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Depoimento
do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro
na quarta
(13) (Foto: Reprodução)
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Ex-presidente
foi ouvido por 2h10 nesta quarta (13) em ação que investiga se ele recebeu
propina da Odebrecht. Em depoimento semana passada, Palocci disse que Lula
tinha 'pacto de sangue' com empresa. 'Ele inventou a frase de efeito', disse
ex-presidente.
Em depoimento
na Justiça Federal de Curitiba nesta quarta-feira (13), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva afirmou que o ex-ministro de seu governo Antonio Palocci
"mentiu" em depoimento ao juiz Sérgio Moro.
"Eu vi o Palocci mentir aqui", afirmou. Lula chamou o ex-ministro de
"calculista e frio" e disse que Palocci só citou seu nome na
tentativa fazer delação premiada e reduzir alguns anos de condenação.
"Ele fez
um pacto de sangue com os delatores, com os advogados deles e talvez com o
Ministério Público", afirmou Lula, em referência ao "pacto de
sangue" que Palocci afirmou haver entre Lula e a Odebrecht, incluindo um
pacote de propinas de R$ 300 milhões.
Nesta ação,
Lula é acusado de receber propina da empreiteira Odebrecht por meio da compra
de um prédio para a nova sede do Instituto Lula, que não chegou a ser
construída, e de um apartamento vizinho ao que mora em São Bernardo do Campo
(SP).
Lula também
afirmou a Moro:
- Que não solicitou a compra do apartamento vizinho
ao dele em São Bernardo do Campo.
- Que visitou o prédio objeto da denúncia uma vez e
que o achou inadequado.
- Que as doações que o Instituto Lula recebeu da
Odebrecht não eram propina.
- Que jamais tratou com Emílio Odebrecht sobre
dinheiro para o PT
- Que as três denúncias apresentadas contra ele pela
força-tarefa da Lava Jato são "ilações".
Palocci e
'pacto de sangue'
Palocci
foi interrogado por Moro nesta mesma ação na semana passada e
afirmou que Lula tinha um "pacto de sangue" com o dono da empreiteira
Odebrecht, que incluia um "pacote de propinas" para o ex-presidente
no valor de R$ 300 milhões.
Em seu
depoimento, que durou 2h10, Lula afirmou que Palocci "inventou essa frase
de efeito" e que tenta, ao acusá-lo, fechar uma delação que possa trazer
redução de pena.
Lula disse
ainda que o ex-ministro é "calculista e frio". "Conheço o
Palocci bem. O Palocci, se não fosse ser humano, seria um simulador. Ele é tão
esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. O
Palocci é médico, calculista, é frio", afirmou.
Moro, então,
perguntou se nada do que o ex-ministro disse é verdadeiro. "Nada é
verdadeiro", respondeu Lula. "A úncia coisa que tem de verdade ali é
ele dizer que está fazendo a delação porque quer os benefícios da delação. Ou
quem sabe ele queira um pouco do dinheiro que vocês bloquearam dele",
afirmou.
Sobre a menção
de Palocci de que Lula cometeu obstrução de Justiça, o ex-presidente negou:
"Eu não admito que ninguém diga que eu tento obstruir a Justiça. Porque
eu, se não acreditasse na Justiça, eu não estaria fazendo política."
Lula afirmou
não ter raiva de Palocci pelas acusações. "Lamentavelmente, o Palocci se
prestou a um serviço pequeno, porque inventar inverdades para tentar
criminalizar uma pessoa que ele sabe que não cometeu os crimes que ele alegou é
muito desagradável [...] Eu, sinceramente, não tenho raiva do Palocci. Eu tenho
pena de ele ter terminado uma carreira tão brilhante da forma que ele
terminou."
Sobre as
declarações de Lula, o advogado de Palocci, Adriano Bretas, afirmou
que o ex-presidente é dissimulado e que a lógica dele é dizer que
os que o acusam mentem.
Apartamento
Lula afirmou
que não pediu a ninguém a compra do apartamento vizinho ao seu em São Bernardo
do Campo. Ele também negou ter participado do contrato de locação do imóvel e
disse que o local era usado por seguranças e também para reuniões políticas.
Lula disse que
"deve ter" o recibo de pagamentos do aluguel do apartamento. "O
recibo não fica comigo, mas isso pode ser pego e enviado", afirmou.
Questionado pelo MPF se o ex-presidente não achava relevante apresentar os
recibos, Lula, orientado pelo advogado, não respondeu.
O ex-presidente
relatou que, quando o dono do apartamento faleceu, ele não manifestou
preocupação de que o imóvel fosse adquirido por um terceiro. Segundo Lula, ele
ficou sabendo que o Glaucos da Costamarques [acusado de ser laranja na
transação] havia comprado o imóvel quando foi estabelecido contrato de locação
com a dona Marisa [ex-mulher de Lula, já falecida].
Lula disse que
até interrogatório de Glaucos, tinha certeza que o aluguel estava sendo pago.
"Para mim foi surpresa, porque o Glaucos nunca reclamou para mim que não
estava sendo pago até 2015."
Nova sede do
Instituto Lula
Lula disse que
visitou o prédio que é objeto da denúncia uma única vez, mas, segundo ele,
achou o local "inadequado". "O Paulo [Okamotto, presidente do
Instituto Lula] falou: 'Estão oferecendo para comprar um prédio, que me parece
que é um antigo shopping'. Eu fui uma única vez, uma única vez. Cheguei lá e a
primeira coisa que eu disse foi o seguinte: 'Não interessa. É inadequado. Isso
aqui não é uma zona que pode frequentar muita gente. Nós vamos procurar em
outro lugar.'"
Foram visitados
outros lugares, afirmou. "Nós já tínhamos visitado outros prédios para
alugar ou para pegar oferta de compra. Tínhamos visitado um prédio dos
Correios, tínhamos visitado um prédio de uma escola que tinha lá perto do
Ipiranga, tínhamos visitado uma espécie de castelinho que tem naquelas coisas
velhas do Ipiranga, que até era um precinho barato, porque aquilo está
tombado."
Reunião com
Dilma e Emilio Odebrecht
O MPF citou no
interrogatório uma agenda de reunião entre Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff
e Emilio Odebrecht em 30 de dezembro de 2012, poucos dias antes de Dilma
assumir a presidência no lugar de Lula.
Segundo a
acusação, nesta agenda havia uma pauta da reunião com assuntos como: passagem
do histórico da parceira; disponibilizar apoio junto ao Congresso; estádio
Corinthians; obras sítio; primeira palestra Angola; e Instituto.
"Essa
agenda é mentirosa, ela não existe", começou Lula. Ele afirmou que a
reunião ocorreu a pedido de Emilio, durou menos de 10 minutos e que nenhum
desses temas foi tratado.
"Jamais, o
Emílio Odebrecht, que é um empresário que eu tenho um profundo respeito, tratou
comigo sobre qualquer dinheiro para o PT. Jamais. Eu não era tesoureiro do PT,
eu não era da direção do PT. O PT tinha tesoureiro, e a campanha tinha
tesoureiro. Portanto, não havia porque conversar comigo".
Lula enfatizou
que nunca discutiu com nenhum empresário do país sobre dinheiro. "Eu
desafio vocês do Ministério Público, da Operação Lava Jato, desafio a da
Polícia Federal, a encontrar neste país alguém que discutiu comigo R$ 1."
Doações da
Odebrecht
Lula também foi
questionado sobre as doações de R$ 4 milhões da construtora Odebrecht para o
Instituto Lula entre 2013 e 2014. "Eu já respondi, mas vou responder outra
vez: a Odebrecht não tinha que pedir a opinião do Lula para fazer doação,
porque o Lula não é diretor do Instituto Lula. Se ela fez alguma doação, ela
está contabilizada no instituto”, afirmou.
Sobre se o
valor foi propina da Odebrecht para o governo do PT, Lula disse: "Essa é a
peça de ficção mais hilariante que eu ouvi na fala do Palocci. Eu,
sinceramente, não sei qual era a relação de Palocci com Marcelo Odebrecht. Os
dois têm mais de 35 anos, tem autonomia, conversavam e nunca me pediram para
conversar. Se tinha fundo ou não tinha fundo, o doutor Palocci que
explique", disse.
Empresa e
palestras
O MPF
questionou Lula sobre a empresa DAG, que segundo a acusação teria fretado uma
aeronave para ele viajar até a República Dominicana. A empresa é de Demerval
Gusmão Filho, que em
depoimento a Moro afirmou ter comprado um terreno que seria para a
nova sede do Instituto Lula.
"Eu fiz 76
viagens nesse mundo pra fazer palestra [...] As pessoas que me contratavam
tinham a obrigação de me pegar em São Paulo, me levar onde era essa palestra e
me trazer de volta pra São Paulo. Eu nunca fui saber quem pagava. Porque nos
contratos a empresa que me contratava era obrigada a garantir o meu direito de
ir e vir. Portanto, eu não sei se quem pagou foi a DAG, o Itaú, Bradesco,
Bamerindus. Agora, se tiver, deve estar no contrato", disse Lula.
Imparcialidade
No final do
depoimento, Lula questionou a imparcialidade de Moro e foi repreendido pelo
juiz, que então encerrou o depoimento. O ex-presidente perguntou: "Eu
posso olhar na cara dos meus filhos e dizer que eu vim a Curitiba prestar
depoimento a um juiz imparcial?"
"Primeiro,
não cabe ao senhor fazer esse tipo de pergunta pra mim, mas, de todo modo,
sim." Lula então diz, em referência à condenação em primeira instância
pelo triplex do Guarujá: "Porque não foi o procedimento na outra ação,
doutor".
Moro rebateu e
encerrou o depoimento: "A minha convicção foi de que o senhor foi culpado.
O senhor apresente as suas razões no tribunal".
Ministério
Público
O ex-presidente
acusou o Ministério Público de promover uma caça às bruxas com ele. "O
objetivo é encontrar alguém para me criminalizar. Só quero dizer que há uma
caça às bruxas. Eu fiquei muito preocupado com a delação do Palocci. Porque ele
poderia ter falado 'eu fiz isso de errado, eu fiz isso'. Ele: 'não é que sou
santo, e pau no Lula', que é uma jeito de você conquistar veracidade na sua
frase. Eu fiquei com pena disso."
O ex-presidente
disse que vai provar ser inocente e espera um dia receber desculpa do MPF.
"Eu poderia ficar zangado, nervoso, mas eu quero enfrentar o Ministério
Público, sobretudo a força-tarefa, para provar minha inocência. Eu só espero
que eles tenham grandeza de um dia pedir desculpa".
Interrogatório
O
interrogatório do ex-presidente na Operação Lava Jato terminou
por volta das 16h20, depois de 2 horas e 10 minutos de depoimento, na sede da
Justiça Federal, em Curitiba. Outro réu, o ex-assessor do ex-ministro Antonio
Palocci, Branislav Kontic, também foi interrogado.
Logo no início,
Lula afirmou que queria falar. Na condição de réu, ele poderia optar por ficar
em silêncio. "Apesar de entender que o processo é ilegítimo e injusto, eu
pretendo falar. Talvez eu seja a pessoa que mais queira a verdade neste
processo", afirmou o ex-presidente.
Em uma das
ocasiões em que deu a palavra para Lula, Moro afirmou que não era hora de
"discurso de campanha". "O senhor gostaria de dizer alguma coisa
ao final, Sr. ex-presidente? Só assim, senhor presidente [levanta a voz]: não é
momento de campanha, não é momento de discurso, é para falar do objeto da
acusação, se for o caso. Certo?"
Manifestação
Após o
depoimento, Lula participou de um evento em seu apoio no Centro de Curitiba. O
ex-presidente disse aos manifestantes que irá à cidade prestar quantos
depoimentos forem necessários. "Eu não sou melhor do que ninguém, eu não
estou acima da lei, eu quero respeitar a Justiça, a Constituição", disse
Lula.
Ele também
reforçou que não está mentindo. "Eu conheço o peso da mentira. E a
desgraça de quem conta uma mentira é porque é obrigado a passar o resto da vida
mentindo para justificar a primeira mentira", disse Lula. "Eu tenho
comigo a verdade, e eu jamais mentiria para vocês. Eu jamais enganaria o povo.
Eu prefiro a morte a passar como mentiroso para o povo brasileiro."
Acusação
Esta é a
segunda vez que Lula presta depoimento como réu em um processo da Lava Jato
conduzido por Moro. A acusação é sobre um suposto pagamento de propina por
parte da construtora Odebrecht.
Segundo a
denúncia, a empresa comprou um terreno para a construção de uma nova sede para
o Instituto Lula e também um apartamento vizinho ao que o ex-presidente mora,
em São Bernardo do Campo (SP). O imóvel é alugado desde 2002 e abriga,
principalmente, os seguranças que fazem a escolta de Lula.
Quando Lula foi
ouvido por Moro pela primeira vez como réu, ele era acusado de receber R$ 3,7
milhões em propina, de forma dissimulada, da empreiteira OAS. Em troca, ela
seria beneficiada em contratos com a Petrobras. O ex-presidente acabou condenado
naquela ação penal a nove anos e meio de prisão.
Entenda a
denúncia
Segundo o MPF,
os dois imóveis fazem parte de um total de R$ 75 milhões em propinas que foram
pagas pela Odebrecht a funcionários da Petrobras e políticos, após a
empreiteira firmar oito contratos com a estatal. De acordo com a denúncia, a
parte de Lula foi repassada com a intermediação do ex-ministro Antonio Palocci
e do assessor dele, Branislav Kontic.
O imóvel que
seria para o Instituto Lula fica em São Paulo, na Rua Haberbeck Brandão. O MPF
afirma que o terreno foi comprado pela Odebrecht, usando o nome de outra
empreiteira, a DAG. Apesar das negociações terem sido feitas e a DAG ter
adquirido o imóvel, nada foi construído no local.
Já a compra do
apartamento, de acordo com a denúncia, foi realizada com o auxílio de um
parente do pecuarista José Carlos Bumlai. Conforme o MPF, Glaucos da
Costamarques serviu de "laranja" para adquirir o imóvel para Lula, já
que o apartamento era alugado desde que ele chegou à Presidência.
Ao todo, oito
pessoas foram denunciadas: Lula, Palocci, Kontic, Paulo Melo, Demerval Galvão,
Glaucos da Costamarques, Roberto Teixeira e Marcelo Odebrecht. A
ex-primeira-dama Marisa Letícia também constava na denúncia, mas teve o nome
retirado após a morte dela.
Desde que foi
denunciado, Lula tem negado o recebimento de propinas e o favorecimento da
Odebrecht. A defesa diz que o MPF não tem provas que sustentem a denúncia.
Após os
depoimentos de Lula e de Kontic, o advogado Roberto Teixeira também deve ser
ouvido no dia 20 deste mês. Depois do depoimento dele, o processo chega à fase
final. O MPF e as defesas poderão pedir as últimas diligências. Caso isso não
ocorra, o juiz determinará os prazos para que as partes apresentem as alegações
finais.
Em seguida, os
autos voltam para Moro, que vai definir a sentença, podendo condenar ou
absolver os réus. Não há prazo para que a sentença seja publicada.
Por G1 PR, Curitiba

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