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O
ministro do Supremo e atual presidente do Tribunal
Superior
Eleitoral, José Antonio Dias Toffoli, fala do atual
sistema político e da Lava Jato em entrevista ao ‘Estado'
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O ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), José
Antonio Dias Toffoli, afirma que “o País continuará ingovernável” se os
sistemas eleitoral e partidário não forem alterados. Em entrevista ao Estado,
ele defende a instituição de uma cláusula de desempenho para os partidos e o
estabelecimento do voto proporcional misto para eleição de parlamentares.
“Hoje, o atual sistema - de base
proporcional, sem cláusula de barreira com acesso de maneira muito igualitária
ao direito de antena (aparição em rede de rádio e TV) e ao fundo partidário -
leva à ingovernabilidade”, disse.
Ainda na entrevista, Toffoli fala
sobre as expectativas para eleições municipais de 2016, em que doações
empresariais serão proibidas. O ministro do STF faz também uma análise sobre a
Operação Lava Jato e a prisão do senador Delcídio Amaral (PT-MS).
“O que mais chocou no caso do
Delcídio não foi citar o ministro A, B ou C. O que verificamos foi uma
interferência no processo, oferecendo ajuda material para que um colaborador
protegesse A ou B na sua delação. Alguém que tente interferir no processo
investigatório está atentando contra o Estado”, afirmou Toffoli.
Qual foi a principal marca do
Judiciário neste ano de 2015?
Cada vez mais fica claro que o
Poder Judiciário, principalmente o Supremo Tribunal Federal, vai ocupando o
espaço de Poder Moderador. Aliás, para o qual ele foi criado com a República.
Sua função, portanto, é mediar as grandes crises da sociedade sob a guarda da
Constituição e das leis.
Que avaliação o senhor faz da
Operação Lava Jato? Quais são os pontos positivos e os pontos negativos?
Minha avaliação é que as
instituições estão funcionando. O Poder Judiciário, o Ministério Público e
Polícia Judiciária estão em plena atividade. Não é uma questão de balanço
positivo ou negativo. Porém, fora do trabalho normal, o que ela pode gerar de
positivo é mostrar que o atual sistema eleitoral partidário tem de ser
modificado, pois leva uma relação promíscua entre Estado e setor privado.
E o uso da colaboração
premiada?
É fundamental para o
esclarecimento de crimes que sejam praticados em situações mais complexas, que
envolvam pessoas muito poderosas. Nesses casos, sem a ajuda de alguém de dentro
do esquema, fica muito difícil desvendar esses crimes. Pois quase sempre tais
crimes possuem uma roupagem lícita. O instituto da colaboração premiada ainda é
muito novo no Brasil e talvez precise de alguns ajustes.
Quais ajustes, ministro? Houve
algum exagero?
Até agora, o Supremo não anulou
nenhum acordo de colaboração. Parece que os resultados são bons. O que não
podemos deixar de observar é que um colaborador não deixa de ser um criminoso.
Tem que se apurar se não está fazendo um despiste, desviando a atenção. Mas há
coisas a melhorar. Eu penso que um mesmo advogado não pode atuar em várias
colaborações. Porque isso pode ser um mecanismo de combinação. E esse é um tema
que a lei não previu.
Como foi o momento de decidir
sobre a prisão do senador Delcídio Amaral, sobretudo depois que o senhor e
outros ministros ouviram aquela gravação em que são citados por ele?
Em primeiro lugar, um ministro tem
de estar acostumado a receber pedidos. Quando alguém entra com uma ação, ele
está pedindo algo ao juiz. O que o juiz não pode é se deixar seduzir. Precisa
seguir as leis e a Constituição. O que mais chocou no caso do Delcídio não foi
citar o ministro A, B ou C. O que verificamos foi uma interferência no
processo, oferecendo ajuda material para que um colaborador protegesse A ou B
na sua delação. Alguém que tente interferir no processo investigatório está
atentando contra o Estado. Por isso houve unanimidade na decretação da prisão.
Como o senhor avalia o TSE
ainda analisando questões das eleições presidenciais de 2014?
Cada vez mais vamos conviver com
isso, que não é algo específico do Brasil. No mundo democrático ocidental, cada
vez mais a ebulição pela disputa do poder é mais constante e aguerrida. Tem
sido assim na França, nos Estados Unidos. Os resultados eleitorais também estão
ficando cada vez mais parelhos. Vimos isso agora mesmo na eleição na Argentina.
No Brasil, essas disputas
acirradas deixaram as campanhas mais caras e a cada eleição aparecem
financiamentos com recursos de origem ilícita. Como evitar?
Em 2012, 75% das doações vieram de
empresas. E, em 2014, 93% dos candidatos foram financiados por pessoas jurídicas.
Nas eleições municipais de 2016, faremos um teste importante, que é a vedação
de doações de empresas - decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal. Além
disso, o Congresso aprovou um limite. O máximo que poderá ser gasto é 70%
daquilo que foi a maior despesa na campanha respectiva nas últimas eleições.
Mesmo com a vedação das doações
de empresas, haverá problemas?
O fim da doação das empresas traz
uma equidade. Porém traz uma segunda preocupação: que o dinheiro venha de áreas
ilícitas, como o crime organizado e o narcotráfico. Acho que a Ordem dos
Advogados do Brasil junto com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil,
Associação Brasileira de Imprensa e outras entidades da sociedade civil
deveriam se unir e montar comitês de acompanhamento das eleições, inclusive
para denunciar irregularidades. A Justiça não age de ofício. Ela precisa ser
provocada.
O senhor acha que há muitos
partidos no País?
Um dos nossos problemas é o
sistema proporcional para escolha de deputados. O sociólogo francês Maurice
Duverger (1917-2014) já dizia, nos anos 1940, que países que adotam esse
sistema proporcional aumentam o número de partidos a cada eleição. No Brasil,
foi assim até 1964, quando a ditadura criou o bipartidarismo. Em 1981, quando
isso acabou, foram criados cinco partidos. Hoje, em 2015, já temos 35 siglas.
No Congresso, temos parlamentares de 28 partidos. Cada deputado quer ter seu
próprio partido, para ter acesso à rádio, ao fundo partidário. Sem cláusula de
barreira, isso não muda. Eu propus fazer uma coisa progressiva. Começando com
1,5% dos votos conquistados e depois ir a 3%. Nos EUA e na França, são 5%.
Qual sistema poderíamos adotar?
Poderíamos adotar o sistema alemão
em que o cidadão vota duas vezes. Primeiro no candidato do seu distrito, da
região ou localidade e depois na lista de um partido. E esse voto em lista é
que deve ser proporcional. Metade das vagas é escolhida pelo voto em lista e
outra metade pelo voto distrital. Hoje, o atual sistema - de base proporcional,
sem cláusula de barreira com acesso de maneira muito igualitária ao direito de
antena (aparição em rede de rádio e TV) e ao fundo partidário - leva à
ingovernabilidade. Em 2014, o partido que fez mais deputados obteve 12% das
cadeiras do Parlamento. Então, esse sistema eleitoral, se não for atacado,
continuará ingovernável. O sistema atual fragiliza os governos.

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