua advogada para conversar sobre o processo de
Clayton e formas de buscar provas mais robustas. Um dos caminhos foi solicitar
uma perícia de imagens filmadas em uma câmera que o PM levava durante as
operações, para que pudessem ser usadas nas investigações.
As imagens não
trouxeram revelações sobre o momento do crime - mas corroboraram a idoneidade
do policial em sua atuação na UPP de Manguinhos.
"Mostram
que ele era um PM atuante. Que, quando prendia, havia proposta de suborno, e
ele recusava. Que estava realmente desagradando o tráfico local, que portanto
teria interesse em matá-lo."
Ainda assim,
diz o promotor, falta uma "bala de prata" para embasar a denúncia, e
o caso voltou à Polícia Civil com pedidos para aprofundar as investigações.
Lai estima que,
para cada dez assassinatos no Rio, apenas dois casos resultem em denúncias - e
apenas um acabe produzindo de fato uma condenação. Ele diz que faltam recursos
de todos os lados.
"Nós temos
uma precariedade física, pessoal e estrutural. É como em hospital público. O
médico no hospital público não faz uma escolha? Ele vai atender o paciente que
tem mais chance de sobrevivência. Os policiais nas delegacias estão fazendo a
mesma coisa. Cada policial recebe entre 700 e mil inquéritos para cuidar, ou
até mais. É muito crime para pouco policial, temos um déficit enorme.
Investigação no Brasil não é eficaz, e a razão é a deficiência pessoal e
material."
Pressão
familiar conta
Nesse universo
de servidores sobrecarregados, o promotor afirma que costuma haver um
"esforço maior" em casos de policiais assassinados porque os
familiares colaboram, cobram e marcam presença.
"A grande
maioria dos inquéritos arquivados é por falta de interesse dos familiares da
vítima. Se uma vítima assassinada é traficante, então a família nem se digna a
ir para a delegacia para esclarecer. E o Estado não vai correr atrás quando nem
a família está correndo atrás", diz Sauvei Lai.
A americana
Cassia Roth conhece bem as dinâmicas brasileiras. É pesquisadora de história
latino-americana e morou no Rio por mais de três anos.
Ciente de que
monitorar o andamento das investigações seria importante para que elas fossem
adiante, contratou uma advogada para acompanhar o processo de Clayton. Desde a
morte do parceiro, vem se engajando como pode para que o caso avance.
"É muito
triste saber que ter recursos e educação fazem diferença para que as coisas
funcionem no Brasil. Eu era uma estudante de doutorado e tive acesso a coisas
que outros brasileiros mais pobres não têm, só porque tenho mais recursos. É
desanimador ver que as pessoas precisam lutar tanto para conseguir seus
direitos. É angustiante conviver com esse tipo de burocracia todos os
dias."
Cassia teve
contato com investigadores e com o promotor responsável pelo processo, buscou
integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado
do Rio de Janeiro (Alerj), abriu uma página em um site de financiamento
coletivo para reunir recursos para ajudar a família de Clayton e escreveu um
artigo relacionando o caso à situação de segurança pública do Rio para o blog
acadêmico Nursing Clio, do qual é colaboradora.
No texto,
contextualiza a morte dele com o histórico de violência nas favelas do Rio, a
criação das Unidades de Polícia Pacificadora e a reputação da polícia
fluminense de agir de forma violenta e corrupta, e diz que Clayton foi alvejado
e executado por ser reconhecido em sua unidade - e pelos traficantes de
Manguinhos - como um policial honesto e trabalhador.
Também fala
sobre como se sentiu quando uma operação policial para prender os suspeitos da
morte do noivo resultou de forma desastrosa, atingindo e matando com uma bala
perdida o menino Cristian Soares Andrade, de 13 anos, na favela de Manguinhos.
A morte gerou
comoção na comunidade e foi condenada por organizações defensoras de direitos
humanos, como a Anistia Internacional.
Em seu artigo,
Cassia considerou que as mortes de Clayton e de Cristian eram parte do mesmo
espectro, e questionou por que as organizações que tinham saído em defesa do
rapaz não tinham se manifestado quando seu parceiro policial foi assassinado.
"Dói
quando a Justiça que (os policiais) estavam tentando fazer é para o seu ente
querido, e aqueles que parecem defender os direitos humanos apagam a
possibilidade de que Clayton também tivesse esses direitos", comentou no
artigo.
Desde a morte
do parceiro, a historiadora vê se exacerbar a desconfiança com a atividade
policial, o que já sentia durante o namoro de três anos.
Era comum ouvir
manifestações de surpresa por estar com um policial militar. "As pessoas
me questionavam, como se não conseguissem imaginar que uma doutoranda pudesse
se apaixonar por um PM", diz ela.
"Depois
que ele morreu, uma acadêmica brasileira me falou: 'vamos te arranjar um outro
brasileiro que não seja um policial militar'", lembra Cassia, que até hoje
se enfurece ao lembrar do episódio.
Ela evita
comparações com os Estados Unidos, e lembra que lá há muitas questões
problemáticas na polícia, casos que explicitam um racismo estrutural.
"Mas, generalizando muito, acho que há mais respeito por policiais."
Trajetória
interrompida
Cassia chegou
ao Brasil em 2011 para fazer a pesquisa para seu doutorado, sobre saúde
reprodutiva e direitos de mulheres brasileiras entre 1890 e 1940, após a
abolição da escravatura.
Foi apresentada
a Clayton por um amigo em comum, em 2012, fazendo a longa trilha que sobe do
Parque Lage, no Jardim Botânico, até o Cristo Redentor. Lembra que estava com
duas amigas brasileiras, e que ele levou suas mochilas para aliviá-las do peso.
A oferta mexeu com seus brios feministas.
"Eu achei
aquilo ridículo, mas ele perguntou se eu queria que carregasse a minha também.
Falei que não precisava de um homem, que podia carregar a minha própria
mochila", ri. "Na semana seguinte, marcamos de sair, e alguma coisa
clicou", lembra.
"O Clayton
era um ser humano extraordinário. Cresceu em condições muito adversas e sempre
lutou para ser uma pessoa melhor. Fico muito triste que ele não pôde ter a vida
que ele merecia", diz a historiadora, que levou para a Escócia o vira-lata
Fox, que o noivo encontrou em Bonsucesso e o casal adotou. "Ele agora é o
rei de Edimburgo."
Clayton tinha
ensino médio completo e origens "muito humildes", filho de mãe
nordestina que veio para o Rio atrás de emprego. Ainda estava na Escola da
Formação de Praças da PMERJ (Cefap) quando se conheceram.
"Ele era
muito idealista. Acreditava no projeto das Unidades de Polícia Pacificadora
(UPPs). Mas foi se desencorajando com o que viu. Ele não era corrupto, isso as
investigações confirmam com muita clareza. Mas outros a seu redor eram",
diz Cassia.
Notícia pelo
Google
A americana
estava em Los Angeles e tinha acabado de embarcar em um avião para ir ver os
avós quando soube do assassinato. Estava inquieta com a falta de notícias do
parceiro, que não respondera suas últimas mensagens de texto.
Antes da
decolagem, por um impulso jogou as palavras no Google: "Policial militar,
UPP Manguinhos". E viu a notícia de que um policial lotado naquela unidade
havia sido baleado a caminho de casa na Ilha do Governador, onde ela morava com
o noivo.
"Liguei
para seu irmão, e o Clayton tinha acabado de morrer. Saí do avião e peguei o
próximo voo de volta para o Rio."
Ao chegar,
Cassia foi do aeroporto direto para o enterro de Clayton. No caminho, passou
necessariamente pela Estrada do Galeão, onde ele fora baleado. Hoje, ela
continua voltando ao Brasil periodicamente para cuidar de burocracias
relacionadas ao caso, que incluem um pedido póstumo de reconhecimento de união
civil, no qual deu entrada para tentar ajudar a família de Clayton
financeiramente.
Depois da
grande história de amor que viveu, ela pena toda vez que tem que voltar ao
Brasil. "Vamos dizer que já não tenho mais um bom relacionamento com o
Rio. É muito difícil para mim estar na cidade."
Cassia não
acredita que Justiça possa ser feita no caso de Clayton. "Justiça seria
ele ter a vida que merecia, e isso nunca vai acontecer." Mas considera que
prender e responsabilizar as pessoas que o mataram é o mínimo que o Estado
deveria fazer.
"A frase
'fazer o quê?' jamais deveria ser usada para falar da morte do seu parceiro, e
no entanto eu ouvi isso muitas vezes de pessoas no Rio. Os assassinos do
Clayton ainda estão foragidos. 'Fazer o quê, é o Brasil.' Ele foi preso por
fazer seu trabalho. 'Fazer o quê, é a Polícia Militar'. O fato de brasileiros
estarem resignados a não haver uma responsabilização é trágico", lamenta.
Ela ressalta
que não quer fazer qualquer julgamento sobre os brasileiros. "Minha
crítica é a um governo e um sistema judicial que forçam as pessoas a não
esperarem qualquer resolução", diz.
Por BBC

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