Colaboradora da BBC que viveu na
Venezuela por 11 anos compara a situação nos dois países, ambos imersos em uma
grave crise econômica e em relação de amor e ódio com líderes populares que os
governaram.
Enfrentamento entre manifestantes
e insultos racistas. De um lado as cores nacionais apropriadas como símbolo
opositor, de outro, camisetas e bandeiras vermelhas. Meios de comunicação
acusados de "golpistas" e um líder político capaz de despertar amor e
ódio. Não fosse o verde-amarelo e o idioma usado nas palavras de ordem, a cena
poderia representar a Venezuela.
A crescente polarização no Brasil
entre governistas e opositores teve os ânimos acirrados na sexta-feira (4),
após a operação da Polícia Federal contra Luiz Inácio Lula da Silva. A reação
do ex-presidente e de manifestantes pró e anti-PT leva analistas políticos
venezuelanos ouvidos pela BBC Brasil a traçarem paralelos entre os dois países.
Para o cientista político Carlos
Romero, professor da Universidade Central da Venezuela, o menor grau de
politização da sociedade brasileira, se comparada à venezuelana,
"afasta" do Brasil o risco de uma polarização tensa e violenta que
marca com frequência o embate político no país vizinho. "A disputa ideológica
nesses anos politizou os venezuelanos", afirmou.
A divisão social inerente à
história da Venezuela se aprofundou com a chegada ao poder do líder venezuelano
Hugo Chávez, morto há três anos. Defensor do socialismo, Chávez desapropriou
terras para a reforma agrária, aumentou o controle do Estado sobre a a
exploração petrolífera, enfrentou os meios de comunicação e quem mais atacasse
a "revolução bolivariana".
Sua retórica imediatamente seduzia
as classes populares, beneficiárias da redução da desigualdade social – e
repelia com a mesma força as classes média e alta.
O mito Lula foi construído sobre
outras bases, destaca Romero. O ex-presidente optou pela conciliação entre os
diferentes setores da sociedade brasileira, "não politizou", mas
ainda assim não pôde evitar a polarização.
"A elite nunca está disposta
a ceder (para reduzir a brecha social) mas (os programas sociais) foram
impostos pelo Estado nos anos 'dourados' do governo Lula mesmo assim",
afirmou. "A corrupção (no governo), no entanto, não pode ser atribuída
como responsabilidade da elite brasileira ou dos setores privados na
Venezuela."
Lula x Chávez
Após a ação coercitiva que o levou
ao posto da PF no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para depor, o
ex-presidente disse que as acusações contra ele são fruto do incômodo das
classes mais altas pelas políticas sociais que promoveu no país.
"Ter acesso a universidade,
emprego, ao mínimo para comer, isso incomodou muita gente e tem que destruir
esse avanço dos (que vêm) debaixo."
Lula anunciou que voltará a rodar
o país junto aos movimentos populares e pediu para seu partido, o PT,
"levantar a cabeça".
O escritor venezuelano Alberto
Barrera Tyszka disse que a reação de Lula lhe recordou do tom polarizado
presente nos discursos de Hugo Chávez.
"O Brasil pode estar
caminhando a um processo forte de polarização, mas de todas maneiras será
diferente da situação vivida na Venezuela. As lideranças de Lula e Chávez são
diferentes", acrescentou Barrera, autor de Chávez Sem Uniforme e da ficção
Pátria o Muerte ("Pátria ou Morte", na tradução do espanhol), que
conta as consequências da polarização na Venezuela.
"Chávez polarizou o país
antes de ter uma definição ideológica. Se propôs como um herói destinado a
mudar a história (...) não tenho certeza de que Lula tenha esse mesmo
perfil", afirmou.
O cenário venezuelano, no entanto,
poderia se reproduzir no Brasil caso as investigações da Operação Lava Jato
levarem à condenação e prisão do ex-presidente. "(Uma eventual prisão)
pode acentuar a polarização e os riscos de manifestações violentas",
afirmou Carlos Romero.
De acordo com pesquisa do
Instituto Vox Populi divulgada no fim de semana, 56% dos entrevistados disseram
ser contrários a que a Operação Lava Jato inclua o ex-presidente nas
investigações. Num universo de 15 mil entrevistados, 57% disse acreditar na
inocência de Lula.
Crise econômica
Há exatos três anos de sua morte,
Hugo Chávez se mantém como o ícone de adoração e repúdio na sociedade
venezuelana, que enfrenta uma das piores crises econômicas dos últimos anos.
Queda dos preços do petróleo – único motor da economia –, corrupção, acusações
de sabotagem por setores empresariais antichavistas e ineficiência da
administração do presidente Nicolás Maduro compõem o cenário da crise e de uma
sociedade, até agora, irreconciliável.
De um lado estão os
revolucionários; e de outro, os antichavistas.
A crise econômica brasileira é
outro ponto de encontro entre ambos países.
Em meio à crise política, o IBGE
anunciou a queda de 3,8% do PIB em 2015, a pior retração em duas décadas.
"O retrocesso das economias
também se expressa em desemprego e desânimo, e, ao mesmo tempo, no aprofundamento
da polarização", afirmou Carlos Romero, ao considerar que aqueles que
deixaram de ser beneficiados por programas sociais podem ter mudado de lado.
A temperatura da disputa nas ruas
no Brasil tende a subir nos próximos dias com o avanço da Operação Lava Jato e
a realização de manifestações a favor de Lula e de setores pedindo o
impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Para o analista político, a saída
para melhorar as condições de vida da população sem polarizar a sociedade seria
a conquista de um projeto político que convença a maioria da população,
hipótese cada vez mais distante da realidade política tanto do Brasil como da
Venezuela.
"Em nenhum dos casos se
conseguiu um projeto hegemônico. Sempre a metade do país esteve contra."
*Claudia Jardim foi colaborada da
BBC Brasil em Caracas, onde cobriu a política venezuelana durante 11 anos. Há
quatro meses ela produz reportagens sobre o Sudeste Asiático em Bangcoc, na
Tailândia.

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