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Os irmãos
Juan e José (Foto: Leticia Macedo/G1)
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Renda melhor, direito de
escolher o presidente, liberdade de expressão são algumas das expectativas de
moças e rapazes que não participam das homenagens ao líder da Revolução Cubana.
Enquanto multidões em Havana se
preparavam para um ato em homenagem a Fidel Castro na noite desta terça-feira
(29), jovens ouvidos pelo G1 na capital cubana disseram não
ter motivos para comparecer à cerimônia na Praça da Revolução. Para eles, a
morte do líder da Revolução Cubana não deve ter impacto no cotidiano ou mesmo
trazer mudanças que desejam na ilha.
Direito ao voto direto e
liberdade de expressão
É o caso de Mai*, de 21 anos, que está passando alguns dias na casa de um primo em Santiago de Vegas, um vilarejo a cerca de 40 minutos do centro da capital cubana. “Não participei das homenagens. A política não me interessa. Políticos falam muito e não fazem nem a metade do que prometem. Não tenho raiva de Fidel. Ele foi sem dúvida um homem inteligente e gigante porque conseguiu manter o país sob o seu modelo, mas muita coisa precisa mudar”, afirmou.
É o caso de Mai*, de 21 anos, que está passando alguns dias na casa de um primo em Santiago de Vegas, um vilarejo a cerca de 40 minutos do centro da capital cubana. “Não participei das homenagens. A política não me interessa. Políticos falam muito e não fazem nem a metade do que prometem. Não tenho raiva de Fidel. Ele foi sem dúvida um homem inteligente e gigante porque conseguiu manter o país sob o seu modelo, mas muita coisa precisa mudar”, afirmou.
A menina deixou a escola antes de
concluir o equivalente ao ensino médio no Brasil. Em princípio, queria estudar
medicina, mas desistiu. “Tenho mais três irmãos mais novos e meus pais não
podem mais me ajudar, por isso, estou aqui procurando trabalho. Não sei se vou
ter ânimo para continuar estudando medicina. São muitos anos de estudo e se
ganha muito pouco depois de formada.”
A chegada de uma vizinha
interrompe a conversa, que era acompanhada pelo casal de primos que a
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Mai: 'A
política não me interessa' (Foto: Leticia Macedo/G1)
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“Na escola, eles nos ensinam a
fazer a Revolução, mas isso não nos motiva. Eu queria votar para presidente e
ter mais liberdade de expressão”, sintetiza. Questionada se imagina que isso
vai acontecer em alguns anos, ela para de sorrir e diz: “Não. Por isso, eu
quero sair daqui. Outros países têm problemas, mas pelo menos as pessoas podem
dizer o que querem”.
Esse também é o sonho de José, de
21 anos, que tem um irmão que fez a travessia para os Estados Unidos em uma
lancha construída por amigos há cerca de seis meses. Atualmente está em Miami e
tenta se estabelecer nos Estados Unidos. “Disse que ia comprar umas bebidas para
comemorar a morte de Fidel”, disse rindo. Um sonho? “Deixar Cuba, mas não de
lancha como meu irmão, quero ir de avião. Não quero muita emoção”, afirmou
rindo.
Mais espaço para o
empreendedorismo
Juan, irmão de José, é marinheiro e se formou na universidade. Ele já tentou deixar Cuba, mas não teve a mesma sorte do irmão. Tentou deixar a ilha de lancha, construída a partir de um motor de carro, “porque não temos dinheiro para alugar uma lancha de verdade”. Em uma das paradas necessárias durante a travessia, ele acabou sendo preso com outros latino-americanos no México. Autoditada, que aprendeu a falar francês sozinho, disse que os amigos costumavam dizer que em outros países ele poderia ter êxito. “Mas aqui não tenho esperança”, afirmou.
Juan, irmão de José, é marinheiro e se formou na universidade. Ele já tentou deixar Cuba, mas não teve a mesma sorte do irmão. Tentou deixar a ilha de lancha, construída a partir de um motor de carro, “porque não temos dinheiro para alugar uma lancha de verdade”. Em uma das paradas necessárias durante a travessia, ele acabou sendo preso com outros latino-americanos no México. Autoditada, que aprendeu a falar francês sozinho, disse que os amigos costumavam dizer que em outros países ele poderia ter êxito. “Mas aqui não tenho esperança”, afirmou.
“A média do salário em Cuba é de
US$ 20. Com isso ou você come ou se veste. Aqui todo mundo inventa coisas novas
como dar assistência para o turista, como indicar um local para ele se hospedar
ou comprar algo. Porém, se me pegam em uma loja com um turista eu posso ser
preso porque pensam que eu o estou importunando. Não pensam que o turista busca
ajuda”, declarou.
“Todas nossas atividades são muito
controladas. Não dão espaço para nenhuma iniciativa, por isso, é muito fácil
ser preso. Muitos jovens são detidos”, afirmou o rapaz que já passou 3 anos e
sete meses na cadeia por vender remédios sem licença. “Eu recebi uma graça e
saí no indulto dado na vinda do Papa Francisco”, afirmou.
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Maria ajuda
no orçamento familiar trabalhando como
faxineira (Foto: Leticia Macedo/G1)
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Uma mudança necessária e urgente
seria o voto direto para presidente. “Votamos em um delegado, que vota em um
chefe de circunscrição e, finalmente, quem votam são só os mesmos. É um sistema
muito injusto”, avalia. Ele também acredita que precisa uma mudança na política
econômica embora sinta que algumas mudanças implementadas por Raul Castro,
irmão de Fidel que assumiu há oito anos como presidente, tem ajudado um pouco.
“Hoje pelo menos você pode vender a sua casa, pegar o dinheiro e partir para
outro país”, afirma.
Para Juan, a morte de Fidel não
causou nenhuma comoção entre os mais jovens. “Os jovens que vão a essas
homenagens normalmente são aqueles que têm um trabalho público, sofrem pressão
dos patrões. Não posso dizer que os jovens estão felizes. Os campesinos do
leste do país são os que mais sentem, porque foram os povos mais ajudados por
Fidel, mas a maioria não se interessou”.
Ser melhor remunerada
Maria, de 28 anos, não fala em
deixar a ilha. Ela não pode fazer o curso de cabeleira que adora. Hoje ajuda no
orçamento familiar com a atividade de faxineira. “Tenho que trabalhar o dia
inteiro para ganhar US$ 5. Eu trabalho na casa dos pilotos de avião. Minhas
patroas me dão muitos presentes, mas não me dão comida. Tenho que levar um
lanche a cada vez”, conta ao mostrar as mãos com ferimentos “de tanto esfregar
o chão, os tapetes”. Se tivesse que mudar algo em Cuba? “Queremos comer, nos
divertir e viver. Para isso, teriam que pagar melhor pelo nosso trabalho. O
cubano é batalhador, mas não tem retorno”, afirmou enquanto brincava com as
pulseiras que ganhou de uma das patroas.
*Todos os nomes desta reportagem
foram modificados a pedido dos entrevistados.
Por Leticia Macedo, G1, Havana



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