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Presidente
eleito dos EUA, Donald Trump, discursa para
apoiadores
em NY (Foto: Mike Segar/Reuters)
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Professor e autor americano Frank
Buckley diz que empresário se preocupa mais com bem-estar do americano comum do
que com ideologias políticas.
O professor Frank Buckley faz
parte de um pequeno grupo de 125 acadêmicos e escritores americanos que,
durante as eleições deste ano, decidiram apoiar Donald Trump.
Enquanto a imprensa e os círculos
universitários menosprezavam as chances do republicano de vencer a disputa e
ironizavam suas declarações, Buckley já o encarava como a melhor opção para a
Presidência.
Docente de Direito na
Universidade George Mason, no Estado da Virgínia, ele diz que o empresário é
mais um humanista do que um conservador, preocupando-se mais com a qualidade de
vida dos americanos do que com ideologias políticas.
"Seu republicanismo está
preocupado em tentar tornar as coisas melhores para todas as pessoas do que
apenas atender a princípios estéreis", afirmou.
Buckley é crítico ao establishment
dos partidos Democrata e Republicano. Para ele, ambos são elitistas e
esqueceram da maioria pobre do país, a mesma que engrossou a votação de Trump.
Autor de vários livros, inclusive
um deles - The Way Back: Restoring the Promise of America ("O caminho de
volta: Restaurando a Promessa da América" em tradução livre) citado em
discurso de Donald Trump Jr. em julho, o professor vê no novo presidente a
chance de ter uma América voltada para os americanos.
Leia abaixo os principais trechos
da entrevista à BBC Brasil.
BBC Brasil - O senhor estava entre os acadêmicos que declararam apoio a Trump durante a campanha. Por que o senhor defendeu o republicano?
BBC Brasil - O senhor estava entre os acadêmicos que declararam apoio a Trump durante a campanha. Por que o senhor defendeu o republicano?
Frank Buckley - Por que achei que os Estados Unidos estavam em
declínio sob a Presidência democrata e, com Hillary Clinton, isso iria
simplesmente continuar. Nos tornamos uma sociedade de classes. A ideia da
América é que esse é um país onde quem quer que você seja, você pode chegar à
frente, mas esse sonho foi traído pela ascensão de uma sociedade classista.
As barreiras impostas à mobilidade
não são estruturais, são legais. São barreiras que foram levantadas por
sucessivos líderes democratas, um sistema de imigração maluco, um sistema de
educação disfuncional, o declínio do Estado de direito, o crescimento da
corrupção.
Essas não são coisas que
necessariamente temos que aceitar. E os eleitores comuns dos Estados Unidos
entenderam que as elites do país, tanto republicanas quanto democratas, se
tornaram complacentes e confortáveis com o declínio e a corrupção. Elas não se
tornaram suas vítimas, mas seus cúmplices.
BBC Brasil - Nesse cenário, a
vitória dele foi uma surpresa para o senhor?
Frank Buckley - Foi. Todas as pesquisas nos diziam que a vitória de Clinton estava assegurada. Há alguns dias eu estava na CNN com convidados democratas e eles estavam entusiasmados. Eu disse que havia muitos apoiadores escondidos de Trump e, no fim, eu estava certo.
Frank Buckley - Foi. Todas as pesquisas nos diziam que a vitória de Clinton estava assegurada. Há alguns dias eu estava na CNN com convidados democratas e eles estavam entusiasmados. Eu disse que havia muitos apoiadores escondidos de Trump e, no fim, eu estava certo.
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Professor
Frank Buckley faz parte do grupo de acadêmicos
que apoiou Trump (Foto: Arquivo pessoal/ BBC)
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BBC Brasil - As pessoas estavam
envergonhadas de dizer que votariam em Trump?
Frank Buckley - Envergonhadas é uma palavra muito forte. Elas estavam sujeitas a muita repressão. Toda a mídia disse que Trump era racista, sexista e, por isso, as pessoas estavam um pouco tímidas quando chegava o momento de anunciar em quem votariam.
Frank Buckley - Envergonhadas é uma palavra muito forte. Elas estavam sujeitas a muita repressão. Toda a mídia disse que Trump era racista, sexista e, por isso, as pessoas estavam um pouco tímidas quando chegava o momento de anunciar em quem votariam.
Toda a mídia disse que Trump era
racista, sexista e, por isso, as pessoas estavam um pouco tímidas quando
chegava o momento de anunciar em quem votariam.
Os simpatizantes de Trump usavam
esse boné de beisebol vermelho que dizia "Make America Great Again".
Alguém teria que ser bobo para andar pelas ruas principais da América com esse
boné. Todo mundo estava nos dizendo, o establishment estava nos dizendo, que os
simpatizantes de Trump eram pessoas muito más, estúpidas, e surgiram vídeos de
pessoas apanhando. Digamos que seria imprudente para as pessoas anunciar seu
apoio.
BBC Brasil - O senhor acha que
o discurso de Hillary Clinton descrevendo metade dos simpatizantes de
Trump como racistas ou sexistas (Hillary disse, alguns dias depois, ter se
arrependido do comentário, proferido em um evento de arrecadação de fundos)
contribuiu para muitos americanos a verem como elitista?
Frank Buckley - Com certeza. Para
entender os Estados Unidos, comece com o fato de que essa é uma forte sociedade
de classes. O presidente Barack Obama falou dos republicanos como pessoas que
reivindicavam suas armas e sua religião. Hillary Clinton os descreveu como uma
"cesta de deploráveis" e depois disse que eles eram irremediáveis.
Irremediável significa que não havia nem por que falar com eles.
Não é uma boa tática descrever
metade dos americanos como irremediáveis e deploráveis.
O ponto interessante aqui é que
não foi apenas a elite democrata. A elite republicana agiu do mesmo jeito.
BBC Brasil - Em defesa de
Trump, o senhor escreveu que ele poderia resgatar o que ainda continua vivo no
conservadorismo. O que o senhor quis dizer com isso?
Frank Buckley - Bom, isso irá
surpreendê-la, mas acredito que Trump não é (um conservador), mas um humanista.
O establishment republicano é composto de uma ideologia de direita que
considera a política como um tipo de geometria, que começa com alguns axiomas
de direita, e depois passa para teoremas de direita. E, fazendo tudo isso, você
mostra perfeita fidelidade aos princípios de direita.
Mas isso está acoplado a uma
indiferença em relação às pessoas. A mensagem de Trump foi "não estou tão
preocupado com a ideologia, estou mais preocupado em como as pessoas comuns
estão se sentindo". Os eleitores amam isso.
Economicamente, Trump era muito
mais como (o ex-presidente) Dwight Eisenhower, um republicano de 60 anos atrás.
Um moderado, no que diz respeito à política econômica. Alguém à esquerda do
partido em muitas questões.
A mensagem de Trump foi 'não estou
tão preocupado com a ideologia, estou mais preocupado em como as pessoas comuns
estão se sentindo'. Os eleitores amam isso.
A mídia de direita condenou Trump
por isso. Alguém o entrevistou em março e perguntou "o que diz quando
alguém fala que você não é, na verdade, um conservador". A resposta de
Trump foi "o nome é Partido Republicano, não Partido Conservador".
Então, seu republicanismo estaria preocupado em tentar tornar as coisas
melhores para todas as pessoas do que apenas atender a princípios estéreis.
As ideologias não captam o cenário
mais amplo, que é: pela primeira vez na história americana, os pais não acham
que seus filhos vão progredir e nos tornamos um país muito corrupto. Um país
que traiu as aspirações de americanos comuns. É um bom lugar se você está no
topo dos 10%, mas o resto dos americanos sentem que foram deixados para trás.
BBC Brasil - Mas as políticas
de Trump não dividiriam ainda mais o país, ao segregar os imigrantes, por
exemplo?
Frank Buckley - Nós estamos
trazendo jardineiros mexicanos para os muito ricos, mas para os americanos que
perdem seus empregos para os imigrantes, dizemos que se virem. O nacionalismo
de Trump é um sentimento que fala "e se os americanos contassem?",
"e se tivéssemos políticas que dissessem que preferimos americanos aos não
americanos?".
Você escuta "não importa a
sua origem, a sua raça, você é um americano e nós cuidaremos de você".
Quanto aos imigrantes que quisermos trazer para cá, podemos separá-los entre os
que vão contribuir para a riqueza do país e pessoas que não o farão.
BBC Brasil - Durante sua
trajetória, Trump disse coisas chocantes sobre as mulheres e sobre os
imigrantes, a maioria delas desrespeitosa. Esses incidentes não influenciaram
os eleitores?
Frank Buckley - O que eles revelaram
foi uma pessoa que chegou à maturidade antes da idade do politicamente correto
e que nunca se associou com pessoas que suavizam esses comportamentos.
Seus partidários disseram que
"ele falou algumas coisas ruins e Hillary deixou pessoas para morrer em Benghazi
(na embaixada americana na Líbia). Você tem uma bússola moral?"
BBC Brasil - A cobertura
midiática foi muito crítica a respeito da campanha e da vitória de Trump. O que
achou do posicionamento da imprensa? Ela influenciou de alguma forma o resultado?
Frank Buckley - Trump teve muita
cobertura como uma estrela de reality show. Em programas de reality show, a
pessoa mais chocante vence. Trump estava andando por aí dizendo coisas que
eram...surpreendentes, para dizer o mínimo.
E isso se tornou um ponto
positivo, não negativo. Coisas que normalmente são encaradas como "nossa,
isso é terrível, é o fim da campanha para Trump", eram vistas pelos
americanos normais como aquilo que você vê na televisão, como política real.
Ele não teve que gastar muito
dinheiro em propagandas na TV, porque conseguiu tempo televisivo de graça ao
ser Donald Trump.
BBC Brasil - Trump colocará as
suas propostas, inclusive as mais criticadas, como o muro na fronteira com
México, em prática? Ou foi retórica?
Frank Buckley - O único muro que
conheço é a cerca ao redor da minha casa. Não sei se é viável construir um
muro, conheço pessoas que moram no Texas e dizem que é possível. Eu não sei. Em
termos de fortalecimento de fronteiras, acho que a maioria dos americanos acham
que é uma boa coisa. Não acho que os muçulmanos nos Estados Unidos têm muito
com o que se preocupar. Só os muçulmanos que querem imigrar para cá podem
encontrar mais dificuldade.
BBC Brasil - Muitas pessoas
temem que a política externa de Trump seja agressiva e gere mais conflitos
externos. O que o senhor acha desse temor?
Frank Buckley - A política externa
de Trump será consideravelmente menos agressiva do que a de George W. Bush.
Será mais ou menos um retorno à tradicional política republicana: vamos cuidar
dos Estados Unidos primeiro e não vamos para outros países procurando por
monstros para destruir.
A ideia é que, quando formos
atacados, nós iremos atacar de volta, mas fora disso não deve ser o nosso papel
interferir nas relações de outro país.
BBC Brasil - Análises
publicadas na imprensa americana sugerem que a imprensa e os eleitores viram
coisas diferentes em Trump. Enquanto a imprensa não o levava a sério e encarava
suas propostas literalmente, seus apoiadores faziam o contrário. O senhor
concorda com essa comparação?
Frank Buckley - Havia muito foco
em questões como o muro (proposto na fronteira com o México), porque,
francamente, a imprensa tem uma agenda aqui. Eles pensaram que construir um
muro era uma ideia tão estúpida que se passassem tempo suficiente falando sobre
isso conseguiriam convencer as pessoas da idiotice de Trump.
Há um termo aqui chamado
virtue-signaling. Virtue-signaling significa dizer "quero provar como sou
uma pessoa profundamente moral, então vou falar sobre o quanto odeio Donald
Trump". Tem a ver com narcisismo.
Se Trump voltasse em seis meses e
dissesse 'olha, não podemos fazer exatamente do jeito que eu disse (erguer o
muro), mas faremos funcionar de um jeito ou de outro", as pessoas achariam
que tudo bem.
Há outro tipo de sinalização, de
uma certa dureza, de um vigor, de uma habilidade de confrontar ideias. As
pessoas olhavam para a performance de Trump no debate e diziam "esse cara
é durão e é disso que precisamos". Os líderes de opinião pensaram
"esse negócio do muro...as pessoas vão perceber que ele é louco", mas
o que os americanos escutavam é "esse é um cara durão".
Ele fez discursos e seus
apoiadores gritavam "construa o muro, construa o muro". Eles
entenderam. Se Trump voltasse em seis meses e dissesse "olha, não podemos
fazer exatamente do jeito que eu disse, mas faremos funcionar de um jeito ou de
outro", as pessoas achariam que tudo bem.
O realmente importante é: ele
levará esse nível de coragem para derrubar a rede de influência e corrupção que
destruiu Washington, com seus lobbies, advogados e seus doadores de campanha?
Da BBC


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