Em seu terceiro interrogatório à
Polícia Federal o empresário e pecuarista José Carlos Bumlai confirmou uma
informação que havia sido dada pelo lobista Fernando Falcão Soares, o Fernando
Baiano, um dos delatores da Operação Lava Jato. O amigo do ex-presidente Lula
disse que atendeu a um pedido de Fernando Baiano, relativo a uma palestra no
Centro de Estudos Avançados de Angola. O lobista, no termo 4 de sua delação
premiada, afirmara à Procuradoria-Geral da República que pediu a Bumlai que
intermediasse um convite para Lula ir ao evento no país africano, em julho de
2011.
O interrogatório ocorreu no dia 21
de dezembro. No termo, a PF registrou dezoito vezes o nome de Lula. A PF indagou
reiteradamente de Bumlai 'se realmente nunca tratou de questões comerciais ou
políticas com Luiz Inácio Lula da Silva'. O pecuarista respondeu que 'não'. Mas
acrescentou que 'muitas pessoas encaminhavam demandas via e-mail ao Instituto
Lula e que, na ausência de respostas, solicitavam ao reinterrogando, na medida
do possível, que fizesse contato junto ao Instituto para viabilizar ao menos a
apreciação dos pedidos'. Nestes casos, assinalou Bumlai, ele procurava
Clara Ant, ex-assessora especial de Lula no Palácio do Planalto e diretora do
Instituto.
O pecuarista falou, então, sobre
Angola. "Durante os anos de 2014 e 2015, não repassou qualquer demanda
deste tipo, isto é, de interessados em solicitarem reuniões, palestras e outros
pleitos a Luiz Inácio Lula da Silva; que se recorda que, em única oportunidade,
atendeu a um pedido de Fernando Soares, relativo a uma palestra a ser realizada
em Angola, no Centro de Estudos Avançados de Angola", afirmou Bumlai,
preso desde 24 de novembro, alvo da Operação Passe Livre, desdobramento da Lava
Jato.
Fernando Baiano havia relatado
viagem com Bumlai para Angola, em 2011. O lobista declarou à Procuradoria-Geral
da República que o general João Baptista de Matos, que seria então presidente
do 'Instituto de Estudos Angolanos', pretendia realizar um seminário em comemoração
aos 10 anos da entidade. Matos, segundo Fernando Baiano, ' desejava que o
palestrante principal fosse o ex-presidente Lula'. Na época, a mídia divulgou
que Lula declarou que 'o Brasil tem responsabilidades com Angola' e que o país
africano estava 'no caminho certo neste processo de reconstrução do país com um
povo que está a conquistar a cada dia a sua cidadania'.
As declarações de Baiano foram
prestadas em setembro de 2015 à Procuradoria-Geral da República. "O
general Baptista pediu ao depoente (Fernando Baiano) para intermediar este
convite; que na verdade se tratou de uma contratação e Lula recebeu valores
para participar de tal evento, pagos provavelmente pelo instituto que o general
Baptista era presidente; que então o depoente pediu a Bumlai que intermediasse
tal convite, oportunidade em que ele disse que iria falar com Lula; que Bumlai
retornou dizendo que seria possível, só que seria necessário verificar a data
com bastante antecedência, pois a agenda do ex-presidente estava bastante
atribulada", afirmou Fernando Baiano.
Segundo o lobista, a viagem
ocorreu com a presença de 'uma comitiva de empresários brasileiros' da Queiroz
Galvão, Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS. Baiano disse que também participou
deste seminário, mas viajou a partir de Zurique, na Suíça.
"Uma das coisas que mostrou a
força de Bumlai foi que o general Baptista queria estar pessoalmente com Lula,
para tratar da Vale do Rio Doce em negócios em Angola; que general Baptista
tinha uma sociedade em uma mina de minério de ferro com a Vale do Rio Doce em
Angola e ele queria uma maior atenção da empresa para o tema; que então Bumlai
marcou para o presidente Lula receber o general Baptista na suíte dele, o que
realmente ocorreu; Que o general ficou impressionado com a relação de intimidade
e amizade que existia entre Bumlai e Lula", declarou Fernando Baiano.
Bumlai é o pivô do polêmico
empréstimo de R$ 12 milhões concedido a ele pelo Banco Schahin, cujo
destinatário final foi o PT, segundo confessou o pecuarista. Ele é acusado por
corrupção e gestão fraudulenta.
Fernando Baiano está preso em
regime de prisão domiciliar sob monitoramento de tornozeleira eletrônica. Ele
ficou cerca de 1 ano preso em Curitiba, base da Lava Jato, parte do tempo na
Superintendência da Polícia Federal e parte no Complexo Médico-Penal, em
Pinhais, região metropolitana da capital paranaense.
O lobista foi condenado em um dos
processos que responde na 13ª Vara Federal de Curitiba, onde correm os
processos da Lava Jato. O juiz federal Sérgio Moro, que mandou prende-lo, o
condenou a 16 anos, um mês e dez dias de reclusão, por corrupção e lavagem de
dinheiro. Segundo a sentença, o operador teria intermediado propina de US$ 15
milhões sobre contratos de navios-sonda. Os valores teriam sido repassados à
diretoria da Área Internacional da Petrobrás, ocupada na época por Nestor
Cerveró - também preso e condenado na Lava Jato.

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