Seis ministros votaram por abrir
ação penal. Julgamento segue nesta quinta. Presidente da Câmara é acusado de
ter recebido propina de US$ 5 milhões.
A maioria dos ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF) aceitou parcialmente nesta quarta-feira (2) a denúncia
da Procuradoria Geral da República contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha
(PMDB-RJ).
Entre as acusações, está o suposto
recebimento pelo deputado – ele nega – de US$ 5 milhões de propina do esquema
de corrupção que atuava na Petrobrase é investigado pela Operação Lava Jato.
Dos 11 ministros do tribunal, 6
votaram nesta quarta a favor da abertura da ação penal contra o deputado. O
julgamento terá prosseguimento nesta quinta (3), com a apresentação dos votos
dos demais ministros. Mantidos os votos emitidos nesta quarta-feira e proclamado
o resultado, Cunha passará à condição de réu na ação penal.
Os seis ministros que votaram
nesta quarta rejeitaram a parte da denúncia em que Cunha era acusado de
envolvimento na celebração do contrato de compra de navios-sonda. Mas
entenderam que há indícios de que, a partir de 2010, o presidente da Câmara
passou a receber propina de contratos da Petrobras.
Na sessão desta quarta, além do
relator do caso, Teori Zavascki, votaram a favor da abertura da ação penal os
ministros Cármen Lúcia, Marco Aurélio Mello, Luís Roberto Barroso, Luiz Fachin
e Rosa Weber. Faltam os votos de Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Celso de Mello e
Ricardo Lewandowski. Luiz Fux está fora do país e não deve participar do
julgamento.
Ao acolher parte da denúncia, o
relator do caso, ministro Teori Zavascki, afirmou haver indícios
"robustos" de que Cunha aderiu à "engrenagem espúria" do
esquema de pagamento de propina que atuava na Petrobras.
"Há indícios robustos para,
nesses termos, receber parcialmente a denúncia pois a narrativa em seu segundo
momento dá conta que Eduardo Cunha, procurado por Fernando Baiano, aderiu para
recebimento para si e concorrendo para recebimento de Fernando, oriunda da
propina destinada a diretores da estatal", afirmou Teori Zavascki durante
seu voto.
Para o ministro, Eduardo Cunha se
incorporou à "engrenagem espúria de Nestor Cerveró".
A acusação da Procuradoria Geral
da República (PGR) aponta que Cunha recebeu, entre 2006 e 2012, "ao
menos" US$ 5 milhões para "facilitar e viabilizar" a contratação
de dois navios-sonda pela Petrobras, construídos pelo estaleiro sul-coreano
Samsung Heavy Industries para operar no Golfo do México e na África.
Defesa de Cunha contesta
A defesa de Cunha contesta as
acusações e sustenta que os depoimentos do principal delator, Júlio Camargo
foram tomados sob pressão da PGR e que ele mentiu.
Além disso, os advogados do
presidente da Câmara argumentam que ele não tinha influência sobre a diretoria
internacional da Petrobras para facilitar a contratação, entre 2006 e 2007,
além de não conhecer, nesta época, outros envolvidos nas negociações.
Voto do relator
Em seu voto, Teori Zavascki
acolheu a denúncia na parte em que a PGR acusa Eduardo Cunha de pressionar, a
partir de 2010, o ex-consultor da Samsung Heavy Industries Júlio Camargo a
retomar pagamentos de propina que haviam sido interrrompidos.
O magistrado, entretanto, rejeitou
a parte da denúncia que acusava o presidente da Câmara de atuar na negociação
para a contratação dos navios-sonda, entre 2006 e 2007.
A parte da acusação aceita por
Teori narra que Eduardo Cunha, por intermédio da ex-deputada Solange Almeida,
atual prefeita de Rio Bonito (RJ), apresentou requerimentos na Comissão de
Fiscalização e Controle da Casa exigindo explicações do Ministério de Minas e
Energia sobre contratos da Petrobras com fornecedores de navios-sonda.
"Não ficou demonstrada a
participação de Eduardo Cunha e Solange Almeida nessa fase inicial. Ou mesmo
que tenham os acusados recebido vantagem indevida para agilizar a
negociação", disse o ministro.
"Com relação a Eduardo Cunha,
a primeira parte da denúncia se baseia exclusivamente em depoimentos de
delatores", acrescentou.
O relator destacou que Júlio
Camargo disse, em sua delação premiada, ter sofrido "forte pressão"
de Cunha, inclusive por meio de requerimentos em comissões. Fernando Baiano
também confirmou essa versão, em depoimento ao Ministério Público.
Em seu voto, Zavascki também
destacou que não levou em conta somente fatos narrados pelos delatores, mas
também indícios colhidos pela investigação que confirmam pagamentos e reuniões
envolvendo Cunha no recebimento da propina.
"Essas colaborações não são
isoladas, elas ganham valor na medida em que são acompanhadas de elementos pelo
menos indiciários muito sugestivos da veracidade", disse.
No início do voto, Teori Zavascki
recomendou, e o plenário rejeitou, diversos pedidos da defesa para derrubar a
denúncia, baseados em supostos erros na investigação. Um deles apontava
discrepâncias entre o áudio das delações e as transcrições incluídas na
denúncia.
O ministro ressaltou que as
delações são apenas um meio para obtenção de provas e não são suficientes para
uma condenação. "Sempre é bom lembrar que a palavra do colaborador por si
só não representa nada em termos de prova. Representa o início de um caminho
para a busca das provas", explicou.
Defesa e acusação
Na tribuna, o advogado de Cunha,
Antônio Fernando de Souza, afirmou que a PGR também omitiu dados das
investigações que seriam favoráveis ao deputado. Como exemplo, mencionou uma
declaração do lobista Fernando Baiano, suposto representante de interesses do
PMDB junto à Petrobras, em que ele nega participação do de Cunha na
contratação.
Antes da defesa, o
procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que a denúncia contra o
deputado está baseada em “farta prova”.
"Quero reafirmar que denúncia
não se assenta exclusivamente nos depoimentos das colaborações premiadas
realizadas, mas em farta prova que delas resultou", afirmou Janot no
início de sua fala.
O procurador mencionou registros
de telefonemas, estacionamentos e estadia em salas onde Cunha teria se
encontrado com Júlio Camargo, ex-consultor da Samsung, para cobrar propina. Nas
reuniões, segundo Janot, ele era acompanhado por Fernando Baiano.
Denúncia
A denúncia da Procuradoria Geral
da República contra Eduardo Cunha aponta que os US$ 5 milhões recebidos pelo
peemedebista fariam parte de uma propina de cerca de US$ 40 milhões
supostamente acertada com Júlio Camargo, representante da Samsung Heavy
Industries; com Fernando Baiano, lobista que intermediava o negócio em nome de
Cunha; e com Nestor Cerveró, e-diretor internacional da Petrobras que aprovou a
compra.
As embarcações, especializadas na
perfuração de águas profundas, foram adquiridas entre 2006 e 2007, pelo preço
de US$ 1,2 bilhão, pagos ao estaleiro num contrato sem licitação.
Para ocultar a origem, a PGR diz
que Cunha recebeu os valores em várias parcelas no exterior, por meio de contas
"offshore" (abertas em países pouco fiscalizados) e empresas de
fachada (com contratos simulados) e até direcionando doações para uma igreja.
A acusação também diz que, para
pressionar Camargo a retomar o pagamento das propinas, Cunha teria articulado,
na Câmara, pedidos de informações para fiscalizar a Samsung junto ao Tribunal
de Contas da União (TCU) e ao Ministério de Minas e Energia.
Também narra em detalhes uma
"reunião pessoal" entre Baiano, Camargo e Cunha para acertar a
divisão dos valores, repassados em parte em espécie no escritório do deputado
no Rio de Janeiro.
A defesa de Cunha afirma que
Baiano pedia propina "por sua própria iniciativa" e que usava o nome
de Cunha para dar força à cobrança.
Os advogados negam participação de
Cunha na formulação dos requerimentos en dizem que, em depoimento, Júlio
Camargo negou ter se sentido pressionado por eles.
Outras investigações
Além da denúncia analisada nesta
quarta-feira pelo STF, Eduardo Cunha é alvo de outras duas investigações no
tribunal: uma referente a contas secretas na Suíça em seu nome, de sua mulher e
de uma de suas filhas; e outra relacionada a suposto recebimento de R$ 52
milhões em propina pela obra no Porto Maravilha, executada pelas construtoras
Odebrecht, OAS e Carioca Christiani Nielsen Engenharia.
O STF deverá ainda analisar um
pedido em separado de Janot para que Cunha se afaste do comando da Câmara e do
mandato.
A PGR diz que o peemedebista usa o
cargo para atrapalhar a Lava Jato e atrasar processo de cassação no Conselho de
Ética, intimidando testemunhas e cooptando aliados.
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