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A promotoria
investiga a ajuda da OAS a Lula ao reformar
apartamento
no Guarujá (Foto: Douglas Magno)
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Uma a uma, as explicações do
ex-presidente sobre sua relação com empreiteiras do petrolão vão ruindo
O ex-presidente Lula é conhecido
pela capacidade retórica de vergar a realidade ao sabor de seus interesses.
Quando ainda estava no Planalto, essa habilidade fez dele um líder popular.
Hoje, a capacidade do petista de retorcer os fatos parece cada vez mais
reduzida. Com frequência, Lula tem sido cabalmente desmentido por eles.
Recentemente, para ficar em um exemplo, o ex-presidente ensaiou dizer que não
era tão amigo assim do pecuarista José Carlos Bumlai, preso na Operação
Lava-Jato por intermediar tenebrosas transações com personagens do petrolão em
nome do próprio Lula e do PT. Bastaram algumas fotos encontradas entre os
arquivos apreendidos com Bumlai para que a tentativa do petista de se descolar
do amigo ruísse: as imagens mostravam que o pecuarista, homem de livre acesso
ao gabinete mais importante da República durante o governo Lula, desfrutava a
intimidade da família do ex-presidente. Esse modo de dar de ombros a cada nova
revelação desabonadora ligando Lula ao maior escândalo da história do país
virou hábito. Na semana passada, houve um novíssimo desmentido, também embalado
por evidências incontornáveis.
Lula passou o ano de 2015 negando
ser o dono de um apartamento tríplex de 297 metros quadrados em um prédio de
frente para o mar do Guarujá, em São Paulo, construído e reformado sob medida
pela OAS, uma das principais empreiteiras do petrolão. Atraído pelo preço
convidativo, o ex-presidente decidiu investir no imóvel logo depois de seu
lançamento, há pouco mais de dez anos. O edifício, àquela altura, era uma obra
da Bancoop, a cooperativa ligada ao PT que, sob o comando do notório João
Vaccari Neto, tesoureiro do partido, foi à bancarrota depois de se transformar
em uma sucursal dos malfeitos petistas. Com a falência da Bancoop, mais de
3 000 famílias ficaram sem receber os imóveis negociados com a cooperativa. O
mais ilustre dos petistas, porém, não ficaria no prejuízo. Como VEJA revelou em
abril, após um pedido feito pelo próprio Lula a Léo Pinheiro, seu amigo e o
principal executivo da OAS, a empreiteira não apenas assumiu a construção do
prédio como ofereceu uma atenção especial, repleta de mimos, à unidade
reservada para o ex-presidente.
O agrado da empreiteira a Lula
custou caro. A OAS gastou 700 000 reais para deixar o apartamento ao gosto da família
do ex. O tríplex, avaliado em 2,5 milhões de reais, passou por uma repaginação
completa: o piso foi trocado, os acabamentos de gesso foram refeitos, a cozinha
foi equipada com móveis de primeira linha e um elevador foi instalado para
interligar os três andares. A reforma foi acompanhada de perto pela família do
ex-presidente - a ex-primeira-dama Marisa Letícia, o próprio Lula e Fábio Luís,
o Lulinha, primogênito do casal, visitaram o local durante as obras. Estava
tudo caminhando para que o apartamento dos Lula da Silva na praia fosse
finalmente inaugurado pela família. Até que vieram a Lava-Jato e, com ela, a
descoberta do privilégio bancado pela OAS. Lula, como era de esperar, correu
para tentar se descolar do imóvel. Logo passou a negar que fosse o
proprietário. Alegou que a família tinha apenas a opção de compra de um
apartamento - uma esperteza óbvia, já que o tríplex está registrado em nome da
OAS.
Como versões mal-ajambradas e
tentativas de manipulação da realidade têm perna curta, a negativa de Lula não
demorou para ruir. Uma investigação do Ministério Público de São Paulo colheu
depoimentos de diferentes testemunhas que atestam que o apartamento do edifício
Solaris foi, sim, construído e reformado pela OAS para a família do
ex-presidente. Mais do que isso, os promotores, os mesmos que já investigavam
os desvios milionários na Bancoop, agora apuram se a empreiteira do petrolão
usou apartamentos no prédio do Guarujá para lavar dinheiro e beneficiar
indevidamente figurões como Lula. Os depoimentos colhidos pela promotoria e
revelados na semana passada pelo jornal Folha de S.Pauloconfirmam o
que VEJA publicou em outubro e trazem detalhes de como a reforma no apartamento
de Lula estava envolta em uma aura de segredo para que ninguém suspeitasse de
nada. Um engenheiro que trabalhava para a OAS quando a obra foi executada
contou que Lula fez uma "vistoria-padrão" no apartamento. Ele disse
que apenas abriu a porta do tríplex para que o ex-presidente entrasse - lá
dentro, Lula foi acompanhado pelo coordenador de engenharia da empreiteira. O
dono da empresa especializada em reformas contratada pela OAS para remodelar o
apartamento disse que estava na obra quando foi surpreendido pela chegada da
ex-primeira-dama Marisa Letícia e de mais três homens - entre eles Lulinha e
ninguém menos que o então presidente da OAS, Léo Pinheiro, o amigo de Lula que
mais tarde viria a ser preso pela Lava-Jato. O zelador do prédio contou aos
promotores que Lula e Marisa estiveram no imóvel pelo menos duas vezes e que,
para a chegada dos visitantes ilustres, a OAS ordenou que o prédio passasse por
uma limpeza e fosse decorado com "arranjos florais". O zelador disse
ainda que, durante uma das visitas, seguranças de Lula travaram o elevador
enquanto o petista estava no imóvel, o que fez com que moradores de outros
apartamentos se queixassem.
A promotoria deve concluir em
breve o inquérito e tende a ajuizar um processo contra os envolvidos no caso.
Ao mesmo tempo que agradava Lula, a OAS multiplicava o saldo devedor de outros
mutuários da Bancoop que haviam adquirido apartamentos. Do empresário Walter
Didário, por exemplo, a empreiteira cobrou 600 000 reais além do que ele já
tinha pago. "Eu me sinto um completo idiota", diz ele. A construção
do edifício e a luxuosa reforma no tríplex não foram os únicos favores
prestados pela empreiteira a Lula. Como VEJA revelou, a OAS bancou ainda a
reforma do sítio que a família frequenta em Atibaia (SP).

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