![]() |
Lula durante
visita às instalações da fábrica de antirretrovirais,
em 2010 (Foto: Ricardo Stuckert/Ag. Brasil)
|
Trata-se do
mais longo projeto de cooperação na África, realizado desde 2003, e mais caro,
com custo de R$ 40 milhões; motivo principal da mudança é que antirretroviral
brasileiro ficou ultrapassado.
Quem entra na
Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM), a única fábrica de remédios de
Moçambique, dá de cara com um objeto em exibição dentro um cubo de vidro, sobre
um pedestal. É um frasco de nevirapina 200 mg, componente de um dos tratamentos
para a Aids. Pelo rótulo, sabemos que foi produzida pela Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), do Brasil, e embalada no país africano. Validade: 05/2014.
Esperava-se que
fosse um motivo de orgulho. Mas ali dentro estão as esperanças, vencidas e
frustradas, dos dois países. Faz 14 anos que o Brasil apoia a criação dessa
fábrica, destinada a produzir antirretrovirais - como são chamados os remédios
que combatem o vírus HIV. É o mais longo projeto de cooperação do governo
brasileiro na África, e o mais caro, com custo estimado em R$ 40 milhões.
Mas a
iniciativa acaba de passar por uma transformação radical. Em vez de
antirretrovirais, a fábrica produzirá paracetamol, analgésico comumente usado
contra dor de cabeça e cólica. Para isso, contará com apoio técnico da Fiocruz e
com um novo repasse de R$ 5 milhões do Ministério da Saúde brasileiro, aprovado
no segundo semestre deste ano.
"Notícia
boa é que não é. É triste para nós, mas não podemos fazer mais nada",
desabafa Joaquim Govene, um dos moçambicanos treinados pelo Brasil para
produzir medicamentos. "Nós não podemos fabricar antirretrovirais, mas
pelo menos vamos produzir algo para a população."
O motivo
principal da mudança é que a nevirapina, cuja tecnologia de produção o Brasil
transferiu para Moçambique, ficou ultrapassada. Já foi muito importante no
combate ao HIV, mas, à medida que o projeto da fábrica de antirretrovirais
demorava para sair do papel, foi sendo substituída por outras drogas mais
modernas e eficazes. Hoje, é raramente usada nos dois países.
"Produzir nevirapina
é desperdiçar material, vai ser farinha", diz a médica Sheila Cassamo,
responsável pela área de HIV da direção de saúde de Maputo, capital
moçambicana. "Está obsoleta como droga", completa Adele Benzaken,
diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle do HIV/Aids, do
Ministério da Saúde brasileiro.
Jorge Mendonça
é diretor de Farmanguinhos, unidade da Fiocruz responsável pela parceria com a
SMM. Ele não participou da concepção do projeto, mas faz mea culpa.
"A
indústria de medicamentos é muito agressiva. Um novo medicamento, uma nova
abordagem, uma nova descoberta podem mudar o mercado completamente. Se fosse
possível voltar atrás, talvez poderíamos não ter apostado tantas fichas de que
essa seria uma fábrica para antirretrovirais. Tinha que ser uma fábrica para
atender a saúde pública moçambicana."
Mendonça advoga
pela importância do Brasil continuar financiando a fábrica: "O que está
sendo investido lá não é nenhuma fortuna, é uma pequena contribuição para
terminar esse projeto".
'É um
trabalho com muito mérito'
Hoje, o Brasil
não tem tecnologia para produzir os remédios mais modernos usados no tratamento
contra a Aids. Por isso, não há como transferir esse conhecimento para
Moçambique.
O paracetamol
foi, então, a alternativa encontrada para que a fábrica não fechasse, o que
desperdiçaria todo o investimento feito até agora pelos dois países.
É um
medicamento barato, mas com muita saída. A ideia, então, é que o analgésico dê
sustentabilidade econômica para a SMM e permita a ela fabricar outros produtos,
como anti-hipertensivos.
O técnico
Govene ainda não contou a ninguém sobre a mudança, porque acha que as pessoas
não vão gostar da notícia. É o que ocorreu com a médica Cassamo:
"Paracetamol? Desculpa, né! Se fosse uma fábrica de antibióticos, de
antifúngicos... Mas paracetamol é algo que nós temos. Acho que nunca tivemos
falta de paracetamol. Não é questão de saúde pública".
O presidente do
conselho de administração da SMM, Evaristo Madime, defende o projeto. "Não
vejo como um fracasso, porque temos resultados concretos. Temos uma fábrica bem
instalada em Moçambique. Temos moçambicanos que sabem produzir medicamentos.
Temos um portfólio de remédios - limitado, é verdade, mas temos um portfólio.
Não é um trabalho que se possa desprezar, tem muito mérito."
De
'revolucionário' a 'dor de cabeça'
A ideia
brasileira de criar uma fábrica de antirretrovirais na África surgiu, em 2003,
da combinação de duas realidades. Primeiro, Moçambique era um dos países mais
afetados pelo HIV no mundo - hoje, tem a oitava maior prevalência do vírus.
Segundo, o Brasil tinha - e continua a ter - uma política de combate ao vírus
que é considerada modelo. O projeto propunha, então, unir necessidade e
experiência.
Era o início do
governo Lula e de uma nova política externa, orientada para o aumento das
relações Sul-Sul - entre Brasil e África, inclusive. Os principais eixos eram
incrementar os laços econômicos, com aumento de exportações e expansão de
empresas brasileiras, e realizar projetos de cooperação, para auxiliar o
desenvolvimento dessas regiões.
"Quando o
Brasil criou esse projeto (da fábrica de antirretrovirais), estávamos vivendo
um momento muito bom no país. Muita gente concordava que tínhamos uma dívida
simbólica com a África, por causa da escravidão, e que naquele momento havia
condições de pagar", afirma Mendonça, da Farmanguinhos.
O governo
brasileiro propagava que sua presença na África era diferente das relações das
Norte-Sul, apresentadas como uma parceria entre ex-exploradores (as antigas
metrópoles europeias e os países ricos) e ex-explorados (ex-colônias),
perpetuando uma dinâmica de dependência. Já o Brasil seria um parceiro, um
irmão.
A fábrica de
antirretrovirais se encaixou perfeitamente nessa disputa simbólica. Moçambique
recebe os medicamentos antirretrovirais de graça, por meio de doações do Norte,
via Fundo Global de Combate à Aids e do Plano de Emergência para Alívio da Aids
do Presidente dos Estados Unidos (Pepfar). A proposta do projeto brasileiro era
se contrapor a esse tipo de cooperação, que dá o peixe. Em vez disso, o Brasil
pretendia ensinar a pescar.
Por um lado, a
proposta foi vista como uma ideia revolucionária. Por outro, foi encarada pelo
Itamaraty como uma enorme dor de cabeça. Se desse errado, poderia manchar a
imagem que o Brasil queria construir, de parceiro solidário da África.
O ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva foi um entusiasta do projeto. Nas suas visitas ao
continente africano - foram 34 em oito anos de governo -, sempre citava a
fábrica de antirretrovirais como um exemplo da solidariedade brasileira.
"O fato de
nós estarmos construindo a primeira fábrica de medicamento genérico para
combater a Aids no continente africano pode ser anunciado quase como uma
revolução. Esta fábrica, na hora em que ela estiver produzindo, vai libertar o
povo de Moçambique de ficar subordinado a laboratórios, normalmente dos países
desenvolvidos", discursou o então presidente em visita à nação em 2010.
Procurado pela
BBC Brasil, o líder petista não se manifestou.
13% da
população de Moçambique tem HIV
Estima-se que
13% da população de Moçambique viva com HIV. Para comparação, no Brasil a
incidência é de 0,4%. Mas apesar do altíssimo número de infectados, o vírus
ainda é um tabu.
Isabel tem 45
anos, oito deles guardando o segredo de que é soropositiva. Nunca revelou para
família ou amigos.
"Tenho
receio de contar. Acho que algum dia vou falar para os meninos", diz,
fazendo referência aos filhos já adultos, ambos HIV negativo. Seu verdadeiro
nome também faz parte do sigilo - Isabel foi como ela escolheu ser chamada na
reportagem.
A moçambicana
está em tratamento há cinco anos, desde que a imunidade do seu corpo começou a
baixar. É na hora das novelas brasileiras, muito populares em Moçambique, que
ela toma o remédio, às escondidas.
Todos os meses,
ela vai ao Centro de Saúde José Macamo, um dos maiores de Maputo, para buscar
os frascos. "Se não fosse gratuito, eu não teria como pagar a
medicação." Faxineira, sua renda mensal é de 4 mil meticais (cerca de R$
200).
Hoje, 60% dos
soropositivos em Moçambique têm acesso ao tratamento antirretroviral. Ainda é
longe da meta de 90% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde, das Nações
Unidas. Mesmo assim, o número é considerado positivo, já que as terapias só
começaram a ser oferecidas no país em 2003 - sempre pagas com dinheiro da
doação Norte-Sul.
Agora, o
desafio para expandir o acesso é identificar os pacientes e distribuir a
medicação por todo o país. Remédios antirretrovirais não faltam.
Medicamento
brasileiro ficou ultrapassado
O Centro de
Saúde José Macamo, onde Isabel se trata, tem 6 mil pacientes com HIV.
A equipe
responsável pela farmácia da unidade de saúde fez cara feia quando a reportagem
da BBC Brasil pediu para ver um frasco de nevirapina. "Esse medicamento
sai muito pouco, vai dar trabalho de encontrar". Ali, apenas 5 pacientes,
entre todos os 6 mil, tomam o fármaco que o Brasil transferiu para Moçambique.
"No
momento em que foi acordada a transferência de tecnologia de produção de
antirretrovirais, o portfólio que o Brasil tinha para transferir se ajustava às
necessidades de Moçambique. Todavia, a partir de certa altura, Moçambique
passou a adotar outra linha de tratamento", explica Madime, da SMM.
A nevirapina
começou a ser produzida no Brasil, pela Fiocruz, em 2001. Foi usada durante 16
anos. Agora, ficou tão ultrapassada que sua retirada do SUS está em discussão.
É tomada por apenas 1% das pessoas em tratamento no Brasil. Entre as
desvantagens estão efeitos tóxicos no fígado e a necessidade de tomar
comprimidos duas vezes por dia, na maioria das vezes combinados com outra
medicação, o que dificulta a adesão do paciente ao tratamento.
Hoje, a
principal droga de combate ao HIV em Moçambique é a tripla, um único comprimido
diário com três componentes, sendo o principal deles o Efavirenz. É esse o
coquetel usado por Isabel, por exemplo.
Também é o mais
comum no Brasil, com mais de 200 mil pacientes. Mas já está sendo substituído
por uma solução mais moderna, o Dolutegravir, administrado a 60 mil pessoas.
Ambos são importados.
"Essa é a
historia natural das drogas. O HIV é um vírus mutante. Com o tempo, cria
resistência aos antirretrovirais e é preciso adotar novos medicamentos",
explica a brasileira Adele Benzaken. "Se a droga ficar entre nós por dez,
15 anos, já é um grande serviço."
Isabel sabe
desse risco. "Eu estou saudável. Mas é uma coisa que me preocupa sempre.
Não sei se vou continuar bem ou se, de repente, não vou mais me levantar da
cama. Porque acontece do corpo não aguentar mais o medicamento, não é
doutora?", pergunta para sua médica. "Quem sabe um dia achem a
cura."
Placebos
embalados
A fábrica
demorou tanto tempo para ficar pronta que o período da sua criação coincide com
o início e o fim do ciclo da nevirapina no Brasil.
Em 2003,
durante a primeira viagem de Lula à África, foi assinado um protocolo de
intenções. Em 2007, a Fiocruz apresentou um estudo de viabilidade e, em 2009, o
Congresso aprovou uma primeira doação para a instalação da fábrica.
A vontade do
petista era inaugurá-la durante seu mandato. Mas não deu tempo. A fábrica não
ficou pronta. Por isso, no seu último ano de governo, 2010, ele planejou apenas
uma visita ao local.
O problema era
que ainda não havia o que ver, pois os equipamentos não haviam chegado. A
solução encontrada foi enviar do Brasil, emprestada, uma máquina para embalar
comprimidos, em um avião da Aeronáutica. Como os moçambicanos ainda não estavam
treinados para manipular remédios, foram embalados placebos.
A inauguração
oficial ocorreu dois anos depois, em 2012, com a presença do então
vice-presidente Michel Temer.
Desde então, a
fábrica tem operado no modo piloto, treinando pessoal e documentando
procedimentos de produção e manejo dos fármacos.
Na área de
antirretrovirais, o principal resultado foi a embalagem da nevirapina
brasileira, em 2014. Também houve uma tentativa de produzi-la localmente, em
2015, que não foi concluída.
Fabricados, de
fato, foram Haloperidol (tratamento de problemas psicológicos), Propranolol e
Captopril (pressão alta). Todos entre 2015 e 2016. Neste ano, não houve nenhuma
produção. A expectativa é que a fábrica volte a operar em 2018, com o
paracetamol.
Por nota, o
Ministério da Saúde brasileiro informou que considera fundamental a conclusão
do projeto, "que contribuirá significativamente para o fortalecimento do
sistema de saúde público moçambicano".
O órgão também
justificou a troca de medicamentos: "Devido ao registro de patentes de
novos medicamentos, avanços tecnológicos e, principalmente, mudanças na
política de tratamento adotada pelo Ministério da Saúde de Moçambique, o
portfólio de medicamentos (da fábrica) sofreu alterações. O portfólio final
contemplará a transferência tecnológica e a produção de dez medicamentos,
incluindo o paracetamol".
Dessa lista de
dez, além do paracetamol, três são antirretrovirais já descartados por
Moçambique, três são os medicamentos que já foram produzidos na fábrica, mais
um antiviral, um antianêmico e um diurético.
Por BBC

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!