Em depoimento, empresário Fernando
Moura, que atuava como lobista e operador do PT, afirma que presidente chegou a
indicar nome para a área de Exploração e Produção
Segundo Fernando Moura, o esquema
de cobrança de propina em contratos com a Petrobras “não é de hoje” e era uma
“prática normal nas gerências” da estatal(Rodrigo Félix/Folhapress)
Em novo depoimento no âmbito da
Operação Lava Jato, o empresário Fernando Moura, que atuava como lobista e
operador do PT no esquema de corrupção da Petrobras, afirmou nesta sexta-feira
que a presidente Dilma Rousseff, à época ministra de Minas e Energia,
participou de reunião em 1º de fevereiro de 2003 que chancelou a indicação de
Renato Duque à diretoria de Serviços da Petrobras. Duque foi condenado a 20
anos e oito meses de prisão em setembro pelos crimes corrupção passiva,
organização criminosa e lavagem por desvios de recursos em contratos na
estatal.
Moura atuava em parceria com o
ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira, responsável pelo loteamento de
cargos no início do primeiro mandato do ex-presidente Lula. Ele detalha que nos
computadores do partido havia uma planilha de que constavam 32.000 cargos no
governo e que cabia a ele e a Pereira fazer parte dessa seleção. Em uma dessas
ocasiões, o lobista indicou Duque para o comando da Diretoria de Serviços.
Coube ao então chefe da Casa Civil José Dirceu bater o martelo e confirmar a
nomeação de Duque.
"Pelo que o Silvio me
informou, dessa reunião participaram o José Eduardo Dutra (ex-presidente da
Petrobras), a Dilma Rousseff, que era ministra de Minas e Energia, o [Luiz]
Gushiken (ex-ministro da Secretaria de Comunicação), Delúbio Soares, ele
[Duque] e uma outra pessoa de que não me recordo", detalhou em depoimento
ao juiz Sérgio Moro. De acordo com o delator, a reunião foi feita na antessala
de José Dirceu no Palácio do Planalto.
Amigo de José Dirceu há quase 40
anos, o delator disse que a presidente Dilma Rousseff, então ministra de Minas
e Energia no governo Lula, chegou a fazer uma indicação para a diretoria de
Exploração e Produção da Petrobras - Moura não foi instado a dar o nome do
indicado. A área, considerada sensível pelos investigadores da Lava Jato, é
responsável por sondas de busca de petróleo e depois contratou as cobiçadas
consultorias do pré-sal. Policiais que atuam na Lava Jato detectaram que o
lobista Milton Pascowich, empresário e delator ligado ao ex-ministro José
Dirceu, tinha presença constante na diretoria de Exploração a mando da
construtora Engevix. A atuação tinha "características semelhantes" ao
esquema de pagamento de propina na diretoria de Serviços, comandada à época por
Renato Duque.
A senha para o potencial explosivo
do novo flanco de investigação já havia sido dada pelo ex-diretor de
Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, que em delação premiada afirmou
que os "grandes valores" de propina eram movimentados mesmo na
diretoria de Exploração. "Os grandes valores, os grandes orçamentos, o
processo que se iniciou em 2003 por Pedro Barusco e das empresas era dentro da
área de Exploração & Produção", disse Costa. Na época, o diretor da
área era Guilherme Estrela.
O esquema - Segundo
Fernando Moura, o esquema de cobrança de propina em contratos com a Petrobras
"não é de hoje" e era uma "prática normal nas gerências" da
estatal. Conforme o delator, o ex-diretor Renato Duque "com certeza"
ficou milionário com o recolhimento de dinheiro sujo na estatal, enquanto o
lobista Milton Pascowitch, pelo nível de capilaridade no esquema de propina,
"tinha que ter respaldo pra pagar pra alguém". "Sozinho não
faria isso", resumiu.
O delator voltou a afirmar que, no
final de 2003, ainda sob sua intensa articulação, indicou para o então diretor
Renato Duque a empresa Hope, apontada pelo Ministério Público como um dos
caixas de propina do petrolão. Com isso, o contrato da companhia com a
Petrobras à época saltou dos 10 milhões de reais para 40 milhões de reais.
Desde então, passou a ser recolhida da companhia propina de 3%, sendo 2% para o
diretório regional do PT repassar a campanhas políticas, como no Rio de
Janeiro, Vitória e Fortaleza.
Em depoimento ao juiz Sergio Moro,
Fernando Moura também detalhou a atuação de Pascowitch no escândalo do
petrolão, disse que o "grupo político do PT de São Paulo" recebia
propina e declarou que "imagina" que José Dirceu também era
destinatário do dinheiro sujo, embora tenha dito que "nunca" negociou
diretamente com o petista o repasse de dinheiro. Apenas no caso da empreiteira
Engevix, o dinheiro sujo era dividido "politicamente" para pessoas
como o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto e o ex-diretor Renato Duque.

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