
A recente postura do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, sob a liderança de Kevin Warsh, provocou uma onda de incertezas nos mercados globais. A decisão de manter as taxas de juros inalteradas, aliada à falta de sinalizações claras sobre a política monetária futura, resultou em uma forte venda de títulos do Tesouro americano, os Treasuries.
Essa movimentação, observada nos últimos dias, levou os rendimentos dos Treasuries de 30 anos a atingirem 5,27%, o maior nível desde abril de 2007. Os títulos de 10 anos também alcançaram 4,74%, patamar não visto desde outubro de 2024. A escalada começou após declarações de Warsh reforçando a meta de inflação de 2%, mas sem medidas concretas para alcançá-la. Analistas da Região dos Lagos e do Norte Fluminense acompanham de perto esses movimentos, que podem influenciar o cenário econômico global e, por extensão, o Brasil, impactando desde o câmbio até o custo de investimentos locais.
Credibilidade do Fed sob questionamento
Especialistas apontam que a disparada dos rendimentos dos títulos de longo prazo reflete um questionamento da credibilidade do Banco Central dos EUA. A postura do Fed diante de uma inflação ainda acima da meta de 2% tem gerado dúvidas. Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue, afirmou que “o que entrou no preço foi a ‘credibilidade’ do Fed no combate à inflação”. O mercado questiona a decisão de Warsh de não elevar os juros em julho, mesmo com a inflação elevada e incertezas sobre novos choques de preços, como o conflito no Irã.
Além da questão de credibilidade, o prêmio da curva de juros também incorpora o forte crescimento econômico dos últimos anos, o que eleva o juro neutro necessário para equilibrar o balanço do Fed. A inflação, por enquanto, permanece em segundo plano, já que as expectativas não estão desancoradas. O ING ressaltou que o Fed não atinge sua meta de inflação há cinco anos, e uma alta de juros serviria para reforçar o compromisso do novo presidente com o combate à inflação, ajudando a ancorar os juros dos Treasuries de longo prazo.
Bruno Shahini, especialista de investimentos da Nomad, avalia que Kevin Warsh ainda não enfrenta uma perda total de credibilidade, mas o mercado testará se o discurso mais duro será acompanhado por ações concretas. “O mercado vai ficar criterioso e acompanhar mais de perto os movimentos de Washington nas próximas reuniões”, disse Shahini, sugerindo que o discurso precisa se traduzir em medidas efetivas.
Fatores fiscais e técnicos impulsionam Treasuries
Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP, destaca que o movimento dos Treasuries também está associado a fatores fiscais. A abertura da curva longa reflete a combinação de inflação acima da meta, expectativa de juros elevados por mais tempo, aumento do risco fiscal e um prêmio adicional relacionado à confiança dos investidores na condução da política monetária. A deterioração fiscal dos EUA, com um déficit orçamentário de cerca de US$ 1,37 trilhão no ano fiscal de 2026, é uma das principais preocupações.
Shahini, da Nomad, complementa que o governo norte-americano tem aumentado a emissão de títulos para financiar o crescimento dos déficits e o elevado nível de endividamento, ampliando a oferta de papéis no mercado. Há também uma disputa crescente por recursos de longo prazo entre o setor público e empresas privadas, especialmente as ligadas à inteligência artificial, que demandam capital para investimentos em tecnologia. Essa combinação de maior oferta de Treasuries, forte demanda por capital privado e vendas relevantes de títulos por investidores estrangeiros adicionou pressão sobre a curva de juros norte-americana.
Um fator técnico recente que coincidiu com a disparada dos Treasuries foi a intervenção do Japão no câmbio, coordenada com o Tesouro dos Estados Unidos pela primeira vez desde junho de 1998. Projeções indicam que as intervenções entre os dias 30 e 31 de julho podem ter totalizado cerca de US$ 80 bilhões. Para segurar a cotação do iene, o governo japonês precisa aumentar a oferta de dólares. Embora o Japão seja o maior detentor estrangeiro de Treasuries, Fernando Saad explica que o Banco do Japão utilizou os títulos como garantia para obter dólares, em vez de vendê-los diretamente, minimizando o impacto. No entanto, o receio dos investidores antes da operação pode ter contribuído para a abertura dos rendimentos. Saiba mais sobre o impacto dos juros longos dos EUA.
O Rio das Ostras Jornal acompanha o cenário econômico global e seus reflexos para a nossa região.
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