23/07/2026

Torresmo de Piraí: de vilão a petisco reabilitado com a volta de Pezão

Torresmo de Piraí: de vilão a petisco reabilitado com a volta de Pezão
Reprodução Diariodorio

Em Piraí, cidade do interior do Rio de Janeiro, a trajetória política de Luiz Fernando Pezão, ex-governador e atual prefeito, se entrelaça com a história de um petisco tradicional: o torresmo. Após um período de desafios pessoais e políticos, Pezão reassumiu a prefeitura em janeiro de 2025, e, em um paralelo inusitado, o torresmo, antes visto como um inimigo da saúde, começa a ter sua reputação reavaliada pela ciência.

A volta por cima de Pezão, eleito com 58,58% dos votos válidos, marca não apenas seu retorno ao cargo que já ocupou por dois mandatos, mas também o ressurgimento de um ícone gastronômico local. Para muitos na região, a notícia da “reabilitação” do torresmo chega com um sabor de justiça histórica, dada a profunda ligação do político com o crocante petisco.

A Ligação Histórica de Pezão com o Torresmo

A relação entre Pezão e o torresmo de Piraí é antiga e bem conhecida. O jornalista Juarez Becoza, em reportagem de 2024, detalhou a história do “Rei do Torresmo”, bar de Geraldo Teixeira, o Seu Geraldo. Este estabelecimento se tornou um ponto de encontro lendário na cidade, famoso por seu torresmo de barriga de porco, pururucado na própria banha e servido com limão, cerveja e cachaça.

Pezão frequentava o bar desde seus tempos de vereador, nos anos 80, muito antes de se tornar uma figura proeminente na política fluminense. A intimidade era tanta que o local ganhou o apelido de “Botequim do Pezão”, servindo como um gabinete político informal onde o então governador realizava reuniões, encontros de campanha e confraternizações. Até mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o local durante seu segundo mandato.

O torresmo de Seu Geraldo transcendeu as fronteiras de Piraí, tornando-se um cartão de visitas da cidade, levado por Pezão a diversos eventos políticos. Sua popularidade, no entanto, foi abalada pela pandemia de COVID-19. Em 2021, Seu Geraldo e sua esposa, Dona Irene, adoeceram, e o bar no Centro de Piraí foi forçado a fechar, levando o proprietário a um período de depressão.

A retomada veio quando um irmão ofereceu um pequeno espaço em um restaurante na estrada para Barra do Piraí. Ali, em instalações mais modestas, o “Rei do Torresmo” reabriu suas portas, e Pezão, mesmo como pré-candidato, continuou a levar amigos e aliados para desfrutar do petisco, chegando a prometer, em tom de brincadeira, a volta do bar ao Centro da cidade em seu programa de governo.

A Reabilitação do Torresmo pela Ciência

Enquanto Pezão e o “Rei do Torresmo” celebram seus retornos, a ciência também oferece uma nova perspectiva sobre o petisco. Por décadas, o torresmo foi estigmatizado como um alimento excessivamente gorduroso e calórico, um vilão para a saúde cardiovascular e o controle de peso.

No entanto, estudos recentes começaram a analisar o alimento com mais profundidade. Uma pesquisa da Universidade de Valladolid, na Espanha, acompanhou 40 mulheres por 98 dias, que consumiram 150 gramas do “Torrezno de Soria” (uma especialidade espanhola similar ao torresmo) duas vezes por semana, frito em azeite extravirgem e, em parte dos casos, acompanhado por vegetais.

Publicado na revista científica Food Science & Nutrition, o estudo concluiu que a inclusão controlada do torresmo em uma alimentação de padrão mediterrâneo, especialmente combinado com fibras e vegetais, não resultou na “catástrofe metabólica” esperada. Pelo contrário, foram observadas melhorias em alguns fatores associados à síndrome metabólica em mulheres saudáveis com sobrepeso.

A repercussão da pesquisa no Brasil, divulgada por veículos como The Conversation e Galileu, destacou que o torresmo é rico em proteínas e colágeno, além de possuir poucos carboidratos, o que o torna popular em dietas de baixo consumo de açúcar. Contudo, é crucial ressaltar que o estudo teve uma amostra pequena, focada em mulheres, e analisou uma preparação específica, frita em azeite extravirgem e inserida em uma dieta controlada.

A principal lição é que o impacto de um alimento depende da quantidade, da forma de preparo, da frequência de consumo e do que o acompanha. Consumir porções controladas de torresmo, preparado de forma saudável e integrado a uma refeição equilibrada, é diferente de devorar grandes quantidades acompanhadas de bebidas alcoólicas.

O torresmo, portanto, não foi totalmente absolvido, mas obteve um “habeas corpus nutricional”. Ele pode ser consumido ocasionalmente, com moderação e preferencialmente acompanhado por vegetais, respeitando os limites do organismo. Para Piraí, e para a Região dos Lagos e Norte Fluminense, essa é mais uma história de superação, onde até o que parecia “frito” consegue dar a volta por cima.

O Rio das Ostras Jornal acompanha as notícias da região e do interior do RJ.

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