
O futuro da interação humana com a tecnologia está em um ponto de inflexão, e para Adam Cheyer, um dos visionários por trás da Siri, a próxima grande revolução não virá dos atuais modelos de linguagem (LLMs) como o ChatGPT, mas sim da realidade aumentada. Em uma entrevista exclusiva à Forbes Brasil, o engenheiro americano, com um currículo que inclui a criação da Viv Labs (base do Bixby da Samsung) e a venda de sua startup mais recente, a GamePlanner.AI, para o Airbnb, compartilha sua visão crítica sobre o estado atual da inteligência artificial e faz uma audaciosa previsão para um mundo sem telas até 2035.
Cheyer, conhecido por apostar em tecnologias que moldarão o futuro, e não apenas no que está em evidência, provoca o debate ao afirmar que, em muitos aspectos, assistentes como a Siri e a Viv já eram mais “agênticas” do que a maioria dos sistemas de IA baseados em LLMs de hoje. Ele destaca a capacidade desses assistentes pioneiros de realizar tarefas transacionais complexas, um domínio onde os LLMs ainda engatinham, segundo sua análise.
A Visão de Adam Cheyer sobre a Evolução dos Agentes de IA
Para Adam Cheyer, a distinção entre os assistentes que ele ajudou a criar e os atuais LLMs é clara. A Siri original, antes de ser integrada ao iPhone, orquestrava dezenas de serviços parceiros em uma experiência conversacional e gráfica unificada. Usuários podiam, por exemplo, chamar um táxi ou fazer uma reserva em restaurante com comandos simples, algo que exigia a coordenação de múltiplos serviços em tempo real. A plataforma era extensível, permitindo a adição dinâmica de novos serviços.
A Viv Labs, por sua vez, levou essa capacidade ainda mais longe, introduzindo uma interface de usuário verdadeiramente adaptativa. Em vez de apenas texto, a Viv gerava automaticamente uma interface apropriada para qualquer dispositivo, e foi pioneira ao criar dinamicamente código executável para atender a solicitações inéditas dos usuários. Diante de um pedido complexo, a Viv sintetizava um programa que orquestrava serviços independentes em milissegundos, uma velocidade e flexibilidade que superam a maioria dos LLMs atuais.
Cheyer argumenta que muitos dos conceitos hoje associados aos “agentes de IA” – como uso de ferramentas, orquestração de serviços, memória, personalização, extensibilidade, planejamento dinâmico e execução transacional – já eram pilares da Siri e da Viv há mais de uma década. Ele questiona a superioridade do ChatGPT em tarefas práticas, exemplificando: “Com a Siri eu posso dizer ‘Hey Siri, avise a minha esposa que vou me atrasar’ e a Siri envia uma mensagem para ela. O ChatGPT faz isso?”.
Além das limitações em ações e transações, Cheyer aponta falhas na interface dos LLMs, que se restringem a texto e, ocasionalmente, carrosséis de imagens, insuficientes para aplicações ricas como o planejamento de viagens, que demandam detalhes visuais, mapas e calendários. Ele também destaca a ausência de um modelo de negócios claro para o ecossistema da IA atual, questionando como a monetização e a imparcialidade das recomendações serão garantidas, algo que a web e a era mobile já haviam estabelecido.
Realidade Aumentada: A Próxima Revolução Pós-Telas em 2035
A previsão mais ousada de Adam Cheyer é que, até 2035, a realidade aumentada (AR) substituirá todas as telas que hoje dominam nossa vida – de smartphones e televisões a painéis de LED. Essa projeção se baseia em sua “Teoria do 10+”, um padrão que ele observou nas grandes mudanças de interação com computadores ao longo das décadas.
Segundo Cheyer, o computador pessoal surgiu em 1984. Em 1995 (10+1 anos depois), vieram os navegadores web. Em 2007 (10+2 anos depois), os smartphones e, em 2008, a App Store, que escalou a computação móvel. Sua previsão para 2021 (10+3 anos após 2008) foi o surgimento de assistentes de IA conversacionais, o que se concretizou com o lançamento do GPT 3.0 em 2020 e do ChatGPT em 2022, validando sua tese.
Seguindo esse padrão, a próxima grande transformação, 10+4 anos após 2021, ocorrerá em 2035. Será o ano em que dispositivos como óculos ou lentes de contato de realidade aumentada projetarão imagens digitais diretamente no campo de visão do usuário, permitindo interação como se fossem objetos reais. Embora o mercado de óculos inteligentes ainda seja incipiente, focado em gravação e áudio, e dispositivos como o Apple Vision Pro ainda sejam pesados e com bateria limitada, Cheyer os vê como precursores da tecnologia que se tornará mainstream em 2035.
Ele traça um paralelo com a Siri, que introduziu a ideia de conversar com dispositivos, mas só foi refinada para adoção em massa pelo ChatGPT uma década depois. Da mesma forma, Oculus e Apple Vision Pro são a “prole” de uma nova geração de dispositivos de AR que, em sua visão, transformarão radicalmente nossa interação com o mundo digital. Para mais detalhes sobre essa entrevista, você pode consultar a Forbes Brasil.
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