A maior crise da história da
Receita vai atingir a Operação Lava Jato, segundo alerta do auditor Roberto
Leonel de Oliveira Lima, chefe do escritório de Inteligência do Fisco que atua
decisivamente na maior investigação já realizada no País contra a corrupção.
Em carta de 107 linhas ao
procurador da República Deltan Dallagnoll, um dos coordenadores da força-tarefa
do Ministério Público Federal na Lava Jato, Roberto Leonel fala do impacto
causado em sua Instituição pelo substitutivo do projeto de lei 5864/2016 que,
na avaliação dos auditores, põe sob ameaça prerrogativas da classe e levará ao
'desmonte' da Receita.Há 31 anos na carreira, Roberto Leonel comanda o
Escritório de Pesquisa e Investigação (Espei) da 9.ª Região Fiscal, sediada em
Curitiba, base da Lava Jato. Cabe à essa área de Inteligência da Receita todo o
levantamento técnico/contábil da operação.
O auditor prevê que a
instabilidade na Receita vai afetar a investigação que desvendou sólido esquema
de propinas na Petrobrás e em outras áreas do governo. "Poderá trazer, em
caráter específico à Lava Jato, reflexos concretos de descontinuidade do nosso
trabalho de investigação e, até, de impedimento de atendimento tempestivo das
demandas da Justiça Federal que vimos realizando já há três anos, a menos que
haja uma imediata solução ao problema criado.
"Na carta a Dellagnoll ele
clama pelo 'apoio dessa Força-Tarefa para que a Receita Federal do Brasil
continue a ser órgão de Estado, com eficiência gerencial e sem eventuais
ingerências políticas'.O auditor pede, ainda, incentivo da entidade de classe
de Dellagnoll, a Associação Nacional dos Procuradores da República, na luta a
ser travada na Câmara para resgatar o texto original do 5864/2016.
Dois capítulos da crise instalada
na Receita - por Roberto Leonel definidos como 'reação em cadeia, jamais vista'
- revelam o grau de indignação dos auditores.Na quarta-feira, 9, um bloco de 57
fiscais ameaçou renunciar a cargos estratégicos que ocupam na 8.ª Região (São
Paulo), a que mais arrecada tributos em todo o País, cerca de R$ 500 bilhões
por ano.Na sexta, 11, a mobilização ganhou adesão de quatrocentos auditores em
postos de comando da Receita.
Roberto Leonel aponta para
'possível desmonte parcial da dedicada Equipe Especial de Fiscalização, por
excelência responsável pelas ações fiscais ostensivas decorrentes da Operação
Lava Jato'."Sinto-me na obrigação de noticiar situação grave e preocupante
que estamos enfrentando na Receita, de larga desmotivação e insatisfação
generalizada dos auditores fiscais", diz.
O que tanto inquieta Roberto
Leonel e seus pares é o substitutivo do Projeto de Lei 5864/2016, que dispõe
sobre a carreira tributária.Na Comissão Especial da Câmara, o texto original -
de autoria da Casa Civil do Governo com sinal verde da Receita -, foi
desfigurado por uma sucessão de emendas.
Atormenta particularmente os
auditores o partilhamento de prerrogativas com outras categorias.Na carta ao
procurador, o chefe de Inteligência da Receita na Lava Jato diz que é
fundamental 'a aprovação ou resgate dos principais termos não remuneratórios
constantes do projeto original, infelizmente modificados ou suprimidos pelo
substitutivo aprovado'.
A recuperação do 5864/2016 nos
moldes da sua origem, segundo Roberto Leonel, é decisiva para 'restabelecer
rapidamente a normalidade do desenvolvimento dos trabalhos tanto neste
Escritório como em toda a Receita, seja nas investigações da Operação Lava
Jato, como em inúmeras outras investigações em andamento pelo País, muitas
relacionadas ao combate à corrupção e ao desvio de recursos públicos'.Segundo
ele, o projeto foi 'costurado com bastante dificuldade, numa longa negociação
com o Governo federal e os integrantes da até então denominada Carreira
Auditoria da Receita'.
Roberto Leonel destaca que o
projeto 'tinha em seu escopo o fortalecimento e aprimoramento da Receita,
conjuntamente tendo uma pauta não remuneratória e outra remuneratória'."Ocorre
que, tal projeto de lei, gerado a partir de um acordo formalizado com o Governo
Federal, apresentado pela Casa Civil em agosto de 2016, e que tinha e tem
manifestações reiteradas do sr. secretário da Receita, dr. Jorge Rachid, no
sentido de que o texto original é o que atendia melhor aos interesses
institucionais, sofreu alterações na Câmara dos Deputados, após inúmeras
emendas", segue o auditor da Lava Jato.
Ele cita que no dia 9 de novembro
ocorreu aprovação do substitutivo que 'desfigurou bastante o texto original,
defendido pela Receita e pelo Governo, e que pode gerar problemas gerenciais e
administrativos e até ineficiência ou confusão na execução dos processos de
trabalho'."Veja-se que a Receita Federal, atualmente, é composta por
servidores de distintos cargos, indubitavelmente ambos importantes, que
desenvolvem, cada qual, atividades e desempenham atribuições de complexidade e
responsabilidades diferentes."
"Em sentido contrário ao
previsto no projeto de lei original, que é apoiado pela administração da
Receita e foi elaborado conforme acordado com o Governo Federal, vê-se no
substitutivo aprovado uma mitigação do alcance da denominação Autoridade
Tributária e Aduaneira da União, histórica e umbilicalmente ligada ao cargo de
auditor fiscal, o qual sempre desenvolveu atividades de elevada complexidade
técnica e de responsabilidade em toda a estrutura da Receita", assinala
Roberto Leonel.
"Releva acrescentar, que um
dos últimos informes de autoria do sr. secretário da Receita, dr. Jorge Rachid,
para todos os servidores, tratou de comunicar que o texto do novo substitutivo
aprovado na Comissão Especial que analisa o PL 5864/2016 não atende aos
interesses da Receita e não representa a posição do Governo, discutida
amplamente dentro do Poder Executivo, com o Ministério da Fazenda, Ministério
do Planejamento e Casa Civil.
"Segundo o chefe de
Inteligência da Receita na Lava Jato, o secretário Rachid informou 'que a
Secretaria de Governo da Presidência da República foi comunicada acerca dos
impactos e das graves consequências que poderão advir da completa desfiguração
do projeto original encaminhado pelo Poder Executivo'.
"Adicionalmente,
interpretações das alterações sugeridas e inúmeras análises jornalísticas, que
replicaram neste final de semana na imprensa, levam a crer que tal
substitutivo, se aprovado nos exatos termos na parte não remuneratória, pode
abrir margem a uma indesejável ingerência política, catastrófica para uma
instituição respeitável e tão necessária para a sociedade como é a Receita Federal."
0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!