De acordo com o presidente, o cartel que foi formado durante as licitações de obras no Metrô é internacional.
O presidente do Metrô de São Paulo, Luiz Antonio Carvalho Pacheco, que
assumiu o cargo há pouco mais de dois meses, admitiu hoje (4) a existência de
cartel (acordo ilegal, firmado entre empresas para evitar a concorrência e
elevar preços de produtos e serviços) e falou que não teve interesse em ler as
denúncias sobre o Metrô. “Nunca tive acesso a essa documentação. E não tive
curiosidade”, disse Pacheco, acrescentando que a documentação envolvendo o
Metrô tem 1,6 mil páginas.
Pacheco
fez a declaração a deputados das comissões de Infraestrutura e de Comissão de
Transportes e Comunicações da Assembleia Legislativa de São Paulo que o ouviram
sobre as denúncias de formação de cartel, superfaturamento e pagamento de
propina a agentes públicos que envolvem o Metrô.
De
acordo com o presidente, o cartel que foi formado durante as licitações de
obras no Metrô é internacional. “Toda a área metroviária é uma área muito
fechada. São poucas empresas”, disse. Segundo ele, a indústria ferroviária no
país só foi formada há pouco tempo e, até então, quaisquer informações que
chegavam sobre infraestrutura ferroviária era fornecida pelas mesmas empresas
que formavam o cartel. “Se elas, por ventura, estivessem organizadas na forma
de um cartel internacional, as informações que nos chegam são as informações
que elas têm. Não existia outro parâmetro para que o Metrô ou a CPTM [Companhia
Paulista de Trens Metropolitanos] pudessem ter informações”.
Segundo
Pacheco, o parâmetro só começou a mudar quando as empresas coreanas, chinesas e
espanholas começaram a entrar no mercado brasileiro – o que, de acordo com ele,
fizeram com que os preços caíssem.
Além
de admitir a existência de cartel, Pacheco também admitiu que as empresas
vencedoras de contratos do Metrô tenham subcontratado as empresas que saíram
derrotadas das licitações. “No contrato específico da Linha 2-Verde, as
empresas que perderam os contratos foram subcontratadas. Isso é público”,
disse. Ele criticou os aditamentos (acréscimos ou alterações) que são feitos
aos contratos, como os que ocorreram em vários dos contratos que foram firmados
pela companhia. “Infelizmente, isso ocorre em contratos de forma geral. Mas
isso é uma praga. Não sei o que levou a esses aditamentos”.
De
acordo com Pacheco, a providência tomada pela companhia foi aprovar, por meio
da diretoria, que em todas as licitações a partir de agora seja proibido
subcontratar empresas que tenham participado do processo licitatório. O governo
paulista, de acordo com ele, também entrou com uma ação judicial contra a
Siemens pedindo o ressarcimento dos valores que foram desviados com as
licitações. Pacheco também disse que os contratos são atualmente objeto de
investigação dos órgãos competentes, tais como Ministério Público, Polícia
Federal, Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a corregedoria e
a procuradoria do governo estadual.
Segundo
Pacheco, a companhia mantém hoje quatro contratos em andamento com a Siemens
que estão sob investigação. Um deles, que se refere a uma licitação de sistema
de sinalização de trens e controle de alimentação elétrica para a Linha 2-Verde
do Metrô, está sendo investigado pelo Cade. O contrato, segundo ele, foi homologado
em abril de 2005. “É um contrato no valor de R$ 143,6 milhões. Ele foi
executado e hoje tem uma pendência de entrega de alguns equipamentos
sobressalentes e existe uma retenção de um saldo a pagar no valor R$ 1,2
milhão”, disse. No mesmo contrato, explicou, houve aditivos para aumentar o
prazo e também para acréscimo no valor do contrato da ordem de R$ 18 milhões.
Os
demais três contratos do Metrô com a Siemens, segundo o presidente do Metrô, se
referem à modernização de 25 trens, estabelecido em R$ 466 milhões, que ainda
está em fase de execução; à instalação de dez subestações (duas delas
entregues) e do pátio de manobra da Linha 1-Azul, de R$ 76 milhões, também em
fase de execução; e, por último, de fornecimento e implantação de um sistema de
alimentação elétrica auxiliar nas estações Vila Prudente e Oratório, estipulado
em R$ 88 milhões, assinado em agosto de 2012.
A
audiência com o presidente do Metrô foi bastante tumultuada. Teve início às
14h30 e terminou por volta das 19h10. O debate foi praticamente todo
concentrado entre os deputados do PT (oposição) e do PSDB (situação), que
chegaram a discutir aos gritos. O pedido de que fossem feitas cópias de
documentos que foram apresentados pelo presidente do Metrô gerou mais tempo de
discussão entre os deputados do que o tempo que foi destinado para que ele
explicasse sobre as irregularidades.
Os
deputados de oposição ao governo paulista tentam implantar uma comissão
parlamentar de inquérito (CPI) para investigar as denúncias de irregularidades
no Metrô. Até o momento, a oposição conseguiu obter 27 das 32 assinaturas
necessárias para a abertura da CPI. A maioria dos deputados da Alesp é aliada
ao governo paulista.
O
deputado estadual João Caramez, do PSDB, avalia que não é o momento para que
uma CPI seja aberta na Casa. “Nós, da situação, achamos que não é o momento
porque [o caso] está sendo investigado e não temos elementos suficientes para
poder fazer arguições”, disse.
De
acordo com Caramez, os deputados da base do governo paulista não são contra a investigação.
“Somos a favor [das investigações]. Se houve qualquer conluio, de algum agente
público, com certeza, será punido”, falou. Para ele, a Alesp está cumprindo o
seu papel por meio das comissões permanentes que têm convocado ou convidado
pessoas para falarem sobre o caso, embora estas não tenham o mesmo poder da
CPI.
O
presidente da Comissão de Infraestrutura da Alesp, o deputado Alencar Santana
Braga (PT), defende a criação de uma CPI na Casa. “O poder de investigação é
por meio de uma CPI. A comissão [permanente] pode fazer determinada apuração e
acompanhamento, mas não tem o poder de investigação das autoridades policiais
como a CPI tem”, disse.
Para
o deputado petista, a CPI deveria ser instaurada já. “Se este não é o momento,
qual é o momento? Se está mais do que latente as denúncias e se o próprio
presidente do Metrô assume que o cartel existiu, qual o momento melhor? Quem
fala o contrário, de fato não quer investigar”, disse Santana.
Fonte: Agência Brasil

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