![]() |
Professores
em treinamento para reagir contra
atiradores
em escolas (Foto: Faster/Divulgação)
|
Novos
episódios de violência reacenderam o debate sobre a possibilidade de
professores portarem armas em sala. A medida já virou lei em alguns Estados,
onde equipes de escolas estão sendo treinadas para reagir contra possíveis
atiradores.
Dois estudantes
morreram na terça-feira passada (23) e 14 ficaram feridos quando um colega de
classe abriu fogo do lado de fora
de uma escola em Benton, no Estado do Kentucky. Foi o terceiro tiroteio
em uma escola dos Estados Unidos em 48 horas e o 11º desde o início do ano.
As vítimas
foram Bailey Holt e Preston Cope, ambos de 15 anos. Um adolescente da mesma
idade foi preso e acusado pelo ataque.
"Os
americanos têm aceitado essas atrocidades como algo comum, parte da vida
aqui", comentou um leitor no site do "New York Times".
O caso colocou
o assunto na pauta do dia dos jornais e reacendeu o debate sobre possíveis soluções
para o problema, como capacitar professores para reagir em situações desse tipo
- o que já tem sido adotado em alguns Estados nos EUA.
E há um número
crescente de políticos americanos que têm proposto novas leis que visam
aumentar o número de armas de fogo nas escolas e em outros prédios públicos,
além de armar professores e funcionários das escolas como meios de defesa.
Projetos de
lei
Horas após o
tiroteio, por exemplo, o senador republicano Steve West apresentou um projeto
de lei que permitiria às escolas do Kentucky contarem com patrulhas de
segurança armadas.
O projeto, que
recebeu o apoio interpartidário do senador democrata Ray Jones, se junta a
outro no Estado que busca flexibilizar restrições a armas no entorno de
universidades.
"Precisamos
de agentes armados em todas as escolas do Kentucky", disse Jones.
"Esse é um preço pequeno a pagar se salvar a vida de uma criança".
A proposta se
soma a uma série de leis estaduais formuladas nos últimos anos para colocar
mais armas nas escolas.
Mais
recentemente, em novembro, membros do Senado de Michigan (os Estados americanos
são bicamerais, têm Senado e Câmara) aprovaram projeto que permitiria a
professores nas escolas primárias, secundárias e de ensino médio manterem armas
em um local sigiloso dentro da sala de aula.
Legislação
semelhante foi aprovada neste ano na Flórida, em Indiana, na Pensilvânia, em
Mississippi, na Carolina do Sul e em West Virginia.
Se
bem-sucedidos, esses Estados se juntariam a pelo menos nove que já permitem
algum tipo de porte de armas em instituições de ensino. Cada novo tiroteio em
escolas reacende um longo debate sobre se a solução seria aumentar o controle
sobre as armas ou relaxar as regras para porte delas.
"Se
queremos falar sobre prevenção de tiroteiros em escolas, deveríamos estar
falando, em primeiro lugar, sobre impedir os jovens de terem armas nas
mãos", disse Adam Skaggs, diretor do Giffords Law Center to Prevent Gun
Violence, organização que defende a aprovação de leis, políticas e programas
que ajudem a evitar a violência armada . "Essas são as leis para as quais
deveríamos estar discutindo".
Pressão
A multiplicação
de iniciativas para armar professores e funcionários de escolas remonta a 2012,
na esteira de um tiroteio ocorrido na escola primária de Sandy Hook, em Connecticut, em que vinte crianças e 6 professores morreram.
Em meio à
comoção pública gerada pelo massacre e à consequente pressão pública pelo
controle de armas, a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês)
atuou fortemente na direção oposta.
"O único
jeito de parar um cara mau com uma arma é ter um cara bom com uma arma",
disse o vice-presidente executivo da entidade, Wayne LaPierre, uma semana após
o titoreio. A frase virou bordão e passou a servir como base para a atuação da
NRA do Congresso americano, onde busca influenciar a formulação de leis.
O grupo
pró-armamento chegou a publicar documento exigindo a presença de agentes ou
funcionários armados em todas as escolas dos Estados Unidos. Em 2013, um ano
após o episódio em Sandy Hook, sete Estados promulgaram leis autorizando que
professores e funcionários portassem armas.
"Nos
últimos dois ou três anos vimos uma explosão de projetos de lei para obrigar
escolas a permitirem a presença de armas ou a armarem seus professores",
disse Skaggs.
"E não se
trata apenas de promover a ideia de que as pessoas precisam de armas nas
escolas para estarem seguras. É a ideia de que as pessoas precisam de armas em
todos os lugares - nas ruas, nos parques públicos e até em edifícios
governamentais".
Defensores das
medidades afirmam que elas são a única maneira efetiva de proteger os alunos.
Eles usam como
argumento, por exemplo, as escolas em zonas rurais, mais afastadas, onde uma
resposta da polícia para uma situação de emergência, como um tiroteiro, pode
levar muito tempo. As zonas sem armas, por sua vez, estariam criando
"alvos vulneráveis", segundo esses grupos.
No Kentucky,
palco do tiroteio de terça-feira, o republicano Tim Moore apresentou projetos
de lei em 2017 e 2018 em um esforço para diminuir restrições a armas nas
escolas e universidades.
"Sempre
que pessoas mal-intencionadas quiserem fazer mal aos outros em nosso país -
incluindo a crianças inocentes - irão buscar locais onde sabem que haverá
chances mínimas de resistência", disse ele, em entrevista por telefone.
"Mas
permitir que cidadãos que cumprem a lei sejam devidamente treinados,
devidamente avaliados, com uma verificação profunda de seu histórico, de
antecedentes criminais... a isso são colocados obstáculos".
Estatísticas
Tiroteios em
escolas passaram a chamar a atenção da opinião pública em abril de 1999, quando
Eric Harris e Dylan Klebold assassinaram 12 estudantes e um professor na
Columbine High School, uma escola de ensino médio em Littleton, Colorado. O
"saldo" desse massacre já foi, no entanto, suplantado pelos tiroteios
em Virginia Tech, na Universidade
Estadual da Virgínia, com 33 mortos, na escola primária Sandy Hook (25
mortos) e em outras 203 ocorrências com tiros em escolas ou no entorno delas.
De acordo com
um estudo do FBI que contemplou 160 casos envolvendo atiradores, entre os anos
2000 e 2013, aproximadamente um quarto dos casos ocorreu em ambientes
educacionais e mais da metade foi registrado em escolas primárias ou
secundárias.
E as
estatísticas não pararam por aí.
Quatorze anos
após Columbine, a aproximadamento 12 km de lá, Littleton foi palco de outro
tiroteio. Portando duas armas, Karl Pierson, de 18 anos, foi até a Arapahoe
High School, em dezembro de 2013, e atirou na cabeça de Clare Davis, de 17,
antes de se matar na biblioteca da escola.
Treinamento
Um dos
primeiros policiais a chegarem ao local naquele dia foi Quinn Cunningham,
membro da SWAT, unidade de polícia especializada dos EUA. Ainda em serviço, o
policial agora treina professores para portar armas de fogo e reagir em
situações em que haja ameça de atiradores.
Ministrado em
três dias, o treinamento "Faster" (mais rápido, em português) é
financiado pela organização Coloradans for Civil Liberties, do Estado do
Colorado. A programação inclui um dia de "desenvolvimento de capacidade de
raciocínio", que consiste em preparar os professores para a possibilidade
de terem de atirar para matar um de seus próprios alunos.
Cunningham,
hoje com 44 anos, pede aos professores para fecharem os olhos e imaginarem o
estudante entrando na sala de aula com uma arma.
Na prática, o
professor teria apenas uma fração de segundo para avaliar a situação e reagir.
Essa é a parte mais difícil e emocional do treinamento e leva alguns dos
participantes às lágrimas.
"Mas, se
pudermos fazê-los vencer a situação primeiro em suas mentes, em um cenário real
eles terão êxito", disse Cunningham.
Cinco membros
da equipe da Fleming High School, situada no nordeste do Estado, se
voluntariaram no ano passado para o treinamento - que ocorre nas férias de
verão, para que os alunos não saibam quem está envolvido.
Uma professora
que já participou, e que pediu para manter seu nome em sigilo, disse que
decidiu imaginar seu aluno favorito durante os exercícios - em um esforço para
se manter firme na pior eventualidade possível.
"Professores
não devem ter favoritos, mas, você sabe, sempre há aqueles alunos que ficam
mais próximos", disse ela. "Só que se aquele aluno tomou a decisão
errada de pôr todo mundo em perigo, eu terei de fazer algo a respeito".
A escola agora
tem cartazes em todas as entradas anunciando que alguns professores portam
armas. Os estudantes passaram cerca de uma ou duas semanas tentando adivinhar
quais deles seriam, antes de desistir, disse a professora.
Os voluntários
da Fleming High foram submetidos a checagem de antecedentes criminais e a
análises de tensões na voz, semelhante a um teste de detector de mentiras, disse
Steve McCracken, superintendente da escola. Os cinco foram aprovados.
"No fim
das contas, ninguém na escola ou na comunidade é a favor de ter armas, mas se
uma pessoa ruim vier até a escola, agora estaremos aptos a lidar com a
situação", disse ele.
"Nós não
temos um departamento local de polícia na nossa cidadezinha, e a delegacia fica
a pelo menos 15 ou 20 minutos em um bom dia. A principal razão disso (de armar
os professores) é fechar uma lacuna."
Alguns membros
da equipe se opuseram abertamente à presença de armas e um professor chegou a
deixar a escola por causa disso, mas a reação geral dos funcionários e da
comunidade foi de apoio, disse ele.
Em uma sondagem
feita pela Associação Nacional de Educação, em 2013, apenas 22% dos professores
do país disseram aprovar a ideia de ter a equipe armada, enquanto 68% disseram
se opor.
"Dar
uma de Rambo"
Em Michigan,
quando os senadores aprovaram uma lei em novembro que estendia a chamada
"concealed carry" - a permissão de porte de armas - em escolas de
ensino médio, igrejas, creches e eventos esportivos, o ex-professor e agora
senador estadual democrata Jim Ananich fazia parte da minoria contrária ao
projeto. Ele disse que a "grande maioria" dos seus ex-colegas também
desaprovaria a mudança.
"Tentar
dar uma de Rambo não se encaixa na realidade de uma situação estressante",
afirma. "Indivíduos não treinados são muito mais propensos a atirar em um
transeunte, em um policial ou em uma criança".
Os três dias de
treinamento da "Faster" - e a formação mínima legalmente exigida em
Michigan, de apenas oito horas - não são o suficiente, ressalta.
"Seguir a
filosofia da NRA, de que você pode pôr armas nas mãos de professores e de
indivíduos não treinados, e esperar que eles tomem decisões que agentes da lei
ou militares devem tomar é um retrocesso e é perigoso".
Os que lutam
para manter as armas fora das escolas dizem que armar professores é uma solução
ruim para o problema errado, particularmente em Estados em que faltam leis para
permitir a posse de armas de fogo em casa.
De acordo com o
Giffords Law Center, 27 Estados e o Distrito de Columbia têm algum tipo de lei
de prevenção de acesso à criança (CAP, na sigla em inglês), determinando o quão
seguras as armas devem ser guardadas dentro de casa.
As leis de CAP
no Kentucky - onde o atirador teria pego a arma de dentro do guarda-roupa dos
pais - estão entre as mais fracas de todos os Estados. Lá, pais e outros
responsáveis legais apenas infringirão a lei se deliberadamente derem a arma a
uma criança posteriormente condenada por um crime violento ou propensa a
cometer um delito.
Na prática,
grupos como o Campaign to Keep Guns Off Campus (Campanha para manter armas fora
do campus), que se opõe a políticas que obrigariam as universidades a terem
armas, estão lutando em cada Estado contra a NRA, seus afiliados em âmbito
estadual e outros grupos de defesa de armas para derrotar legislações pró-armas
nas escolas.
"Nós - a
comunidade de prevenção à violência armada - estamos derrubando a maioria dos
projetos de lei agora, mas a força do outro lado está lá", disse Andy
Pelosi, diretor da Keep Guns off Campus.
"A NRA tem
suas impressões digitais sobre esta questão agora. Eles querem espalhar armas
em todos os lugares", acrescentou ele.
A NRA foi
procurada pela reportagem, mas não respondeu ao pedido de entrevista para
comentar o assunto.
Por BBC

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!