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Erdogan é
acusado de impor uma “islamização forçada” ao país.
Presidente
defendeu a pena de morte contra os golpistas, afirmando
ser a
“opinião do povo" (Reuters /Reprodução/Facebook)
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Erdogan teria "oportunidade
para ele se livrar de focos de descontentamento" com seu governo
A tentativa de golpe na Turquia na
noite de sexta-feira (15) pegou muitos analistas internacionais de surpresa e
provocou o caos nas ruas do país. Após horas de instabilidade — nas quais
setores do exército turco fecharam importantes vias da capital, Ancara, e de
Istambul — o governo do presidente eleito Recep Tayyip Erdogan afirmou ter
retomado o controle da nação.
Depois do incidente, o governo
turco acusou o clérigo Fethullah Gulen — que atualmente está exilado nos
Estados Unidos — de ter planejado o golpe. No entanto, Gulen afirma que o
responsável pelo levante teria sido o próprio presidente Erdogan — uma hipótese
que vem ganhando força nas redes sociais.
”Evidentemente, houve uma
tentativa de golpe”, analisa o coordenador do NEOM (Núcleo de Estudos do
Oriente Médio) da UFF (Universidade Federal Fluminense), Paulo Hilu. No
entanto, segundo o especialista, não é possível afirmar categoricamente se o
levante foi forjado ou não.
Recep Tayyip Erdogan: quem é o
presidente de pulso firme que divide a Turquia
— É uma troca de acusações. O
Erdogan desde o início acusou o Gulen. A questão é que, obviamente, o fracasso
do golpe beneficia o Erdogan, porque dá a oportunidade para ele se livrar de
focos de descontentamento com seu governo, tanto dentro do exército quanto do
judiciário.
Desde a tentativa fracassada de
golpe, 30 governadores e 7.899 policiais foram detidos na Turquia, segundo o
Ministério do Interior do país. Na segunda-feira (18), o presidente Tayyip
Erdogan defendeu a pena de morte contra os golpistas, afirmando que “o povo tem
a opinião de que esses terroristas deveriam ser mortos”. Ele também pediu a
extradição do clérigo Fethullah Gulen dos Estados Unidos e anunciou que vai
“limpar” o exército turco.
Todas essas medidas, somadas à
denúncia de um membro da União Europeia de que os nomes de quase 3.000 juízes e
oficiais militares presos após o golpe fracassado já constavam de uma lista
preparada pelo governo antes do levante, reforçam a teoria de que as
autoridades do país poderiam ter conhecimento prévio da trama.
Também na segunda-feira, os
Estados Unidos alertaram o governo turco para não “ir longe demais” ao levar à
justiça os responsáveis pela tentativa de golpe.
Tradição
Fundado em 1922 por Mustafa Kemal
Ataturk, o estado moderno da Turquia tem como modelo o secularismo (é um estado
laico) e o nacionalismo turco. Ao longo dos anos, os seguidores dessa corrente
passaram a ser denominados kemalistas — cujos maiores defensores se
concentraram no exército turco.
Nas últimas décadas, o exército
foi responsável por quatro golpes de estado na Turquia — em 1960, 1971, 1980 e
1997 —, justificados pela suposta defesa dos valores kemalistas. Essa motivação
teria sido a mesma que levou os setores militares a se levantarem contra
Erdogan e tentar conquistar o poder à força na noite de sexta-feira.
No poder desde 2003 — inicialmente
como primeiro-ministro e, a partir de 2014, como presidente —, Erdogan é membro
do partido AKP, e vem, ao longo dos anos, sendo acusado por seus inimigos
políticos de impor uma “islamização forçada” ao país, o que contraria a
tradição secular do estado moderno da Turquia.
Seu compromisso com a democracia
também é colocado em dúvida, tendo seu governo perseguido e prendido
jornalistas arbitrariamente e impondo a censura aos órgãos de comunicação do
país e até mesmo às redes sociais. Ele também já comparou a democracia com “um
ônibus que você pega até seu destino, e depois desce.
Cientista político e professor de
Relações Internacionais da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos),
Bruno Lima Rocha também desconfia da informação oficial divulgada pelo governo
turco a respeito do golpe militar.
Primeiro-ministro da Turquia anuncia sua renúncia
Ele lembra que Erdogan já foi
acusado de ter forjado atentados contra o próprio povo, e vem usando a retórica
da segurança nacional para perseguir as minorias do país, como os curdos no
sul. Além disso, seu governo foi acusado pela Rússia de favorecer o grupo
extremista Estado Islâmico na Síria — país que faz fronteira com a Turquia.
— A conspiração dos militares para
tomar o poder pode ter existido, mas com requintes de manipulação. Aposto que
se houve autogolpe, poucos oficiais sabiam que se tratava de uma farsa. Eu
entendo que existe tal possibilidade, assim como algo semelhante pode ter
ocorrido com o atentado ao aeroporto de Istambul.
De acordo com Rocha, com a
fracassada tentativa de golpe no país, o presidente Erdogan deverá endurecer
ainda mais seu governo e, ao mesmo tempo, avançar “de forma paulatina” para a
islamização da Turquia.
Por Luis Jourdain / R7

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