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O tempo histórico é demorado e o pessoal de
Miami
prefere não esperar: morte comemorada.
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Não é preciso esperar o julgamento
da história para saber como o cubano insuflou a União Soviética a iniciar uma
guerra nuclear
Um jornalista americano, a filha
de Che Guevara e Fidel Castro reuniram-se um dia no aquário de Havana para ver
golfinhos dançar. Isso aconteceu de verdade, há seis anos, e foi contado por
Jeffrey Goldberg em todos os seus surreais detalhes.
Fidel já estava aposentado, por
assim dizer. Havia lido um artigo de Goldberg, agora na direção da revista The
Atlantic, sobre a ameaça do programa nuclear iraniano que o levou a convocar o
jornalista americano para um encontro em Havana.
Quem diria não? Goldberg foi e
voltou com duas declarações sensacionais. A primeira, sobre a há muito
sepultada exportação da revolução cubana: “O modelo cubano não funciona nem
mais para nós”. Nenhuma novidade, mas dito pela boca do barbudo ganhou outra
dimensão.
Mesmo usada para o mal, a
inteligência excepcional foi um dos traços marcantes de Fidel. Sem contar que
ele não precisava mais convencer os cubanos de que viviam no mais sensacional
dos mundos.
A segunda declaração teve dimensão
histórica maior. Goldberg perguntou a Fidel como avaliava sua atitude durante a
Crise dos Mísseis Cubanos, os terríveis treze dias de outubro de 1962 em que o
mundo esteve mais próximo da destruição de boa parte da humanidade num
holocausto nuclear.
“Não teria valido a pena”,
respondeu Fidel. Foi o mais próximo que chegou de uma autocrítica ao modo como
tentou insuflar a União Soviética a tomar a iniciativa e lançar um ataque
nuclear contra os Estados Unidos. A inevitável retaliação incineraria o mundo e
levaria junto a civilização, com centenas de milhões de mortos.
Para relembrar a crise: a União
Soviética havia instalado, secretamente, mísseis nucleares em Cuba que,
descobertos, levaram o presidente John Kennedy a declarar um bloqueio naval em
torno da ilha. Durante os dias de perigo como jamais havia existido, as duas
superpotências fizeram uma guerra de nervos sem precedentes. No fim, o regime
soviético concordou em tirar os mísseis, em troca de um recuo equivalente dos
americanos em suas bases na Turquia.
Se os soviéticos não tivessem
cedido, Kennedy mandaria lançar um ataque convencional contra as bases nucleares
em Cuba – já estava até com o anúncio da ação militar escrito. Os americanos
não sabiam que cerca de cem mísseis nucleares soviéticos já estavam em
condições operacionais.
Fidel Castro sabia do risco do
ataque americano e estava disposto a destruir o mundo para impedi-lo. Numa
carta escrita a Nikita Krushchev em 26 de outubro de 1962, ele argumentou:
“Acredito que a agressividade dos imperialistas os torna muito perigosos e se
conseguirem desfechar uma invasão de Cuba – um ato brutal de violação do direito
universal e moral –, então seria o momento de eliminar este perigo para sempre,
num ato de legítima defesa. Por mais dura e terrível que fosse essa solução,
não haveria outra”.
Em outras palavras, falando em
nome do direito universal e moral, Fidel defendeu um ataque nuclear que,
inevitavelmente, acabaria levando sua própria ilha a ser varrida do mapa.
Felizmente, não mandava nada. Krushchev, que havia sobrevivido como um dos
carrascos de Stálin, mandou tirar os mísseis.
Três meses depois, escreveu uma
longa carta a Fidel para apaziguar os ânimos, não só do cubano como “até de
líderes de certos países socialistas que começaram a ficar agitados e a
pontificar sobre a maneira como deveríamos ter agido durante a crise”. Apesar
do tom amistoso e conciliador, o recado não poderia ter sido mais claro.
Quando foi preso e julgado pela
invasão do quartel de Moncada, Fidel demonstrou a notável habilidade para
construir o próprio mito ao dizer: “A história me absolverá”.
Depois de sua morte, o presidente
Barack Obama recorreu à mesma linguagem como forma de evitar críticas ao homem
que quis imolar os Estados Unidos com mísseis alheios, dizendo que “a história
julgará” o seu papel. Em Miami, o pessoal da comunidade cubana preferiu não
esperar o tempo histórico e saiu comemorando pelas ruas. Tudo registrado pelo
celular, claro.
Um adendo para explicar os
golfinhos e a filha de Che. Depois de almoçar na casa de Fidel num domingo, com
Delia, a mulher dele, e o filho Antonio, Jeffrey Goldberg foi convidado a ir ao
aquário de Havana para ver um espetáculo subaquático com golfinhos em que três
mergulhadores interagiam com eles numa espécie de dança.
Depois da apresentação, a
veterinária do aquário, chamada Celia Guevara, filha do próprio, deu
explicações a Goldberg. O jornalista escreveu que, mesmo sendo pai de três
filhos, com muita experiência em show de golfinhos, nunca viu alguém gostar
tanto de um espetáculo assim como Fidel Castro. O comandante genial dos
cetáceos não parecia nada preocupado com a absolvição da história.
Por Vilma Gryzinski

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