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Em sua
autobiografia, Baquaqua revela como era
ser escravo
no Brasil (Foto: Reprodução)
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Baquaqua ditou história de sua
vida a um escritor norte-americano. Livro vai ganhar a primeira edição brasileira,
a ser lançada neste ano.
Um homem culto, que falava várias
línguas e sabia ler e escrever em árabe. Esse é o surpreendente perfil de um
escravo que viveu em terras brasileiras: Mahommah Gardo Baquaqua. A história de
sua incrível jornada está ganhando a primeira versão em português pelas mãos do
professor e doutorando pernambucano Bruno Véras, junto com o professor da
Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Nielson Bezerra.
Baquaqua ditou a história de sua
vida para o escritor Samuel Moore, que atuou como revisor e editor. O relato
inclui o primeiro período como escravo no Brasil e depois sua fuga nos Estados
Unidos, e foi publicado em 1854, em Detroit. A publicação ganhou o título de
"An interesting narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua". Em
2001, pelas mãos dos professores canadenses Paul Lovejoy e Robin Loy, a
história foi republicada em uma versão ampliada, que inclui uma longa introdução
trazendo o contexto histórico, o relato de Baquaqua e também as cartas que ele
trocou com religiosos, missionários e abolicionistas.
Baquaqua sobre o navio negreiro
A versão brasileira será uma
tradução e atualização desse livro de 2001, com previsão de lançamento no final
deste ano pela editora Civilização Brasileira. A edição será acompanhada de
toda a documentação levantada pelos pesquisadores brasileiros e canadenses em
sua revisão - como cartas e mapas.
"Ele foi o único escravo
africano que escreveu seu relato autobiográfico sobre a escravidão no Brasil.
Esse ato de escrever a sua vida é muito comum nos EUA, no Canadá, onde tem uma
linha literária de relatos de escravos, o que era usado como propaganda pelos
abolicionistas", explicou Véras.
Capturado no Benin, no oeste
africano, Baquaqua era filho de um comerciante muçulmano e teve formação
educacional com a leitura do Corão, o livro sagrado do islamismo. Em sua
autobiografia, ele relata o terror de ser acorrentado e jogado em um porão de
um navio negreiro, sem imaginar qual queria o seu destino.
"Fomos arremessados, nus,
porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era
tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos
sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado
devido ao confinamento de nossos corpos", diz em seu relato.
Ele foi desembarcado em 1845 em
uma praia de Pernambuco, entre Goiana e a Ilha de Itamaracá, segundo apontam as
pesquisas. "Nesse ano, já era proibido o tráfico de pessoas vindas da
África. Ele foi desembarcado ilegalmente e trabalhou como escravo em Pernambuco
e no Rio de Janeiro por mais de dois anos", explica Véras.
As angústias de ser escravo em um
país estranho estão presentes na autobiografia e revelam uma percepção única
sobre ser escravo. Muçulmano, Baquaqua se viu obrigado a professar o
catolicismo, uma vez que era a religião do dono.
Os abusos fizeram inclusive ele
pensar em suicídio. "No relato, ele ajuda a gente a desconstruir uma série
de estereótipos de africanos que vieram para o Brasil escravizados. Ele se
mostra um africano altivo, e também fala de suas fraquezas, da tentativa de
suicídio", aponta o historiador.
Vendido para o dono de um navio no
Rio de Janeiro, o escravo traz o retrato da "morte social" pela qual
os africanos passavam ao serem trazidos ao Brasil.
Foi em uma viagem com destino a
Nova York, nos Estados Unidos, que ele vislumbrou uma esperança. "Ele
descobre no navio, com um marinheiro inglês, que não existe mais escravidão em
Nova York. Chegando ao porto, ele correu com outro colega e foi preso",
conta Véras. "A primeira palavra que meus dois companheiros e eu
aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um
inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti", relata
Baquaqua na autobiografia.
A primeira palavra que meus dois
companheiros e eu aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e
quantas vezes eu a repeti"
Baquaqua
A prisão foi, na verdade, um
processo de libertação. Havia o dilema na justiça americana se Baquaqua deveria
ser devolvido a seu dono, já que era uma embarcação brasileira, ou se deveria
ser liberto, já que não havia escravidão no país. Os pesquisadores encontraram
todo o processo quando pesquisaram nos arquivos da justiça americana.
"Ele fugiu da prisão, foi
para o Haiti, onde morou dois anos. Depois foi para a Central College, no
estado de Nova York, onde estudou inglês durante três anos. Ele já sabia escrever
em árabe, o irmão mais velho dele era professor de religião na cidade que ele
nasceu", conta Véras.
Foi nesse ponto da história que o
escritor Samuel Moore entrou como revisor e editor. Como o inglês que Baquaqua
sabia era básico, para a finalização de um livro foi necessária uma linguagem
mais elaborada, o que exigiu a figura do editor. "Baquaqua circulou por
vários espaços ligados a igrejas cristãs que defendiam a ideia abolicionista.
Depois da publicação, ele fez várias palestras nos Estados Unidos porque, para
além da propaganda abolicionista em si, ele queria também promover o livro para
conseguir fundos e voltar para a África. Mas o livro ajudou a causa sim, e ele
conhecia e se correspondia com altos nomes abolicionistas nos Estados
Unidos", diz Bruno Véras.
Fora trazer as vivências de um
ex-escravo, em uma história que se assemelha ao filme 'Doze Anos de
Escravidão', vencedor do Oscar, a autobiografia de Baquaqua traz ainda uma
visão diferenciada da escravidão do Brasil. "O relato possibilita entender
a história desse africano para além da escravidão. Como ele construía laços
apesar da escravidão, é pesquisar essas pessoas para além da escravidão",
explica o professor pernambucano.
Atualização
A história foi revisitada pelos
historiadores Paul Lovejoy e Robin Loy e resultou no livro lançado em 2001, com
cartas e documentos sobre Baquaqua que ajudam a aprofundar a biografia desse
personagem histórico. A obra agora está sendo atualizada com ajuda dos dois
professores brasileiros e, finalmente, traduzida para o português.
"Essa história deveria ter
sido traduzida para o português há muito tempo. Baquaqua chama a atenção por
ser um muçulmano do interior da África. Sua história pessoal é fascinante, por
isso é interessante ser levada para escolas em vários países", afirma o historiador
Paul Lovejoy, em entrevista por e-mail ao G1.
O trabalho de tradução é feito
junto com o Projeto Baquaqua, onde os pesquisadores brasileiros se unem aos
canadenses para percorrer os passos do africano no Brasil, nos Estados Unidos,
no Haiti e na Europa.
"Aqui no Brasil encontramos
documentos no arquivo municipal de Olinda relacionados ao dono da embarcação em
que Baquaqua trabalhava. Tentar construir uma biografia de um escravo é muito
mais complexo que construir a história de um rei, de um general, por causa da
dificuldade de acesso a documentos de escravos. Os registros produzidos sobre
ele eram escassos, geralmente as pessoas falando sobre ele. Temos que trabalhar
documentos ao seu redor. Quando encontramos um padrinho, um afilhado, conhecemos
mais sobre ele", explica Véras.
O próximo passo da equipe inclui
uma viagem à África, provavelmente em 2016, em busca de rastros de Baquaqua.
"Ninguém sabe ao certo se ele conseguiu voltar para casa. Vamos buscar
saber se há registro dele por lá", aponta o professor pernambucano, que
este ano embarca para o Canadá, onde vai fazer seu doutorado na York University
sobre Baquaqua, tendo como orientador o professor Paul Lovejoy.
Fonte: G1

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