Segundo os cálculos dessa contabilidade ambiental, a Terra está entrando “no vermelho da conta bancária da natureza” cada vez mais cedo. No ano passado, o Dia da Sobrecarga ocorreu em 22 de agosto. Em 2011, em 27 de setembro.
A cota de recursos naturais que a natureza poderia oferecer em 2013 se
esgotou na última terça-feira (20). A data, inclusive, assinalou o Dia da
Sobrecarga da Terra, marco anual de quando o consumo humano ultrapassa a
capacidade de renovação do planeta. O cálculo foi divulgado pela Global
Footprint Network (Rede Global da Pegada Ecológica), organização não
governamental (ONG) parceira da rede WWF.
O
levantamento compara a demanda sobre os recursos naturais empregados na
produção de alimentos e o uso de matérias-primas com a capacidade da natureza
de regeneração e de reciclagem dos resíduos, a chamada pegada ecológica (medida
que contabiliza o impacto ambiental do homem sobre esses recursos). Em menos de
oito meses, o consumo global exauriu tudo o que a natureza consegue repor em um
ano e, entre setembro e dezembro, o planeta vai operar no vermelho, o que causa
danos ao meio ambiente.
De
acordo com a Global Footprint Network, à medida que se aumenta o consumo,
cresce o débito ecológico, traduzido em redução de florestas, perda da
biodiversidade, escassez de alimentos, diminuição da produtividade do solo e o
acúmulo de gás carbônico na atmosfera. Essa sobrecarga acelera as mudanças
climáticas e tem reflexos na economia.
Segundo
os cálculos dessa contabilidade ambiental, a Terra está entrando “no vermelho
da conta bancária da natureza” cada vez mais cedo. No ano passado, o Dia da
Sobrecarga ocorreu em 22 de agosto. Em 2011, em 27 de setembro.
Para
o diretor executivo da Conservação Internacional, André Guimarães, a humanidade
vai pagar a conta desse consumo excessivo na forma de perda de qualidade de
vida, de mais pobreza e doenças, caso não mude esse quadro. “Esse ritmo de
consumo no longo prazo vai culminar na exaustão dos recursos naturais. Estamos
colocando nossa qualidade de vida e nosso futuro em risco. Se consumirmos em
excesso a natureza, em algum momento vamos ter que pagar essa conta na forma de
poluição, doenças, água menos disponível para nosso desenvolvimento e nosso
uso, pobreza e falta de alimentos”, disse Guimarães.
Para
o ambientalista, o desafio para as nações é achar uma maneira de se desenvolver
reduzindo a demanda pelo capital natural. “Assim conseguimos fechar a equação
de meio ambiente preservado e economia sustentável”.
Segundo
pesquisas da Global Footprint Network, os atuais padrões de consumo médio da
humanidade demandam uma área de um planeta e meio para sustentá-los. As
projeções indicam que se o estilo de vida continuar no ritmo atual, o homem
precisará de duas Terras antes de 2050.
Estudos
da ONG internacional mostram que, no início da década de 1960, a humanidade
empregou somente cerca de dois terços dos recursos ecológicos disponíveis no
planeta. Esse panorama começou a mudar na década seguinte, quando o aumento das
emissões de gás carbônico e a demanda humana por recursos naturais passaram a
exceder a capacidade de produção renovável do planeta.
Atualmente,
mais de 80% da população mundial vivem em países que usam mais recursos do que
seus próprios ecossistemas conseguem renovar. Os países devedores ecológicos já
esgotaram seus próprios recursos e têm de importá-los. No levantamento da
Global Footprint Network, os japoneses consomem 7,1 vezes mais do que têm e
seriam necessárias quatro Itálias para abastecer os italianos.
Nesse
panorama traçado pela Global Footprint Network, o Brasil aparece ao lado das
nações que ainda são credoras ambientais, com reservas naturais abundantes.
Esse quadro, porém, está mudando. O presidente da ONG, Mathis Wackernagel,
lembra que o país tem uma grande riqueza natural que está sob pressão devido ao
aumento populacional e aos padrões de consumo. “O Brasil precisa reconhecer sua
riqueza e como pode usá-la sem gastá-la. O capital natural vai se tornar cada
vez mais importante em um mundo com restrições de recursos”, disse Mathis, que
enfatiza a importância de se investir em energia solar e eólica.
Segundo
o diretor executivo da Conservação Internacional, o Brasil ainda tem abundância
de capital natural e espaço para crescer. “Os países desenvolvidos já ultrapassaram
o limite de consumo de matérias-primas naturais. Se todos os habitantes da
Terra tivessem o mesmo padrão de consumo dos norte-americanos, nós íamos
precisar de quase cinco planetas para dar conta das demandas da população. O
padrão de consumo dos países desenvolvidos desorganiza essa balança e o Brasil
está na posição intermediária caminhando a passos largos para ser um alto
consumidor de capital natural”, declarou André Guimarães.
Para
ambientalistas, a sociedade precisa repensar seu estilo de vida. Nesse
contexto, dizem, a educação e a informação são instrumentos importantes para
uma mudança de valores. De acordo com a secretária-geral do WWF-Brasil, Maria
Cecília Wey de Brito, cidadãos e governos têm papel fundamental na redução dos
impactos do consumo sobre os recursos naturais. “Políticas públicas voltadas
para esse fim, como a oferta de um transporte público de qualidade e menos
poluente, construção de ciclovias e o estímulo ao consumo responsável são
essenciais para reduzir a pegada ecológica”, disse Maria Cecília.
Ela
lembra que as pessoas podem fazer sua parte. Reduzir o desperdício de água e
energia, o consumo de carne bovina e de alimentos altamente processados, usar
mais transporte coletivo e adquirir produtos certificados são algumas das atitudes
recomendadas.
“É
importante que as pessoas se lembrem de que qualquer desperdício de energia,
por menor que pareça, está sendo feito às custas do planeta ao gastar mais
combustível fóssil.
Podemos fazer nossas escolhas lembrando que a Terra é finita,
como é a nossa conta no banco. A gente só tem esse planeta, por que não cuidar
dele?”, ressaltou a secretária-geral do WWF-Brasil.
Fonte: Agência Brasil

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