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© Fornecido
por El Pais Brasil O deputado federal
Jair
Bolsonaro, pré-candidato em 2018.
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Jair Bolsonaro,
ainda sem partido para se candidatar à Presidência, anda paquerando o mercado.
Sua viagem aos Estados Unidos em outubro foi um balão de ensaio para testar a
acolhida de suas novas e desconhecidas teses econômicas. Durante a turnê,
Bolsonaro criticou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e elogiou o
modelo americano que não contempla benefícios como férias ou licença
maternidade. Defendeu também a extinção e privatização de estatais, inclusive
da Petrobras. Já no Brasil, e amparado por assessores econômicos, o discurso se
ampliou para incluir a independência do Banco Central, abrir o Brasil ao
comércio internacional, mas com restrições à China, e a redução de impostos e
da intervenção estatal.
Até para seus
assessores, Bolsonaro estava demorando em mergulhar na pauta econômica. Hoje, aparentemente
decidido a abraçar o liberalismo, suas propostas causaram estranheza pelo
contraste com seu histórico em mais de duas décadas de atividade política. O
Bolsonaro de hoje anuncia um "namoro hétero" com o economista Paulo
Guedes, considerado um dos mais liberais economistas brasileiros, e diz que
poderia ser seu ministro da Fazenda. Mas o Bolsonaro do ontem foi contra
medidas de austeridade fiscal e restrição de benefícios trabalhistas durante os
mandatos de Dilma Rousseff. Também chegou a defender o fuzilamento de Fernando
Henrique Cardoso por privatizar a Vale do Rio Doce e “entregar nossas
reservas petrolíferas para o capital externo”.
Um levantamento
da Folha de S. Paulo revelou que dos 166 projetos de lei que o
deputado propôs na Câmara dos Deputados entre 1991 e 2017, apenas 15 tratavam
sobre economia, demonstrando uma visão mais intervencionista do que liberal.
Segundo a pesquisa, Bolsonaro, entre 1999 e 2010, concordou com o PT em
votações de projetos sobre concessões de benefícios para o setor privado, como
incentivos tributários, parcelamento de créditos e subvenções. Na década de 90,
como divulgou O Globo, Bolsonaro votou e militou contra o Plano
Real, contra a quebra dos monopólios do petróleo e das telecomunicações e
contra a reforma da Previdência, que buscava dar racionalidade às contas
públicas.
A virada
liberal do deputado busca apoio no mercado, nos investidores e nos agentes
econômicos que veem mais do que incertezas num candidato de posições radicais,
mas que avança nas pesquisas para 2018 em segundo posição –com 17% das
intenções de voto– na última pesquisa Datafolha. Poderia se pensar que parte
dos seus eleitores, a maioria assalariada, entre os quais há também muitos
militares e 60% de jovens menores de 34 anos, não vissem com bons olhos a nova
face liberal do candidato. Mas não. “Eles são eleitores muito convictos. Mais
ou menos como os eleitores de Lula no Nordeste. Eles adotaram o candidato como
se fosse uma religião”, avalia o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.
“Nós somos
conservadores nas costumes e liberais na economia”, explica o oficial reformado
Pedro Werneck, de 70 anos, que sustenta ser um equívoco achar que há um
pensamento nacionalista homogêneo entre os militares. “Tem um grupo que
acha que o Governo deve ser mais intervencionista, outro grupo menor acredita
que o Governo tem que mandar na economia e, depois, estamos os que somos a
favor de medidas mais liberais, como a privatização das empresas estatais”,
diz. Ele fala no plural, em referência ao grupo de cerca de 300 membros que
representa, o Fênix Brasil. “Nós não somos contra a privatização da Petrobras,
se bem a gente não vai lutar por ela. Acredito que você não precisa ter uma
estatal para extrair ou distribuir o petróleo, sempre que o Governo controle a
fonte”.
O militar
Werneck, crítico com o Governo Temer pelos casos de corrupção, mas defensor das
suas reformas, é também administrador de empresas agropecuárias. Ele, assim
como seu candidato, cobra maior segurança no campo. “Pode ter certeza de que a
penetração de Bolsonaro no mundo rural é até maior que nas zonas urbanas, mas
isso não sai nas pesquisas”, alerta. Werneck também é favorável à reforma
trabalhista. “Só não pode acabar com aqueles pontos que estão na Constituição,
como o décimo terceiro, as férias, o fundo de garantia, a licença maternidade
ou auxilio desemprego. Mas não existe dúvida de que nós temos que fazer uma
reformulação na CLT, é da década de 1940”, argumenta.
Numa reunião
recente com deputados do setor agropecuário, Bolsonaro, no entanto, desapontou.
Após prometer que distribuiria fuzis para os fazendeiros se protegerem dos
"invasores" em referência ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST), alguns deputados qualificaram o pré-candidato como “genérico” e
“inconsistente", conforme divulgou o Estadão. “Essa
campanha está nascendo como uma guerra de marketing. Estão mais preocupados em
dar declarações que comovam a opinião pública do que fazer análises profundas”,
disse o deputado Domingos Sávio (PSDB-MG). “Às vezes somos estigmatizados. O
setor agropecuário não pode e não tem o egocentrismo de pensar o Brasil só sob
o olhar do campo e da produção. Olhamos questões como saúde, educação e
segurança.”
"Ele é o
único que não faria mais do mesmo”
Da periferia do
Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, Gléiser de Souza, eletricista
desempregado de 26 anos, concorda em flexibilizar o mercado de trabalho. “Sou
contra o fim da CLT, porém sou a favor de que se enxugue. E não só a CLT,
também os impostos associados para contratar um funcionário que acaba
prejudicando a contratação”, defende, em uma aproximação do discurso do
pré-candidato que costuma pregar: “Hoje em dia é muito difícil ser patrão no
nosso país”. Bolsonaro já se gabou de ser o único deputado a votar contra a
ampliação de direitos trabalhistas das empregadas domésticas, profissão da mãe
de Gléiser. “Não é porque eu sou eleitor dele que eu vou concordar com
tudo. Mas não cogito votar em nenhum outro. Ele é o único que não
faria mais do mesmo”, diz.
Souza, jovem
negro criado em Nilópolis apenas pela mãe, também é contra programas de
distribuição de renda. “O Bolsa Família no Brasil foi usado pelos 13 anos do PT
como barganha para os mais pobres. Não foi usado como um projeto social. Foi
construído como uma boa ideia mas foi deturpado na implementação, tem muita
fraude e não é fiscalizado”, critica. O que Bolsonaro deve fazer com o mais
polêmico programa social do Brasil ainda é incerto. Mas Abraham Weintraub, um
dos assesores que orienta o pré-candidato em matéria econômica defende o
benefício: "Não vamos extinguir nada. Bolsa Família é um programa liberal
baseado em propostas de Milton Freidman. Estamos 100% alinhados com o Bolsa
Família. Porém, o maior programa social que existe, reconhecido em qualquer
país do mundo, é crescer e gerar empregos".
Para Danilo
Cersosimo, diretor de Public Affairs do instituto de pesquisa Ipsos, não
surpreende que os eleitores de Bolsonaro abracem essa pauta liberal.
“Quando olhamos para dados de aprovação, as pessoas que aprovam Bolsonaro não o
aprovam mais ou menos, o apoio é total. Ou seja, qualquer coisa que ele disser
e pregar vai contar com apoio. Ele já atingiu um status, e as pessoas querem o
pacote Bolsonaro, não o que ele pensa sobre economia. O mesmo se aplicaria para
Lula. São figuras que contam com um apoio quase incondicional”, afirma
Cersosimo.
Em Goiânia,
Thiago Borges, engenheiro de sistemas de 36 anos, acredita que
as intenções de Bolsonaro são muito melhores do que as de qualquer outro
candidato. Ele é favor da reforma da Previdência, mas não nos termos de Temer,
cuja proposta teria como objetivo "saquear" e não atualizar o
sistema. "Se a expectativa de vida do brasileiro aumentou é natural
que se mexa na Previdência. Mas fixar em 65 anos? É um crime. Tem lugar no
Brasil onde a expectativa de vida é de menos de 60 para os homens. A vida em
Roraima é muito diferente de Rio Grande do Sul", adverte. "E aí
vem outra proposta em que Bolsonaro acerta. Ele é a favor de cada Estado poder
ter suas leis, assim como acontece nos EUA. Um país continental como o Brasil
não pode ter só uma legislação".
Crise e
corrupção, o diagnóstico da crise
Para
simpatizantes de Bolsonaro, o diagnóstico da situação do país passa pelo
binômio corrupção-segurança. No caso dos eleitores do deputado, as propostas de
privatização, por exemplo, são vistas como uma vacina não tanto contra o a crise
econômica, como contra os políticos corruptos. “Não seria contra a
privatização da Petrobras. Sei que por um lado a base da pirâmide iria sofrer,
pois os trabalhadores perderiam benefícios, mas não existe uma forma de fazer
as coisas melhorarem sem que alguém sofra”, avalia um soldado da Polícia
Militar do Rio sob anonimato. “Hoje a Petrobras, nas mãos de corruptos,
tornou-se cabide de emprego dos poderosos, contratos firmados às escuras em
troca de apoio político. É uma sangria infinita de recursos”.
Este
entendimento pode ser percebido nas pesquisas. No Brasil, segundo Datafolha, o
principal problema para todos os grupos de eleitores é a saúde (24%). Em
segundo lugar empatam desemprego e corrupção com 18%, mas entre os anti-Lula,
que votam preponderantemente em Bolsonaro, a corrupção preocupa ao 20% dos
eleitores, dois pontos acima da média. Vê-se essa diferença também no quesito
segurança: 10% do total dos eleitores mostra preocupação por esse assunto, mas
no grupo anti-Lula essa preocupação atinge 13% dos entrevistados.
“O eleitor está
preocupado em ver quem vai resolver ou atrapalhar menos na resolução dos
problemas. Os anti-Lula, como estão mais preocupados com corrupção e segurança,
acabam pendendo mais ao Bolsonaro”, avalia Paulino que acredita que a
candidatura do ex-militar perderá fôlego. “Nesse momento da corrida, vale mais
a marca que o candidato conseguiu estabelecer do que as propostas. Será depois,
durante os debates e o horário eleitoral, que serão expostas as contradições”.
El Pais

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