A empresa Mossack Fonseca tem relação
com dois argentinos acusados de desviar milhões de dólares em contratos com
empresas estatais durante os governos dos ex-presidentes Kirchner
Alvo da mais recente fase da
Operação Lava Jato, a companhia panamenha Mossack Fonseca é investigada pela
Justiça do Estado americano de Nevada por sua relação com dois argentinos
acusados de desviar milhões de dólares em contratos com empresas estatais
durante os governos dos ex-presidentes Néstor e Cristina Kirchner. O caso foi
iniciado em 2013 pelo NML Capital, um dos fundos chamados de
"abutres" pela ex-argentina. O grupo não participou da
reestruturação da dívida argentina realizada depois da crise de 2001 e iniciou
uma busca de ativos ao redor do mundo para receber seu crédito de 1,7 bilhão de
dólares.
"O NML demonstrou suspeita
razoável para acreditar que os Kirchner e [Lázaro] Báez estão ou estavam em
posse de ativos da Argentina e que Báez controla entidades em Nevada que
possuem informações relativas a esses ativos", disse o juiz Cam Ferenbach
em decisão proferida no dia 16 de março de 2015. As "entidades de
Nevada" a que ele se refere são 150 empresas de fachada abertas pelo braço
da Mossack Fonseca em Nevada, a M.F. Corporate Services. Todas têm o mesmo
endereço e teriam sido estabelecidas para receber recursos desviados por Báez e
Cristobal López com a conivência dos Kirchner.
Báez e López são empresários que
prosperaram graças a contratos com o Estado durante a gestão dos dois
ex-presidentes. A NML sustenta que o dinheiro foi "lavado" pelas
empresas de fachada abertas pela M.F. Corporate em Nevada e foi à Justiça para
receber informações sobre os recursos.
O esquema é parecido ao que teria
sido utilizado na Petrobras. Na semana passada, o juiz federal Sergio Moro
expediu mandados de busca e apreensão nos endereços da Mossack Fonseca em São
Paulo. "No curso das investigações, foi constatado que diversos agentes
envolvidos no esquema criminoso que vitimou a Petrobras teriam utilizado os
serviços da empresa Mossack Fonseca & Corporate Services para abertura de
empresas offshores, posteriormente utilizadas para ocultar e dissimular o
produto do crime de corrupção", escreveu o magistrado na decisão.
O juiz americano Ferenbach
manifestou posição semelhante: "A Mossack Fonseca & Co. é conhecida
por incorporar empresas de fachada e lavar dinheiro".
A nova etapa da Lavo Jato, Triplo
X, também investiga a suspeita de utilização do Condomínio Solaris, no Guarujá,
litoral paulista, para o pagamento de suborno. Um dos imóveis, o 163B, é de
propriedade de uma offshore aberta pela Mossack Fonseca, a Murray Holdings. Ele
fica na torre vizinha ao do tríplex 164A, que a Polícia Federal investiga se é
de propriedade do ex-presidente Lula.
"Nem todos os clientes da
Mossack Fonseca são criminosos, mas se você é um criminoso, essa é uma das
primeiras empresas com a qual falará", disse o jornalista americano Ken
Silverstein, que investigou a empresa durante oito meses em 2014. "Eles
são uma das principais firmas do mundo especializadas em abrir empresas de
fachada para ajudar pessoas a esconder dinheiro e seus clientes incluem
notórios gangsters, criminosos e ditadores."
Entre os que usaram os serviços da
Mossack Fonseca, foram identificadas pessoas ligadas ao dirigente sírio Bashar
Assad, ao ex-ditador líbio Muammar Gaddafi e ao presidente do Zimbabwe, Robert
Mugabe. "Todo mundo conhece a Mossack Fonseca no mundo da lavagem de
dinheiro", afirmou o jornalista.
(Com Estadão Conteúdo)

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