14/08/2026

Litoral do Rio de Janeiro pode abrigar novo berçário vital para tubarões

Litoral do Rio de Janeiro pode abrigar novo berçário vital para tubarões
Imagem gerada com IA

Uma descoberta significativa no litoral sul do Rio de Janeiro aponta para a possível existência de um novo berçário para três espécies de tubarão, um achado que pode redefinir estratégias de conservação marinha em toda a costa fluminense, incluindo a Região dos Lagos e o Norte Fluminense. Pesquisadores do Instituto PROSHARK e colaboradores registraram, pela primeira vez, fêmeas grávidas dessas espécies no complexo estuarino Ilha Grande–Sepetiba.

Os dados, coletados entre 2006 e 2024 e publicados na prestigiada Brazilian Journal of Biology, sugerem que a área serve como um refúgio crucial e um local de reprodução para esses animais. A identificação de tubarões em diferentes estágios de gestação reforça a hipótese de que a região desempenha um papel fundamental no ciclo reprodutivo dessas espécies.

Descoberta de fêmeas grávidas no complexo Ilha Grande–Sepetiba

O estudo revelou a presença de seis fêmeas grávidas no complexo Ilha Grande–Sepetiba. Foram documentadas duas fêmeas de tubarão-rotador (Carcharhinus brevipinna), duas de tubarão-galha-preta (Carcharhinus limbatus) e duas de tubarão-mangona (Carcharias taurus). Esses registros foram feitos tanto na Baía de Ilha Grande quanto na Baía de Sepetiba, abrangendo áreas marinhas protegidas ou suas proximidades.

A presença de fêmeas em variados estágios de gestação é um forte indicativo de que a região é utilizada de forma contínua para a reprodução. No entanto, a confirmação definitiva de um berçário requer investigações adicionais, incluindo a localização de filhotes recém-nascidos e juvenis, além do monitoramento de seus movimentos ao longo do tempo para entender o uso do habitat.

Metodologia da pesquisa e os indícios de fidelidade

A pesquisa foi estruturada a partir de uma combinação de registros de capturas incidentais, ocorridas durante atividades de pesca artesanal, e de ações de monitoramento científico. Essa abordagem permitiu aos pesquisadores coletar dados valiosos sobre a presença e o estado reprodutivo dos tubarões. Um dos animais foi inclusive acompanhado por telemetria satelital, uma técnica avançada que rastreia os deslocamentos do tubarão, fornecendo informações cruciais sobre seu comportamento.

Os animais recolhidos passaram por necropsias detalhadas, realizadas em parceria com o Laboratório de Chondrichthyes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesses exames, foram avaliados o número de embriões, o conteúdo dos sacos vitelínicos e o estágio de desenvolvimento, permitindo identificar fêmeas em diferentes fases da gestação. Um dos indícios mais convincentes, segundo o estudo, é a repetição de registros de fêmeas grávidas de tubarão-galha-preta em períodos semelhantes ao longo de diversos anos, um padrão de fidelidade ao local que é comumente associado a áreas de berçário.

A bióloga Fernanda Lana, presidente do Instituto PROSHARK e autora responsável pelo estudo, enfatiza a relevância da descoberta: “Mais do que registrar fêmeas grávidas de três espécies diferentes de tubarões, este estudo mostra que elas utilizam a região em diferentes fases da gestação, reforçando que o complexo Ilha Grande-Sepetiba pode desempenhar um papel fundamental ao longo de todo o ciclo reprodutivo desses animais”.

Importância ecológica e os desafios da conservação marinha

O complexo Ilha Grande-Sepetiba, que se estende por aproximadamente 60 quilômetros do litoral sul fluminense, abrange uma área de cerca de 3,1 mil km² e oferece uma rica diversidade de ambientes, como praias arenosas, costões rochosos, ilhas e manguezais. Essa variedade de habitats, combinada com águas costeiras rasas e protegidas, temperaturas adequadas e abundante disponibilidade de alimento, cria condições ideais para a reprodução e o desenvolvimento inicial dos filhotes de tubarão, aumentando suas chances de sobrevivência.

A região já possui reconhecimento internacional por sua importância ecológica. A enseada de Piraquara de Fora, na Baía de Ilha Grande, foi classificada como uma Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), devido à agregação de tubarões-galha-preta no local. Além disso, o complexo abriga duas áreas marinhas protegidas: a ESEC Tamoios, criada em 1990 entre Angra dos Reis e Paraty, e a Área de Proteção Ambiental Marinha Boto-Cinza, estabelecida em 2015 em Mangaratiba.

Apesar da proteção formal, o complexo enfrenta pressões significativas decorrentes da ocupação humana e de atividades econômicas. A urbanização, a presença de usinas nucleares, terminais de petróleo, portos e instalações industriais, bem como a pesca comercial e artesanal, são fatores que impactam os ecossistemas locais. Embora as três espécies de tubarão identificadas não estejam classificadas como extintas, elas apresentam diferentes níveis de ameaça e são vulneráveis à pesca excessiva e à degradação de seus habitats costeiros.

A reprodução lenta dessas espécies, como a gestação de 10 a 12 meses do tubarão-galha-preta e do tubarão-rotador, e a estratégia reprodutiva peculiar do tubarão-mangona (que envolve o consumo de embriões e óvulos não fertilizados no útero), torna a proteção de suas áreas reprodutivas ainda mais crítica para a manutenção das populações. A pesquisa reforça a urgência de medidas de conservação eficazes para preservar esses ecossistemas marinhos vitais.

O Rio das Ostras Jornal acompanha as iniciativas de conservação marinha na Região dos Lagos e em todo o litoral fluminense.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!