
A tendência de empresas alemãs de todos os portes transferirem parte de suas operações e investimentos para o exterior continua a gerar um intenso debate no país. Enquanto algumas companhias buscam reduzir custos e otimizar a produção fora da Alemanha, especialistas divergem sobre a real dimensão e os impactos dessa movimentação na economia e no mercado de trabalho local.
Exemplos recentes ilustram essa realidade: a fabricante de ferramentas de jardinagem Gardena, sediada em Ulm, anunciou planos de cortar 250 empregos na Alemanha, transferindo parte de suas operações para a República Tcheca, o que representa uma redução de 10% de sua força de trabalho doméstica. Grandes multinacionais, como a gigante química Basf, também seguem essa rota, planejando realocar posições de serviços para a Índia a partir de 2026, pressionando postos de trabalho em sua unidade de Berlim.
Cortes de Empregos e a Busca por Redução de Custos
Dados do Destatis (Departamento Federal de Estatística) de 2018 a 2023, embora não sejam os mais recentes, já apontavam para uma "crise industrial" em aceleração. Entre 2021 e 2023, cerca de 1.300 empresas alemãs com mais de 50 funcionários – o equivalente a 2,2% do total – transferiram funções de negócios para o exterior. Essa deslocalização resultou na perda de aproximadamente 50.800 empregos na Alemanha.
A preocupação com a continuidade ou até mesmo a aceleração dessa tendência é alimentada pelos altos custos de energia e mão de obra no país. Historicamente, o investimento estrangeiro visava fortalecer as operações domésticas, expandindo mercados e vendas. Contudo, a pesquisa da DIHK (Associação das Câmaras de Comércio e Indústria Alemãs) revela uma mudança: a participação de empresas que investem no exterior para desenvolvimento de mercado caiu de 30% para 28%.
Volker Treier, diretor de Comércio Internacional da DIHK, aponta que as empresas agora são "forçadas a investir no exterior principalmente por razões de custo", o que frequentemente leva a "cortes significativos nas unidades domésticas". O investimento estrangeiro, nesse novo cenário, passa a ser uma estratégia de redução de custos, e não de expansão.
Diagnósticos Divergentes sobre o Investimento Alemão Exterior
Apesar dos relatos de deslocalização, o cenário não é unânime entre as instituições econômicas. O banco estatal de desenvolvimento alemão KfW, por exemplo, observou em junho uma tendência oposta: "muitas empresas de médio porte estão reduzindo sua presença internacional". Segundo o banco, o número de empresas alemãs de médio porte atuando no exterior caiu de cerca de 880 mil em 2022 para aproximadamente 760 mil em 2023.
Dirk Schumacher, economista-chefe do KfW, atribui essa retração à "deterioração significativa das condições gerais para o comércio exterior", citando tensões geopolíticas na Ucrânia e no Oriente Médio, a crescente concorrência das exportações chinesas e a política comercial protecionista dos Estados Unidos.
Em contraste, a DIHK apresenta um panorama diferente. Com base em sua pesquisa sobre o clima de negócios no início de 2026, Sven Ehling, porta-voz da associação, indicou que as pressões de custos sobre a indústria alemã atingiram um recorde histórico, impulsionando planos de maiores investimentos no exterior. A DIHK aponta que 43% das empresas industriais planejam investimentos estrangeiros em 2026, um aumento de 3 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Os motivos, segundo Treier, são claros: "aumento dos custos, problemas estruturais e condições econômicas desfavoráveis na Alemanha como local de negócios".
O professor Steffen Müller, do IWH (Instituto Leibniz de Pesquisa Econômica de Halle), à Deutsche Welle, sugere que a tendência geral de investir no exterior está longe de ser clara, assemelhando-se mais a um "movimento lateral". Ele destaca que os investimentos diretos de empresas alemãs no exterior estão "bem abaixo dos níveis máximos". Estatísticas do Bundesbank (Banco Central da Alemanha) mostram transações anuais de 120 bilhões de euros entre 2017 e 2022, caindo para 80 bilhões de euros em 2024 e menos de 100 bilhões de euros em 2025. Esses números, para Müller, "dão poucos motivos para supor que um fluxo de capital significativamente maior esteja saindo do país do que nos anos anteriores".
Novos Destinos e Motivações para o Capital Alemão
A pesquisa da DIHK também revela uma reconfiguração nos destinos preferenciais dos investimentos alemães. A América do Norte, por exemplo, perdeu atratividade, com a participação de empresas que planejam investir lá caindo de 48% para 44%. Essa mudança é atribuída, em parte, à "disputa tarifária com os Estados Unidos", que "alimenta a incerteza e faz com que as empresas adiem decisões", conforme Treier.
Em contrapartida, os investimentos na Ásia estão em ascensão. A participação de empresas industriais que investem na China subiu de 31% para 34%, e a região Ásia-Pacífico (excluindo a China) também ganhou importância, crescendo de 21% para 26%. A Zona do Euro, no entanto, mantém-se como a região mais relevante para investimentos alemães, com 64% das empresas optando por ela. A estabilidade, o mercado único e a moeda compartilhada oferecem condições confiáveis, um fator crucial em tempos de incerteza geopolítica.
O Rio das Ostras Jornal continua acompanhando as tendências econômicas globais e seus possíveis impactos.
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