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Ativistas
protestam em frente à casa do ex-chefe de polícia
Miguel
Etchecolatz, em Mar del Plata, na Argentina.
(Foto:
Marina Devo/AFP)
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Ex-chefe de
polícia Miguel Etchecolatz foi condenado quatro vezes à prisão perpétua e disse
não se lembrar de quantas pessoas matou. Em carta divulgada por portal, filha
de 47 anos lembrou terror sofrido na infância e lamentou prisão domiciliar do
pai, 'um dos maiores genocidas da história'.
Filha do
ex-policial na ditadura argentina Miguel Etchecolatz, condenado por genocídio e
crimes contra a humanidade, Mariana Dopazo publicou nesta quarta-feira (10) uma
carta em que relata o horror que viveu junto com "um dos maiores genocidas
da história": o próprio pai.
"Rezávamos
para que meu pai morresse" é o título da carta que Mariana divulgou no
portal 'La Garganta Poderosa' em resposta à decisão do tribunal que concedeu
prisão domiciliar ao pai condenado em seis julgamentos, quatro deles à prisão
perpétua por assassinatos cometidos durante a ditadura argentina (1976-1983).
Mariana, de 47
anos, escreveu sobre as más lembranças que teve do pai durante a infância e que
a fizeram, inclusive, rejeitar o sobrenome Etchecolatz em 2016, quando a
Justiça autorizou a mudança na identidade.
"Justo e
reparador seria que Miguel Osvaldo Etchecolatz ficasse em uma prisão comum até
o final de seus dias, porque ninguém pode me vender o discurso do velhinho
doente que merece ir para casa", afirmou ela em um trecho da carta.
Mariana também
informou que sua mãe, esposa de Etchecolatz, acreditava que era impossível ser
concedida prisão domiciliar ao marido até que ele foi chamado e "tudo se
transformou em silêncio".
Etchecolatz foi
responsável pela Direção Geral de Investigações da Polícia de La Plata, cidade
da região metropolitana de Buenos Aires, de 1976 a 1978, na época do regime
militar. Naqueles anos, ele matou perseguidos políticos, segundo admitiu anos
depois durante um julgamento em que disse não lembrar de quantos assassinou.
A autora da
carta lembrou como foi sua infância ao lado do pai, a quem descreveu como
"um dos maiores genocidas da história, cercado de armas, com custódia
policial e vivendo dentro de uma bolha".
"Minha
pior lembrança da infância representa um sofrimento permanente: cada vez que
meu pai retornava da Direção Geral da Polícia, eu e meu irmão Juan nos trancávamos
dentro de um armário para rezar para que ele morresse no caminho", narrou.
Mariana também
reconheceu ter crescido no meio de situações traumáticas por se tratar de
"viver com Etchecolatz e não ter paz, fazer o que ele dizia e se acostumar
com o medo de abrir a boca".
A filha do
repressor descreveu o pai como um narcisista, de quem apanhava quando criança e
ouvia: "olhe o que você me fez fazer com você", algo que ela nunca
gostou de contar a ninguém.
Na carta,
Mariana atribui a Etchecolatz um duplo silêncio por ele nunca ter contribuído
com detalhes dos crimes à Justiça e nem ter falado a respeito com os
familiares.
"Não se
negocia a dor e nem se silencia o horror", escreveu ela ao se referir aos
benefícios de prisão domiciliar e redução de pena.
"Aos meus
47 anos, jamais achei que sofreríamos tal retrocesso nos direitos humanos, mas
a força popular é enorme e deve continuar crescendo até botar cada um desses
animais atrás das grades", finalizou.
No dia 27 de
dezembro, a justiça argentina liberou o ex-policial para cumprir prisão
domiciliar na cidade de Mar del Plata, que pertence a província de Buenos
Aires.
A defesa de
Etchecolatz tinha solicitado o benefício, alegando "novas patologias
crônicas, hipertensão e adenoma da próstata, que precisa de cauterização
permanente" e diagnóstico de "deterioração cognitiva
irreversível".
A decisão
judicial provocou polêmica entre a população argentina, que convocou várias
manifestações em protesto a prisão domiciliar de Etchecolatz.
Por Agencia EFE

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