
A crescente busca por companhia em chatbots de inteligência artificial (IA) tem gerado um alerta global sobre os riscos à saúde mental e à qualidade das relações humanas. Recentemente, a China proibiu os chamados "namorados virtuais" de IA, citando preocupações com dependência emocional e vício. No Brasil, e em cidades como Rio das Ostras e Macaé, na Região dos Lagos, o fenômeno também preocupa, com adolescentes e adultos recorrendo à tecnologia em busca de afeto.
Uma pesquisa da Arco Educação revelou que 52% dos adolescentes brasileiros enfrentam dificuldades para fazer novas amizades, e 19% deles já utilizam a IA como forma de companhia. As meninas são as mais afetadas pela solidão, com 33,4% relatando problemas em formar laços. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já considera a solidão uma crise de saúde global, tão urgente quanto qualquer epidemia física, e a ascensão dos chatbots agrava esse cenário.
Para o psicólogo e pesquisador da USP, Vitor Muramatsu, a busca por companhia artificial em momentos de solidão é perigosa. Ele explica que uma "amizade" com IA é artificial em todos os aspectos, pois não possui inteligência genuína nem a capacidade de ser uma amiga real. O que existe são algoritmos treinados para simular acolhimento emocional, mas sem qualquer compreensão verdadeira dos sentimentos humanos.
"As amizades de IA foram programadas para saber acolher dentro do hall de emoções mais comuns dos seres humanos, até mesmo sugerindo soluções. No entanto, ela não está entendendo nada e está zero sensível ao que você realmente está pensando ou sentindo; é pura programação. Acho muito perigoso você colocar os seus afetos e sentimentos na mão de um programador e de uma empresa com interesses privados nas suas emoções", alerta Muramatsu.
Essa visão contrasta com a de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que acredita que a IA terá um papel central na criação de um novo modelo de conexão social, onde amigos virtuais e terapeutas digitais poderiam substituir interações humanas tradicionais. Zuckerberg sugere que as pessoas buscarão sistemas de IA que compreendam suas necessidades e sentimentos, assim como os algoritmos já personalizam as redes sociais.
Contudo, Muramatsu enfatiza que é impossível equiparar a interação física humana com a artificial, pois um chatbot jamais se tornará uma pessoa de carne e osso. "O grande risco é que as empresas estão babando, cheias de vontade de monetizar em cima de pessoas carentes de amizade", adverte o psicólogo.
O uso da IA para preencher lacunas emocionais não se restringe aos jovens. Adultos acima dos 20 anos também têm procurado na inteligência artificial não apenas amigos, mas parceiros românticos que se alinhem às suas expectativas. Muramatsu observa que, após os 25 anos, a tendência é de perda de amigos devido a mudanças de rotina e prioridades. Isso cria um vasto mercado para produtos e serviços voltados a indivíduos que não investiram tempo suficiente em suas relações sociais na juventude, e agora, na vida adulta, têm pouco tempo para reconstruí-las.
"Essa pessoa é uma cliente perfeita para uma big tech vender um app que fala: ‘Bom dia. Você dormiu bem? Está na hora de tomar sua água’, e ela vai achar que aquilo é carinho", exemplifica Muramatsu. A objetificação das relações, já estudada por Karl Marx no século 19, ganha uma nova dimensão com a IA, onde conferimos características humanas a objetos e misturamos as relações. O New York Times, inclusive, relatou o caso de uma mulher que se apaixonou pelo ChatGPT, evidenciando a natureza "falsa" e "vazia" desses vínculos.
Muramatsu conclui que "esse é o grande problema das IAs: vão se aproveitar de pessoas muito vulneráveis e carentes, que vão grudar e defender essas IAs com unhas e dentes."
IA e o vício: a perigosa semelhança com apostas digitais
O psicólogo Vitor Muramatsu traça um paralelo entre a crise mundial de solidão e o vício em apostas (bets). Ele explica que, ao baixar um aplicativo que oferece conversas em troca de moedas ou tokens, o usuário desenvolve uma necessidade de interagir continuamente, investindo tempo e, por vezes, dinheiro.
"Nós viciamos no sistema recompensador neuroquímico das relações prazerosas, não só com IA de amizade, mas com sistemas repetitivos e programados para nos fazer depender do aplicativo, como TikTok e Instagram", afirma. A semelhança com as bets reside no mesmo gatilho neuroquímico: a sensação de que estamos ganhando ou perdendo. A diferença, segundo Muramatsu, é que o software de amizade é mais insidioso, pois se apresenta como um amigo, algo que uma casa de apostas nunca faz. O usuário perde dinheiro e vicia, mas em nome de uma promessa de amizade que, na prática, é apenas um software.
Assim como as plataformas de apostas, que movimentam bilhões na economia global apesar das críticas, os aplicativos de relacionamento com IA também estão projetados para gerar bilhões de dólares até 2028. Eles se sustentam em apelos como disponibilidade incondicional, ausência de rejeição, personalidade ajustável e apoio emocional sem a exigência de reciprocidade, criando um ciclo de dependência.
Redes sociais e a "pasteurização" dos sentimentos: o terreno fértil para a solidão
Mas como a sociedade perdeu a capacidade de distinguir o afeto humano de softwares algorítmicos? Uma das principais causas, segundo Muramatsu, é a "pasteurização dos sentimentos", um efeito do excesso de estímulos gerados pelas redes sociais.
O cérebro humano possui uma capacidade limitada de processar estímulos simultâneos. Para evitar o esgotamento (burnout), ele acaba priorizando alguns em detrimento de outros, levando a uma espécie de anestesia emocional. "Você vê um vídeo da sua prima com o filho dela; uma propaganda de marmita fitness; o bombardeio na Ucrânia; uma promoção de chocolate; uma decisão do STF. Tudo fica meio igual, e não são coisas iguais. Existe uma pasteurização e uma normatização das nossas emoções, de modo que nem sabemos direito o que estamos sentindo", detalha Muramatsu.
Essa falta de sensibilidade e crítica para questões importantes, como tragédias humanitárias, reflete-se na dificuldade de reconhecer a diferença entre um vínculo real e uma simulação bem programada. O mecanismo é similar ao das apostas: no início, há ganhos que fidelizam o usuário; depois, mesmo com perdas, a dependência já está instalada.
É nessa brecha que as amizades de IA se inserem, oferecendo acolhimento sob medida e satisfação para todos os caprichos. No entanto, terceirizar o afeto para um algoritmo não resolve a solidão, mas contribui para o crescimento de um problema que, segundo Muramatsu, está destruindo as relações humanas mais rapidamente do que se pode imaginar.
O Rio das Ostras Jornal acompanha de perto os impactos da tecnologia nas relações sociais da Região dos Lagos e Norte Fluminense.
Leia a matéria original na Forbes Brasil.
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