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Mulheres
relatam despreparo de profissionais nas Delegacias
de
Atendimento à Mulher. (Foto: Reprodução / Google Street View)
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Vítimas de violência doméstica
dizem ter sido desestimuladas a denunciar. Atendimento por profissionais homens
é reclamação recorrente.
“Você tem certeza de que vai mesmo
denunciar o pai do seu filho? Isso pode prejudicar ele”. É essa frase que A.S.,
de 32 anos, relata ter ouvido do policial que a atendeu, em dezembro de 2015,
quando tentava, com o braço roxo, denunciar um segundo episódio de violência
física envolvendo o ex-companheiro. Para piorar, o episódio aconteceu numa
Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM) do Centro do Rio. No Dia Internacional
da Mulher (8), assim como A.S., outras mulheres que denunciaram agressões fazem
uma segunda denúncia ao G1: são recorrentes os casos de tratamento hostil ou
pouco acolhedor na hora de registrar agressões em delegacias do Rio, inclusive
nas especializadas.
A.S., que prefere não ser
identificada, afirma que se sentiu desestimulada em levar a denúncia adiante.
“Primeiro que quem me atendeu foi um homem, o que já não tem sentido, e ele foi
muito babaca. Já tinha sido muito difícil decidir fazer a denúncia e eu senti
que ele estava me desestimulando, me perguntou três vezes se eu tinha certeza,
chorei muito”, lembra ela, moradora de Jacarepaguá, na Zona Oeste.
Apesar das dificuldades, A.S.
seguiu em frente. Ela é mais uma entre as 56.031 vítimasmulheres de violência
física estado do Rio de Janeiro, de acordo com o Dossiê da Mulher 2015, do
Instituto de Segurança Pública.
Fim do namoro, início da tortura
O final da história da gerente de
RH, Fabíola, de 35 anos foi diferente. O fim de um namoro, em 2012, foi o
início de uma tortura para ela.
“Um dia, quando eu não estava, meu
ex arrombou a minha casa e tentou se matar, escreveu com sangue nas paredes.
Passou a me ligar sem parar, a madrugada inteira. Hackeou minhas contas em
redes sociais, entrou no meu e-mail do trabalho”, conta ela, que, à época,
morava em Ipanema, na Zona Sul da cidade. Depois de insinuações de ameaças do
ex, ela resolveu ir a uma DEAM.
“Para começar, fui a uma delegacia
da mulher e um homem me atendeu, o que já achei bem sem noção. Contei a
história inteira e ele disse que não podia fazer nada, porque não havia nada de
concreto e que eu dei sorte do meu ex não me processar porque ele, afinal,
tinha sido o único que saiu machucado na história! Sendo que foi ele quem feriu
a si mesmo”, indigna-se. Fabíola não registrou o caso. Se tivesse feito, faria
parte das 57.258 mulheres que sofreram violência psicológica de acordo com o
dossiê.
Invasão a domicílio
Outra vítima ouvida pelo G1 também
relata falta de preparo para o acolhimento das vítimas.
“Quando o pai da minha filha
invadiu a minha casa e gritou comigo na frente dela, que tem três anos, depois
de berrar na minha porta, resolvi que ia denunciar”, conta a pesquisadora em
educação M.A., de 39 anos, que procurou uma delegacia em dezembro do ano
passado. “Quando cheguei lá, a mulher que me atendeu falou a seguinte frase: ‘O
que é que você veio fazer aqui?’, de uma maneira muito ríspida, seca, não tinha
nenhum tipo de preocupação com acolhimento, sabe? Fazer a denúncia é difícil e
não há cuidado nenhum com a vítima”, acrescenta.
M.A soma um ao número de 3.051
mulheres que sofreram violência patrimonial, que leva em consideração invasões
de domicílio e danos a bens materiais, de acordo com o documento do ISP.
A deputada Martha Rocha, que foi a
primeira mulher a chefiar a Polícia Civil no Rio de Janeiro, lamenta a
situação.
“Eu, como mulher, como delegada,
como ex-chefe da Polícia Civil fico envergonhada com esses episódios. Para
começar, é preciso ter uma mulher atendendo em todos os plantões, em qualquer
horário, para fazer a acolhida dessas vítimas, que já chegam fragilizadas,
lamento profundamente que não haja esse compromisso nessa gestão. É preciso
formação. O mínimo que se espera é um atendimento cordial e respeitoso à
mulher”, disse em entrevista ao G1.
Para a mulher que não se sentir
contemplada pelo atendimento ao buscar uma delegacia, Martha avisa que há meios
de denunciar.
“Eu sugiro que ela procure a
comissão de segurança, ela pode procurar a comissão dos direitos da mulher na
Alerj, a ouvidoria e a corregedoria da delegacia da mulher. Com certeza há
interesse nesses relatos, ela tem, minimamente, o direito de relatar”, garante.
G1

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