![]() |
| (Foto: Raphael Alves/AFP) |
Levantamento apresentado este mês apontou aumento de 191% no desmate da floresta em agosto e setembro de 2014, em relação ao mesmo bimestre de 2013.
O
pesquisador Antônio Nobre, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST),
braço do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) analisou mais de 200
artigos científicos sobre a Amazônia e sua relação com o clima e as chuvas
no Brasil, e concluiu que o desmatamento dessa região influencia a falta de
água sentida nas regiões mais populosas do país, incluindo o Sudeste.
A
diminuição da quantidade de árvores no bioma impede o fluxo de umidade entre o
Norte e o Sul do país, aponta o estudo divulgado ontem, quinta-feira (30). O
relatório “O Futuro Climático da Amazônia”, encomendado pela Articulação
Regional Amazônia, rede composta por várias associações sul-americanas, tenta
explicar as possíveis causas e efeitos da bagunça climática recente e apresenta
soluções que minimizariam os impactos negativos dessas alterações.
De
acordo com o pesquisador, a falta de precipitação, sentida principalmente no
Sudeste, em especial no estado de São Paulo, seria consequência indireta do
desflorestamento amazônico. Desde o início da década de 1970 até 2013, a
exploração madeireira e o desmatamento gradual retiraram do bioma 762.979 km²
de floresta, área equivalente a duas Alemanhas. Os dados referem-se ao desmate
total (chamado de corte raso).
A
retirada da cobertura vegetal interrompe o fluxo de umidade do solo para a
atmosfera. Desta forma, os “rios voadores”, nome dado a grandes nuvens de
umidade, responsáveis pelas chuvas, que são transportadas pelos ventos desde a
Amazônia até o Centro-Oeste, Sul e Sudeste brasileiros, não “seguem viagem”,
causando a escassez hídrica.
“A
estação seca está se estendendo por maior tempo nas regiões mais desmatadas e
as nuvens de chuva dos rios aéreos não estão chegando, a partir da floresta
ainda existente, em áreas que anteriormente chegavam. Esse efeito tem conexão
direta com o desmatamento”, disse Nobre. "As regiões mais desmatadas são
a saída dos rios aéreos da Amazônia para o resto da América do Sul
Meridional", complementou.
Segundo
a investigação, por dia, a Amazônia libera na atmosfera 20 trilhões de litros
de água transpirada. Nobre compara a força das árvores aos gêiseres, nascentes
termais que lançam periodicamente jatos de água quente para o alto. Essa
transpiração, segundo o estudo, torna ainda mais valiosa a floresta (além da
sua vasta biodiversidade).
Tendência de mais desmatamento
Uma das soluções apresentadas pela pesquisa para evitar a descontinuidade no fluxo de umidade, e, desta forma, reduzir o agravamento da seca no Brasil, é zerar o desmatamento na Amazônia. No entanto, isso parece longe de acontecer. Levantamento apresentado este mês pela organização Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) apontou aumento de 191% no desmate da floresta em agosto e setembro de 2014, em relação ao mesmo bimestre de 2013.
Apesar
de o dado ser paralelo ao divulgado pelo governo, que usa os sistemas Deter e
Prodes, as informações mais atualizadas do próprio Deter, referentes a junho e
julho, apontaram aumento de 195% na perda de vegetação na comparação desses
períodos entre 2014 e 2013. Outro
ponto alarmante é que o Brasil não assinou na Cúpula do Clima, realizada pelas
Nações Unidas em setembro, um acordo criado para reduzir pela metade a perda de
florestas até 2020 e zerá-la até 2030.
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse na ocasião que o país não foi “convidado a se engajar no processo de preparação” da declaração. Em vez disso, segundo ela, o país recebeu uma cópia do texto da ONU, que pediu para aprová-lo sem a permissão de sugerir qualquer alteração. O Itamaraty acrescentou que o documento não é da ONU, mas dos países que o assinaram, e que o texto necessitava de melhorias, por isso o Brasil optou por não assinar.
Nobre
acredita que o governo brasileiro, ao não assinar a declaração das florestas,
desconhecia os termos presentes no atual relatório e tem “a esperança de que
tais argumentos serão absorvidos pelos negociadores".
No
trabalho, ele cita outras soluções para reverter a situação de crise na
Amazônia e suas consequências drásticas: popularizar os fatos científicos que
explicam a importância do bioma para o clima; reduzir as queimadas que atingem
a região; recuperar as áreas desmatadas com replantio de novas florestas; e
contar com "esforços de guerra" do governo e da sociedade para
financiar ações de preservação e conter o avanço da degradação. “O
diagnóstico é muito sério, as ameaças são reais e as soluções ainda estão ao
alcance para reverter este quadro”, finaliza o pesquisador.
Fonte: G1

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!