As eleições de 4 de outubro deixaram um recado importante para Rio das Ostras. O município tem eleitorado expressivo, lideranças políticas, candidatos da própria cidade e capacidade de mobilizar milhares de votos. Mesmo assim, terminou a disputa sem eleger um representante local para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) ou para a Câmara dos Deputados.
Na disputa por uma cadeira na Alerj, Rodrigo da
Aposentadoria (PDT) foi o candidato mais votado em Rio das Ostras, com 6.884
votos. O resultado demonstrou sua força eleitoral no município, mas não foi
suficiente para garantir uma vaga no Legislativo estadual. Em todo o estado,
ele recebeu 8.919 votos e ficou como suplente.
Na disputa federal, Maurício BM (PSDB) liderou a votação
municipal entre os candidatos a deputado federal, com 4.766 votos em Rio das
Ostras, mas também ficou como suplente. Já Kátia Macillo (PT), candidata a
deputada estadual, recebeu 1.099 votos no município e somou 4.289 em todo o
estado, sem conquistar uma cadeira. Os resultados mostram que houve espaço para
candidaturas locais, mas não uma votação suficiente para transformá-las em
representação parlamentar.
Enquanto isso, Macaé conseguiu eleger Márcio Rezende (PSD)
para a Câmara Federal, com 75.148 votos no estado, e Chico Machado (PL) para a
Alerj, com 50.664 votos. Os dois resultados reforçam a presença política de
Macaé no cenário estadual e nacional. Diante desse contraste, uma pergunta
precisa ser feita: por que Rio das Ostras não conseguiu transformar suas
candidaturas locais em mandatos?
A força eleitoral e as diferentes correntes políticas
O desempenho dos candidatos de Rio das Ostras revela um
cenário político plural, com diferentes partidos, posicionamentos ideológicos e
projetos. Rodrigo da Aposentadoria concorreu pelo PDT, Maurício BM pelo PSDB e
Kátia Macillo pelo PT. Não se trata apenas de siglas partidárias, mas de
trajetórias, bases eleitorais e maneiras distintas de se posicionar no debate
público.
Historicamente, o PT é identificado com a esquerda, enquanto
o PDT tem raízes trabalhistas e costuma ser situado na centro-esquerda. O PSDB,
por sua vez, é geralmente classificado como um partido de centro ou centro-direita,
embora seus posicionamentos e alianças tenham variado ao longo do tempo.
Essa distinção ajuda a compreender o cenário, mas não
explica sozinha o comportamento do eleitor. A credibilidade de um candidato
também está relacionada à sua atuação na cidade, à proximidade com os
moradores, à capacidade de apresentar propostas e à confiança que consegue
construir durante sua trajetória política.
Rodrigo da Aposentadoria alcançou a maior votação municipal
para deputado estadual. Maurício BM liderou entre os candidatos a deputado
federal. Kátia Macillo também obteve votos que demonstram a existência de uma
base eleitoral local. Entretanto, nenhum desses resultados se converteu em
mandato.
É preciso reconhecer o mérito eleitoral de cada candidatura
sem confundir votação municipal com eleição garantida. Nas eleições
proporcionais, o resultado depende também do desempenho partidário e das regras
de distribuição das cadeiras. O candidato mais votado individualmente em um
município não necessariamente será eleito.
A política local e o desafio de construir consenso
A ausência de representantes próprios na Alerj e na Câmara
Federal reacende uma discussão antiga: Rio das Ostras consegue construir um
projeto político que ultrapasse os interesses individuais e as disputas entre
grupos?
A cidade já teve representantes locais na política estadual,
entre eles Carlos Augusto Balthazar e Alcebíades Sabino, que também ocuparam a
Prefeitura. A experiência histórica mostra que Rio das Ostras já contou com
lideranças que chegaram à Alerj. A questão atual é compreender por que o
município não conseguiu repetir esse resultado em 2026.
A falta de consenso entre as lideranças é uma hipótese que
merece ser examinada. A fragmentação das candidaturas, a divisão dos apoios e
as disputas internas podem ter contribuído para o cenário, mas não devem ser
tratadas como a única explicação sem uma análise mais ampla dos resultados e
das estratégias eleitorais.
Não se espera que vereadores, partidos e lideranças
municipais pensem da mesma maneira. A democracia depende justamente da
pluralidade de ideias. Entretanto, divergências partidárias não deveriam
impedir a construção de compromissos mínimos em torno de pautas importantes
para a população.
A pergunta que fica é se a cidade tem conseguido transformar
suas diferenças políticas em uma estratégia de representação ou se os projetos
individuais acabam prevalecendo sobre a possibilidade de construir uma força
eleitoral mais articulada.
Rodrigo da Aposentadoria e as divergências nos bastidores
Outro episódio que merece atenção envolve as relações
políticas na Câmara Municipal. Nos bastidores, circulou uma interpretação
segundo a qual o voto de Rodrigo da Aposentadoria contra a composição da nova
Mesa Diretora teria relação com a falta de apoio de vereadores à sua
candidatura a deputado estadual.
Essa versão precisa ser examinada com responsabilidade. Para
estabelecer uma relação entre os episódios, é necessário confirmar a votação,
ouvir o vereador e os demais envolvidos e verificar se houve manifestações
públicas que sustentem essa interpretação.
A política municipal é feita de alianças, divergências e
negociações. O problema surge quando disputas internas passam a ocupar o espaço
que deveria ser dedicado à construção de soluções para a cidade.
Se houve divergência em torno de apoios eleitorais, a
população tem o direito de conhecer os fatos e compreender os motivos
apresentados pelos envolvidos. O jornalismo, por sua vez, tem o dever de apurar
os acontecimentos sem transformar relatos de bastidores em conclusões
definitivas.
Mais importante do que apontar culpados é discutir como as
lideranças podem superar divergências e estabelecer compromissos que beneficiem
a população, independentemente de quem ocupe a Mesa Diretora ou dispute uma
eleição.
Os candidatos de fora e a responsabilidade de quem
recebeu votos
Outro aspecto importante do pleito foi o apoio de lideranças
municipais a candidatos de outras cidades. Vereadores e outros agentes
políticos podem apoiar livremente os nomes que consideram mais preparados para
representar seus interesses e os da população.
A questão não é de onde vem o candidato, mas o que ele fará
depois de eleito. Um deputado estadual representa a população fluminense, e um
deputado federal exerce seu mandato em âmbito nacional. Ambos têm condições de
atuar em favor de Rio das Ostras, mesmo que suas bases políticas estejam em
outros municípios.
O eleitor, porém, precisa acompanhar se os compromissos
assumidos durante a campanha se transformarão em resultados concretos. Obras,
investimentos, recursos destinados ao município, articulação por melhorias nos
serviços públicos e presença efetiva no debate regional são aspectos que podem
ser cobrados ao longo dos mandatos.
Não basta aparecer em Rio das Ostras durante o período
eleitoral, apresentar realizações de anos anteriores ou prometer novas
conquistas. É necessário demonstrar, com transparência, o que foi feito, quais
recursos foram destinados à cidade e quais resultados chegaram efetivamente à
população.
Aos vereadores e demais lideranças que apoiaram candidaturas
externas, cabe também acompanhar a atuação dos eleitos e prestar contas aos
moradores sobre os compromissos que ajudaram a construir.
O voto recebido em Rio das Ostras não deve ser tratado como
uma conquista que termina no dia da eleição. Ele representa uma expectativa de
trabalho e uma oportunidade de construir uma relação permanente com o
município.
O legado eleitoral precisa chegar à população
O resultado das urnas também deixa um legado para os
próprios candidatos que não conquistaram mandato. A votação obtida pode
representar uma base política para projetos futuros, mas isso dependerá da
capacidade de manter o diálogo com a população e participar da vida pública
para além do calendário eleitoral.
Uma candidatura não deve servir apenas para tornar um nome
conhecido, ampliar sua visibilidade ou preparar o terreno para disputas
futuras. Apresentar-se ao eleitor implica assumir compromissos, expor propostas
e demonstrar disposição para contribuir com a sociedade.
É legítimo que candidatos construam suas trajetórias
políticas e pensem em novas disputas. O que precisa ser questionado é quando a
exposição eleitoral se sobrepõe à apresentação de propostas consistentes e ao
compromisso com as necessidades da população.
Para Rio das Ostras, o desafio é transformar a experiência
de 2026 em aprendizado. Isso exige avaliar as estratégias adotadas, compreender
os limites das candidaturas, discutir a distribuição dos apoios e buscar formas
de fortalecer a representação política do município.
A cidade precisa de investimentos em saúde, educação,
saneamento, infraestrutura, mobilidade urbana, acessibilidade e serviços
públicos. Essas demandas não desaparecem quando termina a campanha eleitoral.
Pelo contrário, tornam ainda mais importante acompanhar os mandatos e cobrar
resultados.
Rio das Ostras precisa transformar votos em resultados
O resultado eleitoral não significa que Rio das Ostras
esteja condenada a permanecer sem representantes locais. Significa que a cidade
precisa avaliar o caminho percorrido e discutir como poderá ampliar sua
presença política nas próximas disputas.
Não é necessário que todas as lideranças estejam no mesmo
partido, defendam a mesma ideologia ou apoiem o mesmo candidato. O que se
espera é que sejam capazes de dialogar sobre prioridades comuns, respeitar as
diferenças e construir compromissos que ultrapassem os interesses individuais.
Aos candidatos locais, fica o desafio de demonstrar que a
votação recebida pode se transformar em participação política permanente. Aos
vereadores e às demais lideranças, cabe acompanhar os representantes que
apoiaram. Aos deputados eleitos que receberam votos dos moradores, fica a
responsabilidade de mostrar que Rio das Ostras continuará sendo considerada
depois das eleições.
Aos eleitores, cabe acompanhar, questionar e cobrar. A
democracia não termina quando as urnas são fechadas. É justamente a partir dali
que começa o acompanhamento daqueles que receberam a confiança popular.
Rio das Ostras tem população, demandas e capacidade de
mobilização suficientes para ocupar um espaço importante no debate regional. O
que precisa ser construído é uma articulação política capaz de transformar essa
força em resultados concretos.
No fim, a pergunta mais importante não é apenas quem ganhou,
quem perdeu ou qual partido saiu fortalecido. A questão central é o que Rio das
Ostras ganhará com os votos depositados nas urnas.
Porque o verdadeiro legado de uma eleição não está somente
nos mandatos conquistados, mas nos benefícios que chegam à população.
E a cobrança precisa continuar muito depois de encerrada a
campanha.

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