"Em meio a
tantos problemas, aprendi a ter raiva, aprendi a amar", conta em
entrevista ao R7
Só quem já
viveu na rua sabe contar as inúmeras dificuldades que é preciso enfrentar para
sobreviver nessa condição. Estela Maris dos Santos chegou à Cracolândia aos 11
anos, quando fugiu de casa para deixar de ser estuprada pelo padrasto e pelo
irmão mais velho.
O paradeiro da
menina foi as ruas do bairro do Triunfo, na região da Luz. Em pouco tempo, ela
foi aliciada e passou a vender drogas para sobreviver. Certa vez, Estela
levou uma batida da polícia feminina e, com a chacoalhada, dois papelotes
caíram no chão. Ela foi levada para averiguação.
— A policial
apresentou a droga na delegacia, mas o dinheiro sumiu. E era dinheiro, viu.
De volta às
ruas, e agora com uma dívida alta com um traficante, a menina resolveu fazer
seu o primeiro assalto para não ser morta. Ela ficou nervosa durante a ação,
acabou sendo agredida com um soco pela refém e se entregou à polícia.
O assalto
frustrado lhe rendeu uma pena de quatro anos de detenção. Já na prisão, foi
obrigada a participar de uma rebelião — quem se recusa a participar é acusado
de “correndo pros home” —, que prolongou sua estadia para sete anos.
Estela teve
dois filhos e não os criou. Por conta do tráfico, preferiu não envolver as
crianças com a vida que levava.
— Comecei a
usar droga com 35 anos, depois que saí da prisão. Até então, só vendia.
Em liberdade,
passou a falsificar perfume, shampoo e condicionador para sustentar o vício.
— Passei por
mais de 20 clínicas de reabilitação.
Em uma das
internações, em Campos de Goitacás (RJ), Estela aprendeu a tocar violão e
encontrou uma saída para mudar de vida.
— Dessa vez,
estou firme na decisão. Tirei meus documentos e quero arrumar um emprego. Há
quatro dias não uso nada. Tô limpa.
A ex-moradora
da Cracolândia hoje pensa em outra vida para ela. Tirou carteira de trabalho,
novos documentos e se prepara para ir a uma entrevista de trabalho em uma
cafeteria na zona sul da cidade.
— Meu sonho é
arrumar meus dentes, comprar um violão e entrar no conservatório Tom Jobim. Em
meio a tantos problemas que arrumei e arrumaram comigo, aprendi a ter raiva,
aprendi a amar. A vida hoje é muito valiosa, aos 47 anos.

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