07/08/2026

Violência contra a mulher cresce no Rio de Janeiro em 20 anos da Lei Maria da Penha

Violência contra a mulher cresce no Rio de Janeiro em 20 anos da Lei Maria da Penha
Imagem gerada com IA

O estado do Rio de Janeiro registrou um preocupante aumento em quatro dos cinco índices de violência contra a mulher, conforme dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), justamente quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos de sua criação, neste 7 de agosto. A situação acende um alerta para a Região dos Lagos, Macaé e todo o Norte Fluminense.

Apesar do marco legal que visa proteger as vítimas, as estatísticas de 2024 a 2025 mostram um cenário desafiador. A violência sexual, em particular, apresentou o maior crescimento percentual, indicando que a luta contra esses crimes ainda enfrenta barreiras significativas no interior do RJ.

Aumento da violência contra a mulher no Rio de Janeiro

Os números divulgados pelo ISP são alarmantes e revelam a persistência da violência. Entre 2024 e 2025, a violência moral saltou de 37.571 para 38.819 registros, um crescimento de 3,2%. A violência patrimonial também subiu, passando de 8.334 para 8.492 casos, uma alta de 1,9%. Já a violência psicológica teve um aumento de 3,21%, indo de 47.473 para 48.999 ocorrências.

O índice mais preocupante é o da violência sexual, que cresceu 4,1%, de 8.339 para 8.681 registros, o maior percentual de alta entre todos os tipos de agressão. A única categoria que apresentou queda foi a violência física, com uma redução de 1%, de 43.743 para 43.307 registros no período. Todos esses dados estão disponíveis na plataforma ISP Mulher, que monitora a situação em todo o estado do Rio de Janeiro.

Os desafios da fiscalização e o impacto da Lei Maria da Penha

A Lei Maria da Penha, que celebra duas décadas de existência, é um pilar fundamental na proteção das mulheres, mas sua aplicação ainda enfrenta obstáculos. A atriz e jornalista Cristiane Machado, um símbolo dessa batalha, vivenciou a realidade da violência em 2018, quando suas agressões pelo ex-marido, o empresário Sérgio Schiller Thompson-Flores, vieram a público. Ele foi condenado a três anos de prisão em regime semiaberto em setembro de 2019, um desfecho que, para muitas, ainda é difícil de alcançar.

Em entrevista, Cristiane Machado aponta que a vergonha e o medo ainda são os maiores impedimentos para as mulheres denunciarem. “É necessário ter mais do que coragem para seguir adiante no enfrentamento à violência doméstica. Pois muitas têm medo do agressor sob dois pontos de vista. O primeiro é o temor de continuar viva e estar ao lado do agressor. E o outro é o que vai acontecer com ela depois que a denúncia for feita”, explica. Ela ressalta o receio de que brechas legais permitam a impunidade do agressor.

Passados oito anos de seu caso, Cristiane elogia a Lei Maria da Penha, que a salvou, mas critica a falha na fiscalização. “A Lei Maria da Penha é muito boa. Eu fui salva graças a ela. Mas, infelizmente, ainda é muito falha na fiscalização. Isso é uma coisa que deixa as mulheres vulneráveis”, afirma. Ela defende a necessidade de equipes policiais dedicadas a fiscalizar o cumprimento de medidas protetivas e um maior preparo de juízes, assistentes sociais e psicólogos que atuam com as vítimas.

A atriz foi pioneira no uso do “botão do pânico” no Rio, uma ferramenta criada em 2019 pela Polícia Militar que conecta a vítima a uma central de monitoramento, acionada pela aproximação do agressor que usa tornozeleira eletrônica. Contudo, a efetividade da resposta ainda é um ponto de preocupação para quem vive sob a ameaça constante em cidades como Rio das Ostras e Macaé.

Boxe como ferramenta de empoderamento e defesa pessoal

Em meio a esse cenário desafiador, iniciativas de empoderamento e autodefesa surgem como um farol de esperança. A professora de boxe Ana Lúcia Moreira, da academia Boxe Fit, na Taquara, percebeu que muitas de suas alunas buscavam mais do que apenas condicionamento físico. Ela criou turmas exclusivas para mulheres, focando na superação do medo e na capacidade de reação.

Anallu, como é conhecida, explica que o método vai além dos socos. “O foco principal é a consciência situacional e a capacidade de reação rápida antes mesmo que o contato físico aconteça”, comenta. As aulas utilizam sacos de pancada e bonecos de silicone, sem sparring, para que as alunas desenvolvam técnicas de defesa pessoal e ganhem confiança.

Um caso marcante foi o de uma aluna que, após sofrer agressões do ex-marido, conseguiu se defender e fugir graças aos ensinamentos. “Ela me contou que só conseguia pensar nos golpes dos exercícios. Então se defendeu, conseguiu se livrar dele e fugiu”, recorda Ana Lúcia, destacando a importância de desenvolver a autoconfiança e a capacidade de reação em momentos críticos. Essa história ressoa com muitas mulheres na Região dos Lagos e em outras áreas do Interior do RJ que buscam formas de se proteger.

Além dos movimentos físicos, Ana Lúcia também orienta sobre aspectos comportamentais, como a identificação de um potencial agressor, o uso do espaço, o tempo de reação e a imposição da voz. “Trabalhamos o limite corporal e a imposição de voz”, finaliza, reforçando a importância de uma abordagem completa para a segurança feminina.

O Rio das Ostras Jornal continuará acompanhando os desdobramentos e as iniciativas de combate à violência contra a mulher em Rio das Ostras, Macaé e em toda a Região dos Lagos.

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