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Lula ouve o
discurso de Dilma Rousseff, após a presidenta ser afastada
do Governo
no dia 12 de maio. © UESLEI MARCELINO
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Quando na tarde de 1º de janeiro
de 2003 o torneiro mecânico Luiz
Inácio Lula da Silva se dirigia ao Congresso Nacional para seu
primeiro discurso como presidente, oito de cada dez brasileiros acreditavam que
seu Governo seria ótimo ou bom. O nível de esperança, palavra que havia se
tornado seu lema na campanha, era o mais alto já visto em um início de mandato
presidencial desde a volta da democracia. Depois de circular em um carro aberto
cercado por simpatizantes e de ser agarrado até quase cair do automóvel, Lula
deixava claro em sua fala seu objetivo pelos próximos anos: “Se ao final do meu
mandato todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã,
almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida”, afirmava, diante dos
parlamentares e de milhões de brasileiros que acompanhavam pela TV a chegada do
primeiro operário ao topo do poder federal.
O Brasil de 2003 estava em crise e
queria mudanças. Fernando
Henrique Cardoso, padrinho da estabilidade econômica vinda com o Plano
Real, deixava um país com uma inflação de 12,53% acumulada no ano e um
crescimento econômico que, às vésperas das eleições, mal passava de 1% no ano.
Quase 30% dos brasileiros viviam na pobreza.
Lula chegava ao poder após três
tentativas frustradas de vencer a disputa presidencial. Beneficiou-se não só do
mau momento que a crise econômica trouxe para a oposição, mas de uma guinada na
forma como o partido decidiu tratar a política. Primeiro, propôs ao empresariado,
que temia a esquerda, um pacto que assegurava para o mercado um continuísmo na
área econômica. Mergulhou no pragmatismo político, que antes condenava, para
costurar as alianças que precisava para vencer. E se apoiou no fisiologismo do
PMDB para obter maioria no Congresso e poder governar. Aliou suas habilidades
de negociador adquiridas quando liderava as históricas greves sindicais da
década de 70 com a expertise de políticos petistas como José
Genoino e José Dirceu –nove anos depois, condenados no escândalo
do mensalão, de compra de votos no Parlamento. O PT estava no auge. As
pesquisas mostravam que o partido era o preferido dos brasileiros. O carisma de Lula
em seus discursos inflamados agradavam o povo. Surfando na popularidade, ele
conseguiu governar sem maiores sobressaltos no Congresso e pode começar a
mudança social que prometeu.
Em 2010, último ano de seu
Governo, os mais entusiastas se referiam a seu período na presidência como a
“década da inclusão”. Por causa de políticas de distribuição de renda como o Bolsa Família, em 10 anos o país conseguiu reduzir em 45% o
número de pobres e em 47% o número de extremamente pobres, segundo dados compilados pelo
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No mesmo período,
o Programa Luz para Todos, criado para levar energia elétrica para as áreas
mais remotas do país, quase universalizou o acesso à luz elétrica no Brasil,
tirando do escuro cidades como Queimada Nova, no rincão do Piauí, onde apenas
12,62% das casas tinham energia em 2000 –em 2010, eram 96%. Entre 2002 e 2012,
a taxa real de aumento do salário mínimo ao ano foi de 5,26%, diante da redução
anual de 0,22% ocorrida na década anterior, segundo dados do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
A política anticíclica adotada na
economia ajudou o país a passar sem sobressaltos pela crise econômica
internacional. Estimulou a indústria nacional com a redução de impostos. Com
isso, reduziu as taxas de desemprego e inundou o mercado com produtos.
Facilitou o acesso ao crédito pessoal e impulsionou o consumo de uma nova
classe média que surgia, alçada para fora da pobreza, especialmente no Nordeste
do país. Entre 2001 e 2011, o número de domicílios com geladeira, por exemplo,
havia subido 12% no país –no Maranhão, 52%; o dos que tinham máquina de lavar,
51% -190% em Alagoas; e o dos que tinham TV a cores, 16% - 51% no Piauí.
Diante da boa aceitação a seu
Governo e do impacto positivo gerado pelo boom das
commodities na economia, não foi difícil para Lula, reeleito em 2006,
emplacar sua sucessora, em 2010. Dilma
Rousseff, sua ex-ministra, ganhou do padrinho político o apelido de mãe do
PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), um conjunto de obras de
infraestrutura posta em prática pelo Governo. Em seu primeiro mandato, Rousseff
conseguiu manter e ampliar as conquistas do antecessor. Em 2014, a ONU retirou
o país do mapa da fome. Lula conseguia, assim, cumprir sua promessa inicial. Em
dezembro deste mesmo ano, a taxa de desemprego atingia o menor índice histórico
no mês.
Mas já em 2015, começou o lado B
do projeto petista. A economia começaria a dar sinais de que as políticas
anticíclicas foram mantidas por muito tempo. No final do ano, o dólar batia
recordes e a inflação começava a voltar aos patamares do fim do Governo
Cardoso. O desemprego já começava a voltar para a pauta brasileira, depois de
uma década sem notícias dele.
Gestão petista, em números
Uma comparação dos principais
indicadores e políticas publicas, desde antes do início das gestões petistas
(2002), ao final da gestão Lula (2010) e agora
Inflação (IPCA-IBGE)
2002: 12,53%
2010: 5,91%
2016 (últimos 12
meses): 9,28%
Desemprego (IBGE)
2002: 10,5% (dezembro)
2010: 5,3% (dezembro)
2016: 10,2% (trimestre
encerrado em fevereiro)
Produto Interno Bruto (PIB) em
US$
2002: 508 bilhões
2010: 2.209 trilhões
2016: 1.768 trilhões
% de pobres (linha do
Governo federal)*
2002: 24,3%
2010: 15,20%
2016: (não disponível)
*indivíduos com renda domiciliar
per capta inferior a 140 reais
A difícil campanha que levou à reeleição de Rousseff, em
2014, aconteceu em meio a um cenário já tumultuado. A vida do brasileiro havia
melhorado da porta de casa para dentro, mas a população exigia serviços
públicos à altura dos impostos que pagava, como mostraram os protestos de 2013,
que, já no fim, pediam condições melhores de saúde e educação. A condução
econômica, vista como desastrosa por especialistas, desagradava o mercado, que
rompeu o pacto feito com Lula anos antes. E a base petista nas ruas se
encontrava combalida, depois de anos de paciência com um Governo que, em nome
da governabilidade, não foi além na implementação das políticas progressistas
–para agradar a bancada ruralista na Câmara, deixou de demarcar terras
indígenas e de fazer reforma
agrária; para agradar os aliados evangélicos, não defendeu o aperfeiçoamento da legislação sobre o aborto.
Era o caldeirão perfeito para que o Congresso, que nunca tolerou a falta de
tato político da presidenta, se rebelasse.
Nesta quarta-feira, ao sair do
Palácio do Planalto com a presidenta mais impopular da história democrática do
país, o PT fechou um ciclo de 13 anos, mesmo número de sua legenda, no poder
federal. Sai envolvido em um novo
escândalo de corrupção, ainda em plena investigação, tratado como o maior
de que já se tem história no país. Terá que se reconstruir como partido se
quiser ganhar, novamente, a confiança de parte da esquerda que se sentiu
traída. Sua principal estrela, Lula, terá que conviver com o fantasma da prisãotrazido pela Lava Jato, sem grande parte
do capital político que já teve. E a população terá como legado um país que nos
últimos anos se tornou socialmente mais justo, mas que ainda espera viver em
uma nação melhor e mais ética.

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