Casa dos destinos.
Dormia um sono reparador, não o dos justos, mas dos exauridos.
Acordou ainda zonzo, e na nesga permitida pelas suas pálpebras semicerradas deparou-se com um par de olhos intensos, expressivos, mesmo protegidos por lentes grossas que se sustentavam numa armação antiga.
Agora sim, passados alguns segundos, percebia com nitidez a figura de uma senhora sentada numa cadeira de balanço que estampava um sorriso honesto e ares de felicidade pelo seu acordar.
Perplexo por tudo, afinal não se lembrava daquele local e daquela senhora que exigia de alguém a bandeja de café.
Imediatamente, uma mocinha trazia com a maior presteza um desjejum digno de qualquer realeza e antes que retornasse ao local de onde viera, a cozinha, provavelmente, ele percebeu o cansaço da jovem e, também, da maquiagem que de fatigada se desfazia sem menor prurido naquele rostinho que não trazia quaisquer traços angelicais, comuns à idade.
A fome era devastadora, mas conteve o ímpeto de comer com a sofreguidão desejada, pois, aquela senhora começou avivar a sua memória que era um anseio superior à fome vivenciada. Chegara numa noite de tempestade, sozinho e mesmo pelo avançar da hora fora o único a adentrar as portas daquela casa para a frustração das outras mulheres.
Numa tentativa para perguntar algo, engoliu uma fatia de pão que causou um fatídico engasgo que foi resolvido por batidas providenciais em suas costas e por um gole de suco de laranja natural.
Aquela senhora num gesto típico de pedido de silêncio, colocando o indicador sobre os lábios carnudos e despudoradamente pintados por um batom vermelho vivo, continuou: já se passaram três semanas de sua chegada, e todos os seus pertences estão sobre aquele criado-mudo, os documentos, o dinheiro e a única coisa que tentamos mexer foi com a sua memória que não acusa as mínimas reminiscências do seu passado.
Ao ouvir o último comentário, a sua fome e a sua esperança desapareceram.
Aquela senhora abriu a porta de um armário modesto e mostrou roupas novas e recomendou que tomasse um banho e que depois fosse à sala principal da casa, pois, aquele horário exigia a sua presença para ciceronear os convidados e saiu.
Quarenta minutos depois chegava àquela sala espaçosa, impregnada de fumaça de cigarros, cigarrilhas e de um ar ainda mais prostituído pelo cheiro de múltiplas bebidas, algumas de qualidades suspeitas, além de mulheres de vários tipos e gostos, na estatura, no peso, na idade, na etnia, tendo em comum, apenas, peças de roupas insinuantes e diminutas.
Todas, ao vê-lo, vieram em sua direção e o cobriram de carinhos, além de poucas, mas de sinceras palavras.
Retribuiu as considerações de forma, também, respeitosa e caminhou em direção a um jardim.
Acendeu um cigarro e ficou observando a evolução da fumaça expelida até ao seu desaparecimento total, e, após breves minutos daquela contemplação, a sua memória começou a ressurgir lentamente.
Os fragmentos da memória tornaram a formar um todo, a bem da verdade, triste, deplorável, mas era a sua vida.
Não tinha parentes e fora demitido, após anos de serviços prestados a uma empresa. Em depressão procurara refúgio nos institutos públicos que o levaram a uma piora substantiva pela desídia do sistema. Na ausência de um caminho, andara por atalhos e chegara naquela casa em estado lastimável. Imediatamente, os rostos daquelas mulheres que há pouco tempo o beijaram, evoluíram para as palavras que ouvira delas, em locais e tempos distintos.
Uma lágrima solitária avançou despudoradamente em uma de suas faces, num tributo aquelas mulheres desafortunadas que nesses dias desmemoriados, externaram um carinho desmedido e desinteressado, o estimulando a superar seu drama, pois a vida, segundo a percepção delas, merecia ser vivida na sua inteireza, mesmo que fosse apenas, e tão somente, aquela vivenciada no mundo interior.
Entendeu a dimensão daquela casa de destinos (prostíbulo), onde a sociedade desgraçadamente estigmatiza aquelas mulheres com as iras próprias de deuses dos psicopatas.
Não fosse suficiente essa ignomínia, os freqüentadores daqueles corpos, por pagarem, as vêem como as escarradeiras do passado, depositando os fluídos de seus instintos primitivos, esquecendo que debaixo daquelas vidas desnudadas, existem seres que por circunstâncias adversas ou favoráveis foram impingidas a sobreviverem daquela forma, mas que merecem independentemente das boçalidades vigentes, o devido respeito.
Hoje, completamente restaurado dos incidentes de memória, dedica grande parte de suas atividades profissionais como advogado defendendo essas criaturas contra todos os sortilégios da vida, elevando-as sempre da condição de indivíduos à de cidadãs.

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